Imperturbável finitude

Chegam como um ímpeto irreprimível de afirmação. Mal a luz se anima imperceptivelmente e os dias se acrescentam. Chegam como uma família grande à beira do verão e que vai avisando. Ou alguns, nem sempre os mesmos, alguns anos, não chegam. Não podem. Mas quando abrem, como se a abrir a porta de casa quando toca a campainha, mas tudo ao contrário, enchem os olhos da casa.

Chegam e irrompem elas a abrir. Invadem de um deslumbramento, que de existencial tem a qualidade de se saber finito e que vai desembocar no desapontamento. Chegam, de passagem, e vão. Mas naqueles dias em que se instalam no máximo da cor, a invadir espaço e a virar-se intencionais para a luz, são. É preciso aproveitar a curta estadia. Então, junto as flores que me habitam a casa e faço jantares de família – retratos, digo – com janela para o rio.

Ou ponho a mesa para jantar a dois, o que sempre se justifica. Hoje, para a flor gigante e túrgida, silenciosa e possante. Que mais interrogar a tamanha afirmação de estar? Seria ingratidão, até. E antecipar a queda, também. Às vezes tombam pelo pescoço alto, outras enrugam e tornam-se de uma pele fina e delicada, com a cor mais saturada, em canto de últimos dias de cisne colorido de rosa. E ficam os braços ainda firmes e dramáticos para o alto, mas sem já possibilidade de retorno. A última prece. Ponho a mesa de vidros delicados da avó. Guardanapos de pétalas bordadas. Das mulheres já extintas, da família. Saudosas, em suaves respirações inaudíveis nos objectos que guardavam em gavetas, envoltos em panos de branco puro.

Toalha bordada porque é a família. Talheres de desenho antigo e intemporal. Colheres de curva mais côncava e facas de cabo mais pesado. O tempo tem que encontrar lastro para se segurar em terra, em cima da mesa.

A luz baixa para não perturbar e numa vela o precário sopro como a magia do tempo. Apenas dois lugares se enfrentam lentamente. Como gostaria que fosse para sempre quando fosse. Olhar-te o rosto a encher o olhar e sem mais, digo sem dizer. Palavras. Só assim porque as plantas não se expressam e as flores preenchem ao olhar o silêncio. E eu fico ali por horas a tentar que esquecidas. Das perguntas de quem sou. Bebendo nas taças cristalinas, por mim, por elas e pelo rosto aberto na minha frente. Bebo até ao fim da garrafa. E depois, encosto o rosto à mesa e fico ali sob o olhar fixo e sereno. Quieta. Inalterável permanência que me conforta.

O meu sobrinho entra com a chave e pouco ruído. Vem todos os anos deixar-me comida inútil e ver se está tudo em ordem, as contas, a roupa. Acho-lhe umas entradas que não tinha em pequeno, da última vez. Diz-me na sua maneira suave e meio sorridente não podes deixar o gás do forno aberto é para matar as baratas digo. Mas és tu que podes morrer. Penso que é uma criança que não entende que não sou eu uma barata e que gosto de ter a casa limpa e baratas são nojentas. Mas tens visto alguma, não, tem dado resultado.

Sorrio-lhe também gosto de o ver no ano passado não veio. Volto para a semana, não voltes a abrir o gás, promete, diz de saída. Claro. Mas como julga ele que me tenho visto livre delas? Vou com ele à porta e vejo-me de passagem no espelho do corredor. A minha tia M. As pálpebras amolecidas a entristecer, o contorno mais sinuoso do queixo. Mas não sou ela. Sento-me. Ninguém. Foi uma breve visita do passado, do futuro.

Querida tia-avó M. com o olhar leitoso das cataratas, antes da operação e antes do depois. Volto a encostar o rosto ao braço à mesa. E, de novo, a imperturbável finitude.

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