Quando o frio desce

Quando o frio desce, como se viesse de um lugar impossível, e nos envolve num manto de solidão e nos encolhe o corpo e trespassa sem remissão, é como se outro personagem, num repente, emergisse. Chama-se o nosso inverno e obriga-nos ao recolhimento. Não há sentimento que o combata, nem teimosia capaz de o afugentar.

Nada existe de enunciável nesse inverno mas uma quietude mortal acima dos dias e das noites. Realço então a chama que insiste em dançar no interior de um bloco de gelo, um resto de pensamento, sóbrio mas reticente, por vezes indecente, na busca do fogo, da fogueira extinta na paisagem. A própria memória parece ter partido, imersa nesse frio omnipresente, capaz de congelar uma alma caso ela se desse ao trabalho de existir.

O que fica então dessa miséria a que temos o hábito de chamar eu? Talvez nada, num acesso de lucidez insuportável. É o frio que se afigura eterno e nos desmonta e remonta como se o caos tivesse afinal um sentido. Não tem mas sonho com ele nas margens de uma lareira. À partida derrotado, a deslizar devagar no rio da morte: frio, gélido, inoperante, inconsequente. Mas agora quente, finalmente quente, ainda que exaustivamente só. Como se houvesse verdade e eu estivesse contigo, meu amor.

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