Um outro planeta

Renato Campos é um jovem escritor brasileiro, do Ceará, apaixonado por Portugal. A sua paixão pelo país em geral e Lisboa em particular, junto com o seu preciosismo narrativo, fê-lo escrever o seu primeiro romance não só a partir da capital portuguesa, mas também numa linguagem mais «aportuguesada», em português europeu, e foi publicado em Fevereiro deste fúnebre 2020, com o título «Um Outro Planeta». Infelizmente, devido a este tempo de peste, o livro anda não foi distribuído. Pela fortuna da amizade chegou-me há dias um exemplar em mãos. O livro tem 167 páginas e conta-nos a história de um homem de sessenta anos, Duarte Marques, advogado de sucesso em São Paulo, que regressa à casa da família em Lisboa para o funeral da mãe. O pai morrera onze anos antes, num trágico acidente. Agora, Duarte e a irmã, mais nova que ele, tinham de tomar decisões em relação à casa. Rita aceitaria a sua decisão, não só pela prática profissional de Duarte, mas porque sempre confiara nele a vida toda, mesmo nas longas ausências de anos e anos sem se verem. Duarte decidiu ficar uma semana em Lisboa, na antiga casa onde nasceu e cresceu, para tomar algumas providências mais urgentes e ver que decisão tomar.

No segundo dia, dá-se conta de que os textos que escrevera desde os 12 anos até à ida para a universidade, em Londres, ainda se encontravam nas mesmas gavetas onde os tinha deixado. Nunca mais se lembrara desses textos. À página 24, lê-se: «Desde cedo, em Londres, aprendeu a esquecer tudo. E o que primeiro esqueceu foi ele mesmo. Ao chegar a São Paulo, dois anos depois de terminado o curso em Londres, começou a criar um pequeno império imobiliário com esse crédito inicial de não ser quem era.» A mãe mantivera tudo intacto. Mantivera dentro das gavetas o Duarte que foi esquecido em Londres. Abre uma garrafa de vinho, lembrando de imediato os jantares em casa, com o pai, a mãe e os amigos deles. O livro a partir daqui começa a ter interrupções contínuas da sequência temporal e demoramo-nos em analepses.

Nesta primeira, em que Duarte abre a garrafa, regressamos ao que Duarte pensa do vinho que acabara de provar somente ao fim de três páginas e meia.

Um dos textos mais antigos que encontra, escrito quando tinha 12 anos, traz-lhe lembranças profundas, que julgava ter esquecido. Tratava-se de um poema que escreveu para «Artur, a minha primeira paixão, que estudava na mesma escola, em outra turma. Um ano mais velho, um ano mais alto e, segundo se dizia e o olhar fazia crer, um infinito de mais experiência.» Entre o vinho e as recordações de Artur, lemos finalmente os primeiros versos do poema que escreveu para o rapaz: «Eu aqui no meu mundo / tu aí no teu. / E eu desejando que o mundo não seja muito diferente do teu / ou, pelo menos, que não seja muito diferente. / Uma diferença de que tenho medo / como o pequeno pássaro que trazias na mão com o teu sorriso branco, desconhecido.» O discurso volta para o narrador, que escreve: «Lembrava agora aquela tarde longínqua, junto ao chafariz do liceu, em que lhe leu o poema. O sorriso de Artur, a mão dele sobre o seu rosto, o beijo na fronteira entre os lábios e a face, como se por indecisão e não por cálculo de incêndio, fê-lo arder no mundo pela primeira vez. Nunca mais o desconhecido o fez tremer assim. A lembrança desse momento há muito esquecido ou apenas adormecido, embora talvez ecoando em cada gesto e decisão da sua vida, fazia tremer o vinho, que nunca lhe soubera tão bem.»

Na manhã seguinte, Duarte decide vender a casa. A sua localização, em frente ao jardim do Príncipe Real, a crescente expansão do turismo sobrevalorizando os imóveis e desconfiar de que o dinheiro pudesse talvez fazer falta à irmã, levara-o à decisão. Passa o dia fora, passeando pelas ruas de Lisboa, almoça numa esplanada junto ao Tejo, vê a beleza dos corpos ao sol do fim de Verão, lembra de novo Artur. Lê-se à página 100: «Nunca mais soube dele. Teria casado? Teria envelhecido de modo insuportável, de modo a ser punido pelo espelho, de cada vez que se aproximasse de si mesmo? Ou, ainda que envelhecida, marcada pelos anos, por desgostos da vida, mantinha de algum modo a sua beleza quase intacta?» À noite volta às gavetas. Lê um outro texto que escrevera aos 16 anos: «Ontem, quase a adormecer, cansado de tanto ter bebido, não escrevi uns versos que salvavam o mundo, deixando para o fazer hoje, quando escrevo que ontem não fui capaz de me levantar para escrever uns versos que salvavam o mundo.» E, nesse preciso momento, compreende – não como se compreende uma equação matemática, uma lei da geometria ou mais prosaicamente que já passámos a saída da auto-estrada onde devíamos ter saído, mas como quando descobrimos que acabámos de envelhecer –, que aquela casa é um outro planeta. E mais distante que Marte.

A sua vida, desde que foi para a universidade, passou a ser outra. Escreve Campos, através do narrador, perto do final do livro, à página 147: «Dos anos da infância até ao mundo é outro planeta. E como foi possível não se ter lembrado disso até agora? Como foi possível ter esquecido Artur, aquele tremer original, igualando o desejo ao medo durante um abalo de terra?» Não posso contar o final do livro, não posso falar-vos do narrador, mas posso dizer que o primeiro romance de Renato Campos é um livro belo, escrito com uma sensibilidade que nos mostra o interior humano como uma pintura e sempre com um uso preciso das metáforas. Preciso no sentido em que, não só nos faz ver por dentro, mas nos faz acreditar que a palavra salva, mesmo sabendo que nada nos salva. Nem a habilidade de esquecermo-nos de nós próprios.

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