Odor a mar

E, ainda no momento em que distraidamente sinto o copo de chá a escaldar nas mãos, pela oscilação estranha de uma memória que me ultrapassa e afunda na enormidade do tempo, um abalo de terra sabe-se lá sob que impacto, lembro-me de como estou próxima das dunas do outro lado do agora mar. Recuo milhões de anos antes da deriva continental, penso em todas as derivas, e logo ali obliquamente a escassos graus de latitude sul nesta Pangeia ancestral, mergulho os pés nus nessas outras areias. Transpondo a distância, naquilo que é afinal um pequeno salto sobre o fio da navalha. Tenho que pensar neste fio. Mas isso será uma outra história para depois. Por agora são 21 graus a sul e a longitude, essa variável em milhões de anos. De ínfima a relevante.

Desço lentamente com o dedo no mapa deste planeta solitário e lanço-o á esquerda sobre o mar como os olhos. Estendo ainda o olhar pelo deserto nesta ânsia de contemplação e mais para oeste saio pelo deserto de azul do oceano. Não estátua de sal, ou me desfaço e perco nesse olhar. Recuo uns graus a sul e não é o deserto, deserto, mas um olhar em plenitude. Talvez em busca de palavras ou de uma luz. E descendo mais um pouco começa a desenhar-se. É talvez um farol em Alagoas. Apontado ao mar. Há tantos. E de súbito coloco-me do outro lado. Seguindo essa imensidão como se ao longo do braço de luz. Caminho pela orla costeira da Ponta Verde, como em qualquer outra franja à beira-mar. Encontro Aurélio. Sim, aquele do dicionário das palavras difíceis. Ou fáceis. Sentado em bronze, com o seu amor à Língua portuguesa. E, noutro ponto, Graciliano Ramos. Um outro ser em bronze, que caminha de cigarro contemplativo e olhar baixo, como quem conta palavras nos passos. Como o realismo pode ser belo ao evocar a passada do caminhante. Eternizados ambos no seu olhar contemplativo para o mesmo longe, mesmo que de dentro. Em busca das palavras também eles e ambos. Porque pensariam achá-las perdidas na imensidão sem ruído.

Como a do mar de palavras. Ou no fim dos raios de luz destino das noite do farol. Com um me apetece sentar e com o outro caminhar. No seu silêncio. E com o outro, chegar.

Porque é um outro dos faróis de Alagoas – o mais bonito de todos – estranho fantasma de outro tempo e uma bela e envelhecida construção em bronze, também, o que me paralisou de espanto. Terá sido belo no seu tempo. E é diferente e belo neste tempo que parece pedir dramaticamente que pare. Deixando a sua luz apagada para que não demasiados olhos por aqui cheguem a mudar este paraíso de areia branca e águas finas de azuis e verdes. É a praia Foz Rio de São Francisco, um rio que barrado mais atrás, esmoreceu no encontro com o mar e o deixou subir mais acima. Uma foz é sempre um pouco revoltosa. Como certos encontros. A adaptação de águas diferentes. Como a espantar visitantes. E se muito o mar cobriu, o resto o fizeram as dunas ao sabor do vento. Também estas escondem segredos de quem viu submarinos pela calada da noite em busca de água doce. Armas debaixo de água e olhar de crocodilos em busca de farol que os guiasse.

Este, inclinado como um velho campanário de Pisa, primos na música que lhes descrevia a alma. A um e a outro. Neste, em forma de luz. Distantes, mas hoje mais. Do que na longínqua Pangeia sem monumentos.

O mar avançou deixando-o fantasmático, ensimesmado e inclinado, e mais que centenário guardião deste mistério de vidas antigas. É o farol discreto, crivado de ferrugens e oxidações várias. Feito de texturas de cores insólitas na pele de bronze com odor a mar, como rugas crestadas de cento e tal anos. Viu submarinos alemães na segunda guerra, abusarem da sua luz inocente. Mas a luz, quando toca, toca a todos. Pescadores como contrabandistas. Talvez por isso se apagou. Se inclinou cabisbaixo. E se corrói por dentro e por fora de mistérios que se teceram ante a sua luz. Como um anjo prestes a afundar, ou a levantar voo.

Quantos graus de inclinação tem aquele olhar baixo, como de cílios introspectivos a furtar o olhar ao horizonte, para sempre? Narciso? Não. Não chega a inclinação a tanto, ficando-se antes pelas águas um pouco além como quem luta contra a ventania do tempo de través. Aspirar. Como uma exclamação de odor a mar. Oh…perfume a mar distante. Com uns graus de inclinação. Jubilado pelos astros. Ou não fossem eles, e porque se fez noite, seria bem escura a vasta abóbada.

Invisível e belo fantasma, agora. Breu em redor. Acendo um cigarro. Mas preciso de um pouco mais de luz para lhe apreciar o fumo. Habituada a esta omnipresente luz artificial que de repente se apagou no bairro.

Nestes quarteirões em volta. Acendo uma vela e penso vai voltar. Há sempre que ter velas em casa. Mesmo que seja preciso percorrer com um rápido pânico os corredores na mais completa escuridão. E, acesa, parece uma qualidade imensa de luz, necessária e no contraste com tudo o resto. Misterioso poder suave de iluminar. Chama. Como um farol as águas ao longe e saber onde se desenha terra. E depois, há sempre os astros.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários