Fausto

Tudo neste momento me lembra Fausto — sem a longa versão do fabuloso intérprete, é certo — mas pela ruína diária do nosso quotidiano todo ele barricado pela distância viral. Talvez seja o momento épico não esperado que produziu em nós trágica interrogação dado que as nossas vidas parecem ter sofrido uma ruptura estranha que faz agora das quarentenas o tempo necessário para a reflexão e a visitação dos mitos esquecidos. Aparecer é também revelar condições para a manifestação, seja ela de que natureza for. Criámos o campo do manifestado e por vezes ainda invocámos a sua aparição.

Quando esta obra apareceu na Europa veio mergulhada numa busca esotérica que permitiu ao seu autor contemplar formas remotas da cultura europeia, ao mesmo tempo que foi construída em pleno avançar do racionalismo, e muita dessa matéria hermética transforma Goethe em matéria poética. Neste sentido, poder-se-á afirmar que não pode haver passagem sem a união das duas. Fausto, como todas as grandes obras, é também uma “lei orgânica” toda e qualquer realidade mergulha na tragédia de cada indivíduo, de cada colectivo, não da mesma maneira, mas exposta a leis severas que lhes são comuns.

Uma obra assim transformadora tem em si os elementos imperecíveis para alturas de crise. Em coro evocámos os Arautos de todas as ajudas, tivemos respostas para as necessidades, elaborámos sistemas de tráfico intenso, controlávamos as nossas vidas e controlávamos as de outros, mas o tempo da crise muda o rosto dos nossos feitos fabricados e põe-nos perante a sujeição do próprio destino.

E este é desmesuradamente desconhecido para nós. Por outro lado, a infantilização do bem e do mal há muito que cumpriu as suas metas numa espécie de hipertexto global e a jusante uma sombra de desígnios imponderáveis deve, e pode, levantar-se.

O silêncio profundo a que a obra se remeteu é um sono mais… as caldeiras por fora fervem! Este é agora o momento da putrefação e precisamos de Mefistófeles, de Fausto, para passar a viagem sombria. Estamos barricados e cada um regressa à sua parte de vida que sustente a legenda daquilo de que verdadeiramente é capaz. Mefistófeles, no entanto, no seu registo grosseiro, acaba por não ter poder para encantar Fausto, pois este, na sua deriva, jamais se esquecera de quem era e das ruínas do gozo. Ele renuncia ainda a todas as outras coisas que o desviam de um centro onde um outro encontro se dá. Para Fausto, as circunstâncias exteriores deixaram de lhe tocar e o seu grande trabalho alquímico que arranca do pântano reintegra uma outra natureza.

Uma parte – parte I – quase nos relembra a viagem de Tobias, partindo com Rafael e o cão atrás, seguindo-os. Ele vai casar-se com a prima que matou sete maridos pois que o diabo tinha ciúmes dela. Também Fausto em transe para o suicídio muda de ideias ao escutar a Páscoa que se aproximava e sai com um amigo, acompanhados na marcha por um cão farejador, esse cão no entanto era o próprio Mefistófeles com quem sela um pacto. Muitas coisas que nos entram ao caminho podem ser a versão de uma visita com que temos de saber lidar, talvez ela precise de nós para os seus atalhos e não seja para já o inimigo a abater. A longa luta trará aos caminhantes o tempo certo para as despedidas. Do cão de Tobias mais ninguém falou. Os cães das nossas selvas civilizadas estão em estado pouco próprio para escolher seguidores, e são os homens que os seguem agora nos caminhos onde nada destas coisas parecem ter sentido. Mas pode ainda ser a parábola do guardião do diabo que lhe está subjacente.

Tudo vem dos animais e foi até um Peixe que curou a cegueira de Tobite, aquela mescla de ensinamentos que fez cair as cataratas, em outras cataratas, que são agora a nossa outra cegueira. A culpa do agente infeccioso é um manual de probabilidades que nos leva a querer desistir da própria cura e os anjos não fecham fronteiras.

Fausto que percorreu tantos caminhos, encontra-se agora na sua fase de aceitação, as cinzas recuperadas dão lugar à renúncia e outra marcha se avizinha na rota do herói. É uma experiência nova que lhe vai servir de libertação. Ele vai falar da sua destreza e cumprimento de um dever sagrado e o auto deve ser escutado em época de extremo calafrio.

Mefistófeles
Ora dizei-me cá, meus cachorrinhos: nessa panela aí que estais mexendo?
Os Animais
Fartas sopas cozemos para mendigos.

Sem nunca perder de vista um Fausto repugnado, digamos que há um caldo funesto nestas entranhas.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários