RPC, 70 anos | A revolução persistente

O Parido Comunista trouxe a China do arado à sonda espacial, da miséria ao espavento tecnológico. 70 anos depois o país conhece o período de maior desenvolvimento da sua História e vê-se na contingência de erradicar a pobreza. Pelo caminho, ficam milhões de mortos e ideias moribundas. A China, como sempre, faz-se… à chinesa

 

No dia 1 de Outubro de 1949, Mao Zedong proclamou a fundação da República Popular da China, ao microfone de um estrado montado em frente à Porta da Paz Celestial, a entrada para a Cidade Proibida, na Praça da Paz Celestial, em Pequim. “Assim começa uma nova era na história da China. Nós, os quatrocentos e setenta e cinco milhões de chineses, finalmente levantámo-nos”, bradou o presidente. Pela praça acotovelavam-se mais de cem mil pessoas, ladeadas pela presença de edifícios imperiais e de delegações estrangeiras, que lembravam cruelmente os últimos 150 anos, nos quais a China, governada por uma administração imperial corrupta, se vira invadida e colonizada por potências estrangeiras, massacrada e dilacerada por várias guerras civis. O povo chinês retomava agora a sua nação e preparava-se para entrar numa nova era, cujos contornos, apesar de radicais na medida em que procuravam construir uma outra sociedade, não se encontravam ainda muito bem definidos.

Pequim havia sido conquistada pelo Exército Vermelho em Janeiro de 1949 mas só em Março Mao Zedong visitou a capital, de forma discreta, pois o líder do Partido Comunista Chinês (PCC) não se sentia seguro e temia a intervenção de espiões estrangeiros. Ainda assim, ali não permaneceu longo tempo, tendo-se retirado para as chamadas Montanhas Perfumadas, a sudoeste da capital, onde montou o seu quartel-general durante até Outubro. E foi aí que preparou, em idílico cenário, condicente com a sua alma de guerreiro-poeta, o que viria a ser, nos anos seguintes, a governação da China nos anos seguintes. Entretanto, Deng Xiaoping e outros generais derrotavam, um pouco por todo o país, os restos do exército do Kuomitang, dito nacionalista, que aos poucos se refugiava em Taiwan.

O fim de 150 anos de humilhações

Com a ascensão do PCC ao poder e o fim da guerra civil, encerrava-se um capítulo desgraçado da história chinesa, no qual o grande império perdera o seu rumo, tendo sido humilhado por várias potências europeias (como em meados do século XIX, pela Inglaterra que fomentou a Guerra do Ópio, obrigando os chineses a comprar a droga, e exigindo a posse da ilha de Hong Kong) e asiáticas (como o Japão, que invadiu a China, perpetrou inúmeros massacres e estabeleceu mesmo um reino fantoche na Manchúria, encabeçado por Puyi, o último imperador da dinastia Qing, extinta em 1911).

Agora tratava-se levantar o país e o seu povo, de alimentar e alfabetizar as massas e construir as fundações de uma sociedade socialista. Se Mao Zedong tivesse falecido até 1955 seria por certo considerado, quase sem mácula, um dos maiores homens do século XX. No dia 1 de Outubro de 1949, Mao tinha 56 anos e passado uma vida plena de sacrifícios, vergada aos rigores da guerra.

Enquanto comandante militar, o agora presidente da República Popular dormia com as suas tropas e comia com elas, conquistando assim a sua devoção. Foram anos e anos de má comida, maus sítios para dormir e apenas água fervida para beber.

Foi por isso enorme a diferença quando, depois da fundação da República, ocupou a sua casa em Zhongnanhai, o espaço destinado aos dirigentes, paredes meias com a Cidade Proibida. Era uma ala de um palácio mandado construir pelo imperador Kangxi, o segundo da dinastia Qing, conhecida como o Pavilhão do Crisântemo Perfumado. Em seu redor, reinava uma absoluta paz, um intenso silêncio, arredado apenas pelos trinados dos pássaros e o rumorejar do vento nos bambus, em contraste com o bulício característico das ruas da capital.

Terá sido neste local que Mao Zedong tomou grande parte das decisões fundamentais para o desenvolvimento da China, sob a bandeira e as directivas do PCC. Aqui recebia os membros do seu governo e representantes estrangeiros. Contudo, agora que a guerra tinha acabado, começava a tarefa gigantesca de reconstruir um país completamente estilhaçado, basicamente agrícola, longe de possuir a estrutura económico-social necessária à construção da utopia comunista.

Grandes saltos para o abismo

Talvez inspirado por grande imperadores, nomeadamente pelo homem que pela primeira vez unificou a China em 221 a.E.C., Qin Huandi, Mao Zedong lançou o seu povo em grande trabalhos colectivos, estabelecendo metas produtivas e projectos de realização complicada. A verdade é que, em termos de economia e produção, as medidas do governo não pareciam estar a resultar.

Em 1955, o Grande Salto em Frente e a campanha do aço revelaram-se um salto para o abismo, provocando o alastrar das fomes e causando a morte a muitos milhões de pessoas.

Pelo fim dos anos 50, princípios de 60, grassava algum descontentamento entre as fileiras do PCC perante a ineficácia das medidas e dos projectos do Grande Timoneiro. Um dos que expressou a sua insatisfação foi Deng Xiaoping, incomodado com a catástrofe económica e alimentar que o país atravessava, também na medida em que compreendia que tais factos tornavam a China mais vulnerável às pressões externas do mundo ocidental que não via com bons olhos a revolução comunista.

Mas Mao Zedong tinha outros planos. Ao sentir o poder escapar-lhe aos poucos, bem como a dissolução do seu próprio carisma, encetou o que viria a ser conhecido como Revolução Cultural.

Mao atribuía as desgraças ocorridas aos burocratas e aos intelectuais, que ainda sofreriam de influências burguesas. Para ele, o poder devia ser entregue aos operários e aos estudantes, as verdadeiras forças revolucionárias. A revolução devia ir mais longe no apagar do passado e das doutrinas reaccionárias. A tradição confucionista, por exemplo, devia ser considerada algo pertencente ao antigo regime feudal e totalmente apagada. Neste sentido, o Estado e o Partido sobrepunham-se à família e aos valores de piedade filial.

O fascínio europeu

Entretanto, na Europa as esquerdas encontravam-se decepcionadas como rumo da União Soviética. Surgia o primeiro euro-comunismo de Enrico Berlinguer, em Itália, e de George Marchais, em França. Dada a proximidade dos países além da Cortina de Ferro, era mais fácil aos europeus darem conta dos atrocidades e da inoperância dos regimes com influência soviética, nomeadamente devido ao excessivo peso do Estado e das suas burocracias. Por isso, a Revolução Cultural chinesa, observada à distância e através dos seus slogans, parecia a saída genial, possível e desejável para atenuar o poder centralizado dos burocratas, entendidos como uma nova classe dentro do estados socialistas. Mao Zedong tornou-se a grande referência da esquerda europeia que não alinhava com os partidos comunistas satélites da União Soviética, nem com a brandura das posição dos euro-comunistas.

Era então comum ver nas manifestações, nomeadamente no Maio de 68, o “livrinho vermelho”, com as citações de Mao Zedong, ser empunhado como bandeira da revolução a haver e como farol para a aplicação de medidas revolucionárias. Na primeira metade dos anos 70, alguns intelectuais franceses de nomeada como Philippe Solers, Roland Barthes, Julia Kristeva, entre outros, visitaram a China, a convite do governo, para assistirem às maravilhas da Revolução Cultural. Foi-lhes explicado, entre outros aspectos, como fora destruída a ópera tradicional, repleta de “temas feudais e burgueses”, e substituída pela Nova Ópera, de feição revolucionária.

O resultado não foi unânime. Se alguns se deixaram impressionar pelos “progressos sociais”, outros suspeitaram de um país onde todos se vestiam de igual e recitavam a mesma cartilha.

A revista “Chine”, da Tel Quel, publicada em 1972, e os “Cadernos da China”, de Roland Barthes, são um bom exemplo desta ambiguidade e estranheza experimentada no confronto directo com a realidade da China da Revolução Cultural. Outro é o filme-documentário de Michelangelo Antonioni “Tchong-Kuo”, que não deixou o realizador italiano de boas relações com as autoridades de Pequim.

Entretanto, desde 1966, ano em que foi lançada a Revolução Cultural, que dezenas de milhões de pessoas haviam sido perseguidas, humilhadas, deportadas para campos de trabalho e assassinadas. As crianças eram estimuladas a denunciar os pais, os subalternos a denunciar os seus superiores, aos Guardas Vermelhos, uma espécie de milícias populares que exerciam um poder violento localmente. Muitos professores, médicos, engenheiros, artistas, escritores foram despedidos, numa ânsia de afirmação do “saber revolucionário” como o único a considerar. Os excessos foram mais que muitos e atingiram limites que deixaram uma marca indelével na sociedade chinesa.

Um deles — e talvez um dos mais significativos — passa pelo apagamento da memória colectiva de valores, hábitos e procedimentos. A Revolução Cultural, erigindo Mao e o PCC como as grandes referências, excluía, ao mesmo tempo, milénios de cultura chinesa, com as suas práticas tradicionais enraizadas. Há mesmo quem diga que, paradoxalmente, foi este apagamento das antigas práticas e valores, proporcionado pela Revolução Cultural, que permitiu a rápida instalação do capitalismo na China, a partir dos anos 80 do século passado.

Entretanto, o poder do chamado Bando dos Quatro, os grandes mentores do regime, ia-se esboroando e atingiu o seu ocaso com a morte de Mao Zedong em 1976. Assistiu-se então à rápida ascensão de quantos se haviam oposto aos excessos maoístas e, apesar disso, sobrevivido. À frente de todos, estava Deng Xiaoping.

Deng, o arquitecto insaciável

Talvez ainda mais do que Mao Zedong, com certeza de forma mais discreta, Deng Xiaoping é o líder chinês mais importante da segunda metade do século XX, que lança o país no caminho da abertura, reformas e prosperidade. Nascido em 1904, numa aldeia poeirenta da província de Sichuan, em família relativamente abastada e cedo dando provas de rara inteligência, Deng viera para a cidade de Chonqing com apenas 12 anos, na companhia de um tio paterno, onde estudou sob a alçada de um velho revolucionário chamado Wu Yazhang, que preparava jovens chineses para programas de estudo em França. Na verdade, tratava-se de uma iniciação às actividades revolucionarias.

Apesar das dificuldades que passou nesse período, a estada em França revelar-se-ia crucial para o jovem Deng. Paris fervilhava de actividades conspirativas e revolucionarias, numa Europa que conhecia a megalomania e a loucura de um primeiro pós-Guerra. Aí conheceu o que viria a ser o grande líder vietnamita Ho Chi Min e, sobretudo, Zhou En Lai, em cujo apartamento chegou a morar. Deng acabaria por aderir ao PCC, ainda em Paris, em 1925.

De regresso à China em 1926, Deng inicia uma longa carreira militar. Os comunistas viviam tempos difíceis, tremendamente abalados pelo massacre ocorrido em Xangai em 1927, por ordem de Chiang Kaishek. Também o PCC apresentava, na altura uma profunda divisão entre os que entendiam seguir os ditames soviéticos, emanados por Estaline, e outros que entendiam ser chinesa a solução para a China. Neste aspecto, Deng concordava com Mao: ambos consideravam que primeiro era fundamental conseguir o domínio dos campos e a boa vontade dos camponeses e só depois vinham as cidades. Só que era precisamente nas grandes cidades que estavam instalados os grandes dirigentes do partido, que tinham apoio financeiro e ideológico de Moscovo. E as ordens russas eram claras: primeiro havia que conquistar as cidades. Ora Deng sabia que este seria um erro fatal e continuou o seu trabalho na província.

Fundamentalmente, tratava-se de ir pela província fora, pelas montanhas, pelas veredas de difícil acesso, politizar os camponeses e trazê-los para o combate. Em 1933, teve de responder a uma comissão de inquérito do partido. Não se tratava bem de responder mas de ouvir acusações e acabou por ser preso e exilado em Nancum, um lugar distante dos centros de decisão comunistas.

Contudo, este seu primeiro exílio durou muito pouco tempo já que as tácticas dos comunistas apoiados por Moscovo conduziram o partido de derrota em derrota, até que em 1934 os militares que rodeavam Mao Zedong acharam que ra tempo de dizer basta. E disseram-no: na conferencia de Zunyi, em Janeiro de 1935, Mao foi eleito dirigente máximo do partido. Este momento marcou a primeira recuperação de Deng depois da sua primeira grande queda e o seu regresso às frentes de batalha. Aí revelou-se um grande senhor da guerra. Foi ele quem derrotou os mais importantes contingentes do Kuomitang, o que lhe valeu na altura os mais rasgados elogios de Mao, que o destacou para a frente Oeste, onde obteve grandes sucessos militares.

Em 1952, Mao mandou-o voltar a Pequim para ocupar um lugar de primeira linha: vice-primeiro-ministro, encarregado de questões administrativas e económicas. Em 1954, era eleito secretário-geral do partido. Seguiu-se um período de grande convulsão interna no PCC. A culpa era em grande parte de Maio Zedong, que veio a revelar-se um dirigente bastante fraco do ponto de vista estratégico-económico e mesmo ideológico. Obcecado com a luta de classes, lançou várias purgas para eliminar o que chamava de elementos “burgueses” no aparelho do partido e no Estado.

“Comunismo não é pobreza”

O primeiro choque relativamente entre os dois líderes ocorreu em 1960, por ocasião de uma grave crise económica na China. A indústria não funcionava, o comércio encontrava-se paralisado e tinha cessado a ajuda soviética. Pior: os alimentos escasseavam e o povo preparava-se para enfrentar a fome. Deng não esteve com meias medidas: mandou comprar seis milhões de toneladas de trigo no mercado mundial e pagou-as com o dinheiro dos delapidados cofres estatais.

Mao espumou. Ainda por cima, o trigo fora pago com divisas estrangeiras. Tomou a medida como um passo atrás na direcção do capitalismo. Deng calmamente respondeu que “comunismo não é pobreza”. E não se ficou por aqui: em 1961, perante o comité central, sai-se com esta: “Qualquer ideia que tenha sido levada em frente e já não sirva, deve ser rectificada.

Não importa quem a tenha criado”, numa clara referencia a Mao. E continuou com a célebre frse: “Não importa se o gato seja branco ou preto. Se apanhar o rato, é um gato.”

Era demasiada a ousadia. Mao começou a referir, em público e em privado, que alguns membros do partido queriam fazer entrar o país na estrada do capitalismo. Sentia que o poder lhe escapava das mão e resolveu tomar medidas “totais”, como ele gostava. Foi o início da Revolução Cultural, à qual Deng não escapou. Desterrado com a sua mulher para a província de Jiangxi, com residência fixa, sem direito a comunicar com o exterior e sem qualquer espécie de salário. Quem sofreu mais severamente foi o seu filho mais velho, estudante da universidade de Pequim. Os Guardas vermelhos prenderam-no e torturaram-no para o obrigar a confessar a traição do pai. Deng Pufang afirma não se lembrar exactamente do sucedido mas, depois de ter sido brutal e sucessivamente espancado, acabou por ser atirado de uma janela e ficou inválido para toda a vida. Na aldeia onde nasceu, tudo o que se relacionava com os Deng foi destruído, incluindo os pertences de outros membros da família que há muito não sabiam dele.

Com a morte do seu inimigo Lin Biao, em 1971, Deng escreveu a Mao, propondo-lhe regressar ao trabalho. Quem lhe respondeu foi Zhou Enlai, que nunca deixara de ser seu amigo, informando-o de que era necessária uma carta dirigida a Mao, uma autocrítica severa. Deng escreveu-a. Em 1973, tomava posse como vice-primeiro-ministro, ao lado de Zhou.

Em 1975, Zhou Enlai apresentava um programa de modernização, sem referências ideológicas, contra a estagnação económica. Ali estava o projecto de Deng para uma nova China até ao ano 2000. Agora tudo se jogava na sucessão, quer de Mao quer de Zhou, ambos moribundos. O Bando dos Quatro e Jiang Qing, a mulher de Mao, reunia as suas forças e aguardava a hora fatal.

As suas relações com Deng estavam completamente deterioradas. Ela chegou a insultá-lo em pleno Politburo, até que ele bateu com a mão na mesa, farto das suas gritos e imprecações. Voltou-lhe as costas e deixou-a a arengar sozinha. Entretanto, ia arranjando os apoios certos, nomeadamente entre os militares que o consideravam um deles.

Um ano depois da morte de Mao, com o Bando dos Quatro na cadeia, Deng voltava ao poder e lançava as reformas que só duas décadas mais tarde se mostrariam consolidadas. A este pequeno homem, fumador inveterado e grande jogador de bridge, foi destinado o papel de arquitecto da China moderna, incluindo o princípio “um país, dois sistemas”, que contextualiza o regresso à Pátria de Hong Kong e Macau. A ele se deve a abertura económica, o estabelecimento da propriedade privada e da economia socialista de mercado, na qual se usufrui de liberdades económicas, sob a direcção do PCC. Sob a sua batuta, a China encetou o caminho da modernização e do crescimento que havia de a catapultar ao topo das potências mundiais, só ultrapassada pelos EUA.

Abertura sem retorno

Claro que não se tratou de um caminho linear e sem sobressaltos. Toda a década de 80 assistiu, entre o arrancar das medidas reformistas, à existência de uma luta no interior do PCC entre os que eram pró-reformas e os que as temiam, na medida em que tal poderia significar o fim do controlo do partido. O cúmulo deste combate foi atingido em 1989, durante as manifestações da Praça Tiananmen, os acontecimentos que ensombraram a parte final do consulado de Deng.

Face aos protestos, Deng chegou à conclusão que só a repressão poderia impedir o país de cair no caos. E para tanto não se importou de sacrificar o seu favorito Zhao Zyiang e de ordenar o avanço das tropas sobre os manifestantes.

Muitos temeram, no pós-Tiananmen, pelo fim das reformas e na marcha-atrás da abertura da sociedade chinesa. Mas o impulso dado por Deng era, basicamente, imparável.

Em 1992, num congresso crucial na medida em que pouco tempo passara e pouco fora esclarecido, o então presidente Jiang Zemin anuncia claramente dois aspectos: a continuação das reformas económicas e o reforço do papel do partido. Ou seja, para Jiang, não existe contradição entre uma economia de mercado e a planificação estatal. Ambas podem ocorrer em paralelo. A diferença é que, a partir de agora, as empresas estatais passam a estar inseridas no mercado e a jogar pelas suas regras, tecendo a sua sobrevivência aos sabor das leis económicas.

Com Jiang Zemin e, sobretudo, com o primeiro-ministro Zhu Rongji, a China entra decisivamente no mundo capitalista e na economia de mercado, impondo reformas atrás de reformas, cujo resultado está à vista de todos. Em muito pouco tempo, a China obteve um crescimento exponencial, aumentou o seu PIB e as exportações de uma forma radical, nunca antes vista na História. Deslocando pessoas dos campos para as cidades, modernizando a agricultura, fomentando as indústrias e os serviços, o governo chinês levantou de forma considerável o nível de vida do povo e viu-se na posse de fluxos de capital inimagináveis umas décadas atrás. A China tornava-se num dos países mais poderosos do mundo, não apenas graças ao tamanho da sua população, aos meros números, mas sobretudo em aspectos económicos e militares. A Jiang Zemin e a Zhu Ronji sucederam Hu Jintao e Wen Jiabao, que prosseguiram no caminho das reformas e abertura económicas, solidificando o papel da China no panorama internacional.

Agora membro da Organização Mundial de Comércio e de outras instituições internacionais de relevo, a China começa a desempenhar o papel de superpotência pelo modo como a sua influência se espalha pelo mundo.

E agora, para onde vamos, dr. Xi?

Deng considerara que a eternização dos líderes no poder era contraproducente e para o evitar introduzira na constituição uma regra segundo a qual o presidente poderia apenas cumprir dois mandatos, tendo obrigatoriamente de dar o poder a outros. Esta regra teve um efeito profundo na psicologia do PCC pois possibilitava a permanência da esperança para os que não se encontravam, num dado momento, no poder. No seio do partido, as facções alinhavam-se, como se de subpartidos internos se tratassem, no sentido de disputar as cadeiras de 10 em 10 anos.

No entanto, com a subida ao poder de Xi Jinping esta regra foi alterada. A China tem agora um líder diferente dos que sucederam a Deng Xiaoping. Xi pretende uma maior centralização do poder, uma maior influência do PCC a todos os níveis da sociedade e identificou os dois pólos de conflito na China de hoje: segundo o presidente, hoje a grande contradição que urge resolver é o fosso crescente entre ricos e pobres, que o desenvolvimento capitalista proporcionou. Esta distância entre as pessoas, entre litoral e interior, é a causa de desarmonia no país e tem de ser debelada. Para levar a cabo a resolução deste problema, Xi encetou uma gigantesca campanha anti-corrupção e estabeleceu a meta de 2020 para erradicar a pobreza.

Contudo, além de ter eliminado a limitação de mandatos, o que faz prever a sua continuação em 2023, Xi Jinping tem desenvolvido um estilo que lembra o culto pessoal que foi dedicado a Mao e que tanto horrorizara Deng. Mesmo a iconografia agora utilizada e as honras prestadas ao presidente evocam outros tempos, que muitos chineses julgavam ultrapassados e fazem temer pelo aumento da repressão, agora sustentada por uma tecnologia que faz a distopia “1984” parecer uma brincadeira de crianças.

Xi tem igualmente promovido medidas de alcance social de mérito duvidoso. Recentemente, está a ser introduzido na China um regime de crédito social que classifica as pessoas de acordo com o seu comportamento, estabelecendo castigos e recompensas, implicando limitações na obtenção de emprego, nas deslocações pelo país e ao estrangeiro. Agora tudo conta para a pontuação: o que se come, o que se lê, quanto se trabalha, como e quem se namora, etc., etc.; tudo é controlado e classificado, finalmente atribuídas as recompensas ou os castigos, ao modo dos legistas, a corrente filosófica chinesa que mais aposta na centralização do poder e na governação pelo exercício da lei.

Por outro lado, nunca como com Xi Jinping a China foi reconhecida internacionalmente, muito por efeito da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, que faz do país uma referencia incontornável no xadrez da economia mundial. Xi é obviamente um homem inteligente, filho de um herói da revolução, que gosta de citar a História e a Literatura nos seus numerosos discursos, que já constituem leitura obrigatória. Hoje fala-se no “Pensamento de Xi Jinping” como antes se falava no “Pensamento de Mao Zedong”, dele fazendo o guia para o que se chama de “Nova Era”, o momento de realização do povo chinês. “Nós somos os filhos do Dragão. Temos o cabelo negro e a pele amarela”, disse Xi Jinping, estimulando o nacionalismo chinês, que de momento substitui as delapidadas frases da ideologia comunista como cimento ideológico do povo.

Apesar do desmembramento da União Soviética, em pleno processo de abertura na China, o PCC conseguiu manter o seu controlo da sociedade e permanece no poder, quando muito alvitraram com o inevitável a sua queda. Na China, as coisas acontecem à maneira chinesa e não doutra. 70 anos depois do advento da República Popular — da “dinastia vermelha” como alguns gostam de chamar — a China recuperou o seu lugar cimeiro entre as nações, tirou o seu povo da miséria física e intelectual e tornou-se numa importante potência económica e militar. Tudo isto foi conseguido à custa de muitos sacrifícios, não apenas de um povo abnegado, mas também de uma terra que hoje se vê semi-destruída pelos excessos capitalistas que pouco quiseram saber da ecologia. Tudo isto implicou a morte de milhões de pessoas, lutas fratricidas pelo poder, recuos e avanços constantes. E, sobretudo, a ausência de um bem que os chineses praticamente nunca conheceram ao longo da sua milenar História e a que nós insistimos dar o singelo nome de “liberdade”.

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