Geografias da alma

Os dias continuam a viver connosco lá dentro. Não temos alternativa, relembro e relembra o meu poeta mais próximo. E alguns passam lestos, vertiginosos, quase sem deixar outro rasto que não seja um leve aroma a alegria. São os dias felizes, aqueles em que acreditamos que o mundo foi criado à nossa medida e à nossa espera. Talvez um dia desses tenha feito Keats escrever Give me Women, Wine and Snuff, onde exalta o hedonismo e garante que passaria de boa vontade a eternidade com vinho, mulheres e rapé, “My beloved Trinity”, garante-nos.

Depois há os outros, vagarosos, plúmbeos, eternos. Dias de que queremos sair, jaulas de tempo triste que provavelmente não merecemos mas que sabemos que iremos sempre enfrentar. Nós e os outros, os que amamos e os que desconhecemos. Escrevo estas notas ainda sem caminho à vista, um caos doce que com alguma sorte conseguirei transformar em crónica. Estou a meio caminho entre os dias de que vos falo, sentado num cais a olhar os barcos atracados num baloiçar suave. Há silêncio e algumas pessoas que passam. E sem querer descubro-me a pensar nos dias que esses desconhecidos carregam, cheios de conquistas e angústias, iguais aos meus e aos de toda a gente.

“No man is an island”, e o famoso verso de John Donne parece ganhar ainda mais sentido e força quando se está só à beira-mar. Não o somos, de facto, por mais que por vezes gostássemos de o ser. Não o somos e esta certeza tem de ser constantemente relembrada num mundo em que paradoxalmente tudo é criado para encurtar distâncias e oferecer proximidade. Tal é um dos critérios contemporâneos do que se julga ser o progresso. Só que muitas vezes essa proximidade não passa de uma quimera, uma homeopatia para a solidão: existe mas não cura nem resolve.

Saber a geografia da alma e praticá-la parece-me importante. Há pouco tempo falava com uma amiga sobre a insularidade que não é apenas territorial mas sim um traço de personalidade de quem vive em ilhas. Uma vocação contemplativa, melancólica e um eterno dilema entre a fuga e o regresso. Percebo e constato. Mas contraponho a peninsularidade que me habita, talvez fruto de um determinismo geográfico, não sei. Preciso de olhar para o mar mas não vivo sem esse pedaço de terra que me liga ao Outro. Para mim é talvez o melhor dos estados porque a solidão pode coabitar sem problemas com a necessidade de ver e estar com alguém.

Quero acreditar que os tempos não nos estão a transformar em arquipélagos humanos, próximos mas ao mesmo tempo distantes. Não existem substitutos virtuais para a amizade ou o amor, nada que substitua o olhar e a presença. O que temos à nossa disposição – as redes virtuais, a rapidez de informação – são ferramentas e não valores em si. Saibamos aproveitá-las sem as venerar.

E amigos, a ordem misteriosa das coisas voltou a atacar: mal acabei de escrever a frase anterior recebi uma mensagem de alguém que nunca vi mas que pertence à minha rede de contactos virtuais. É uma rapariga colombiana. Escreveu-me que nesta data, há nove anos, ouviu um fado com letra minha que a comoveu e fez com que me contactasse via Facebook. O fado chama-se De Que São Feitos Os Dias. Voltei a olhar para os barcos e juro que vi alguns a sorrir.

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