O cinema vê-se em casa

[dropcap]O[/dropcap] filme “The Irishman”, de Martin Scorcese, está a levantar uma enorme polémica em todo o mundo não devido à sua qualidade ou às magníficas representações de Pacino, de Niro e Pesci, mas devido ao facto da produtora — a plataforma digital Netflix — não autorizar o filme em sala de cinema numa séria de países, incluindo a França. Pouco tempo antes da estreia, Martin Scorcese deu uma entrevista em que falava da actual diferença entre entretenimento (referindo-se aos filmes de super-heróis e outras pastilhas elásticas) e cinema. Para o realizador de Taxi Driver, o cinema é algo diferente destas superproduções. Algo que pode comunicar realmente com o espectador, colocá-lo em questão, proporcionar-lhe um sentido estético, inundá-lo de algo mais que não emoções rápidas e de efeito efémero.

Ao não passar nas salas de cinema, “The Irishman” representaria então um paradoxo: um filme “clássico” que não pode ser “classicamente” consumido e apreciado.

Contudo, não me parece nada de paradoxal. É que há muito tempo que os verdadeiros apreciadores de cinema (nos quais me incluo) deixaram de frequentar as ditas salas, na medida em que estas se tornaram num espaço insuportável, destinado a comedores de pipocas e indivíduos com a infância mal resolvida. A sala de cinema, escura, silenciosa, onde ecos religiosos se elevavam, toda ela uma experiência cognitiva especial, deixou de existir para dar lugar a extensões de centros comerciais. Logo, quem gosta de cinema não aguenta aquilo. “The Irishman” (filme excepcional) vê-se em casa, num ecrã acima das 50 polegadas. E mais nada.

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