A máscara

Sorrisos de felicidade e esgares de discórdia depreendem-se nos dias mascarados que correm. A máscara tornou-se num objecto essencial no dia-a-dia dos residentes de Macau, um bem fundamental, alvo de enorme procura, a derradeira protecção contra um inimigo invisível.

Não querendo entrar no campo científico no que toca à eficácia das máscaras para evitar a propagação de um surto viral, é impossível escapar à preponderância que este objecto adquiriu nas vidas de todos nós.
Não passamos sem elas, ao ponto de o Governo ter de assegurar o fornecimento regular de máscaras, são essenciais para acedermos a transportes, parques, estabelecimentos comerciais, por aí fora.

Mesmo ao ar-livre, uma cara destapada é um insulto à unanimidade mascarada, uma petulância individual que esbarra no colectivo.

Este fim-de-semana fui dar uma caminhada pelos trilhos de Coloane, fui respirar fundo, desfrutar do grande exterior, do céu imenso e do ar fresco. Nos trilhos, a percentagem de mascarados e caras destapadas dividia-se em partes iguais. O suor e a respiração ofegante humedecem a integridade das máscaras, tira-lhes eficácia. Máscaras e exercício físico são incompatíveis.

Porém, o seu uso nesse contexto é meramente social, não tem nada de clínico. Cobrimos as vias respiratórias com aquele aglomerado químico de não-tecido de polipropileno, um composto derivado do petróleo, por uma questão de cortesia. Aposto que as máscaras cirúrgicas serão um dos itens mais encontrados no lixo que sem piedade enchem mar e terra, mas essa será outra epidemia.

Atalhando a minha ignorante foice numa seara que não domino, este passeio por Coloane recordou-me leituras que fiz há uns largos anos.

Perto do final da carreira académica, um dos maiores vultos da antropologia moderna, Claude Lévi-Strauss, esmiuçava as diversas facetas simbólicas e identitárias de máscaras no livro “A via das máscaras”.

Obviamente, não fiz qualquer trabalho de campo, estive fora de Macau durante o período mais apertado da “prisão domiciliária” a que a prevenção votou as gentes de Macau, e, acima de tudo, não tenho qualificações para tecer considerações de natureza antropológica. Ah, e estas máscaras não têm uma vocação simbólica, ritualística ou identitária. O seu propósito é completamente pragmático.

Ainda assim, apertem o cinto e sigam-me neste rally tascas das ciências sociais e perdoem este exercício de excesso de reflexão.

Em “A via das máscaras”, Claude Lévi-Strauss escalpeliza as relações entre objectos artísticos, as suas funções ritualísticas e acepções míticas num contexto social.

O célebre antropólogo francês teorizou que “uma máscara não existe em si; ela supõe, sempre presentes ao seu lado, outras máscaras reais ou possíveis que poderiam ser escolhidas para substituí-la”. E conclui argumentando “uma máscara não é inicialmente o que ela representa, mas o que ela transforma, isto é, a escolha de não representar”.

Quando coloco a minha máscara estou a estabelecer um diálogo sem palavras com o resto da sociedade. Estou a exclamar: sim, a minha proximidade é relativamente segura e eu tenho em consideração a sua esfera “imunológica”. É um gesto que assegura, que tranquiliza, algo que vai além da representação social, é um gesto que me transforma numa “não-ameaça”, mesmo que a minha máscara esteja comprometida com humidade.

Cobrir parte do rosto com a máscara é quase uma manifestação ritualística, uma espécie de acto carregado de uma indefinível religiosidade unificadora, como um sacramento purificador.

Além disso, a ausência de um rosto inteiro concentra toda a expressividade na percepção do olhar. Estimam-se sorrisos, presumem-se expressões carrancudas, intuem-se olhares preocupados, sempre com uma carga de incerteza. A única coisa que se projecta ostensivamente é o sentido de segurança, escondendo o semblante emocional. Não se pressente aquilo que se sente (incha Gustava Santos!).

Atenção: Estas tolas e despropositadas considerações não pretendem desencorajar ou menosprezar o uso de máscara. A microbiologia está-se nas tintas para significados, simbolismo, representações sociais ou gajos que pensam em excesso. Todos devemos fazer o que está ao nosso alcance para travar a escalada do surto, é algo que nos une enquanto tecido social, independentemente dos muros culturais e das barreiras linguísticas.

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