Emergentes

….nós não escondemos o perigo que a alma da humanidade corre, o abismo
do qual essa alma está próxima. Mas também não conseguimos esconder
que acreditamos na sua imortalidade.
Herman Hesse

 

Vivemos um momento que não prevíramos ainda há poucas décadas, um instante mundial que nos fustiga pela agitação espontânea numa transformação que mais não faz que aumentar o estro da nossa imaginação quase incapaz de projectar os efeitos da circunstância. Parece um “tsunami” face a estruturas mantidas programaticamente de pé e que a força do impacto as deixa sem fundições para reerguerem-se, tomam novas imagens, é certo, e tendem a sacudir as águas literalmente dos seus capotes onde improvisam a sua permanência na escala flutuante dos acontecimentos. Mais do que nunca o caminho faz-se caminhando, e não há nenhum, fazendo-se por isso a andar. A improvisação dos movimentos, os bloqueios sistémicos do quotidiano, fazem dos amanhãs que cantam uma coisa vã, pois que temos mais do que nunca que escutar cada dia e nele aguardarmos as mudanças.

Desde os artistas emergentes, que definem a sua marcha com técnicas onde a sua inventividade, cria não só outras estéticas, bem como níveis de observação ainda não contemplados, até aos que se revoltam ( que tudo pode ser em simultâneo) e caminham no dia como numa plataforma mais entre aquilo que dele emerge e possa ser passível de revolucionar as novas estruturas em pleno movimento, à aceleração e à complexidade das formas que fazem com que os pesados aparelhos de Estado não saibam muito bem como lidar neste súbito instante do destino, há outras urgências e emergências que se dão: o clima, a Terra, os arquétipos que se partem e formam um género só, o híbrido ( pondo um fim quase relâmpago ao dois por três) a inteligência artificial, os buracos negros, o capitalismo, os aceleradores de partículas… vão deixando exangues as características da sua identificação. As urnas democráticas afastaram os jovens para as calendas gregas, e, em vez disso, nasceu com eles uma insuportabilidade que vai sendo presenciada em todos os cantos do mundo. Muitos de nós dentro dos sistemas anunciamos obscuras visões de antanho – autoritários, dirigistas – mas não se sabe nada, tal como também nada vimos o que era passível vir hoje a acontecer.

Todos os projectos centralizados não são possíveis sem um grande número de voluntários, e quando se participa estamos ainda para lá de nós mesmos. Os jovens projectam-se sempre com o seu próprio corpo rumo ao futuro, dão a vida como fazem os amantes, nunca sabendo o que virá depois, mas se não o fizessem teríamos razões ainda mais fortes para temer. Agarrámos na geração vindoura com sofreguidão num mundo de acentuado envelhecimento, desejámos resolver a perspectivada vida que tínhamos para eles, mas esquecemos que sem dela se separarem o futuro não existe e a transformação silenciar-se- ia.

Diz-nos ainda que sistemas com propriedades emergentes podem não seguir os princípios da entropia, pois eles se formam e crescem independentemente da falta de um comando ou controle central, e é a isso que parecemos assistir rasgado o véu da primeira essência dinâmica das definições sociais. Este grande corpo não cessa funções nos bons realizados esforços, ele percorre o ciclo do seu conhecimento, e se o fim do mundo é apenas uma noção, já o fim de um certo mundo é um facto real. Fomos compelidos a tentar perceber, e, não haverá reposições traiçoeiras para uma escalada que parte de dentro do mau estar do próprio organismo, contemplar esta substância pode agora ser um desafio que as nossas certezas começarão por tentar corrigir com o tempo perdido de um antigo voluntarismo.

Mas emergem destes dias, também, o estatuto de saber conduzir sem ser conduzido, a desordem que impera na largueza dos gestos, deixar de olhar o mundo como uma escada até à calote mais gelada da inacessibilidade, e se para tanto tiverem que adensar a marcha, foi por que nós ficámos mais parados. Viver neste estado de coisas, parece cada vez mais consensual – não fará sentido – e sem sentido tudo se perde numa propaganda estilística de regime que embalará certamente os mais velhos e mais ricos das Nações.

Será que há continentes submersos também a emergir nesta assentada? Ou estrelas e meteoritos que reguem de impacto a Terra num estertor violeta? Abertos que estamos agora para a Galáxia também as águas oceânicas ficarão mais sós, e nem sempre a nossa ausência por aqui se avizinha agora um mau sinal.
Emergentes de todo o mundo, Uni-vos! Sem vós, que não serão certamente os bárbaros de Kaváfis, serão pela sua voz agora ainda, a única solução.

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