Zero

Zero. O zero demorou a inventar. Ou terá demorado a perceber a possibilidade de nada e a sua extrema utilidade? Zero é difícil de compreender, é esquisito, provoca ânsias… o vazio. Zero. Zero para quê? Nada é tramado. O vazio angustiante. Ninguém uma suave tragédia. E nisto andamos. Sem sobressaltos. Deslizamos.

Curiosamente, a Terra chata continua o seu percurso de fresbee à volta do Sol e o Sol a sua dissidência láctea, aparentemente sem objectivo decifrável. Um destino de nada é um nada de destino. Ou vice-versa (com pronúncia francesa). Por isso o zero me fatiga, o zero me odeia e me atrai. Acabo por amar o que me cansa, o que me é familiar e incessante. Como o zero. E sabe a nada ou a vento que é o mesmo que nada mas tem uma textura, uma consistência, uma realidade que escapa ao zero. A boca órfã. Os dentes crentes.

A língua vazia. O desdém franco pela telepatia que ao abismo me leva. A boçalidade do buraco negro. Não lhe adianta não servir para nada. Não chega ao zero. E sobra em treva. O zero dos maias, dos semitas ou lá de quem foi! Te arrenego, santo zero, querido vazio, mártir nada, pulga ninguém!
O zero inquieta-me. Respiremos…

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