Olá mãe!

Talvez esteja quase a entrar no chamado inferno astral, como todos os bons aniversariantes, cerca de um mês antes da dita efeméride, talvez seja deste tempo que no mesmo dia muda várias vezes do azul para o cinzento, talvez seja do adiantado da hora e de Setembro. O ano termina daqui a três meses, Junho despediu-se sem que mal o tenhamos vislumbrado (num ano em que voltámos a ter frio nos Santos Populares) e não estou certa de que Maio, até agora o meu mês preferido, tenha chegado a terminar. Os dias 25 parecem, em geral, bons para a independência.

Tendo vivido algum tempo com duas pessoas cuja formação de base é da área da psicologia, habituei-me a ouvir as suas histórias caricatas dos tempos lá passados, mas sobretudo a usar a expressão “Fazer as malas e bazar para Moçambique”, usada por uma dessas amigas para descrever a sua hilariante fuga para longe de uma relação.

É a primeira vez que volto a um país onde não faço parte da minoria, um sentimento indescritível a não ser pelo meu sorriso. Nunca aqui estive mas, como denota um amigo, sinto-me em casa tão imediatamente que nem consigo tirar fotografias. As primeiras, envio à minha irmã, precisamente por saber que ela vai reconhecer a descrição que faço, não se parecessem estes bairros com os da cidade em que crescemos. Quando aqui chego, e durante os próximos dias, observo sempre, em algum momento, borboletas à minha volta. Não me transformo nelas, nem são amarelas, mas alegram-me. Tudo faz sentido neste sortido de cores vibrantes e escritos curiosos, desde os avisos para não fazer xixi (o equivalente aos não escarrar para o chão de Macau) ao conselho Moçambicanos, não troquem o pão por doces, ao meu novo mantra, encontrado no Mafalala: Caiu mas vai levantar.

É a primeira vez que me chamam mãe, embora não a primeira em que me confundem com a de alguém. É, também, o dia da mãe. No segundo dia, saio do hotel assim que o cansaço da viagem permite, e deambulo durante cinco horas pelas ruas de Maputo. Os moçambicanos são conversadores, simpáticos, práticos, curiosos, prestáveis. São campeões de vendas: de manhã à noite, estão em constante negociação. Caju, amendoim, brincos, estátuas, flores. Muitas flores, porque são um povo absolutamente romântico. Enquanto espero para almoçar, aparece mais um.

Tem um produto verdadeiramente único, em madeira, quase do seu tamanho, para me apresentar: África. A vida dispensa metáforas.

Na Avenida Marginal, faço amizade com dois polícias, homem e mulher. Um desportista alerta-me de que nem todos os que por ali caminham são bem-intencionados. Por falar em desportistas, quase me junto a uma aula ao ar livre. O sol nasce e põe-se tão cedo aqui que pelas dez já me sinto como se fosse uma da tarde. O ninho do tecelão parece um coração invertido. Não muito longe de onde o Carlos apanha um para me mostrar, numa loja, na praia, assistimos a um concerto de tear, tocado por um rapaz que mal o larga para nos vender inconfundíveis sacos coloridos. Ao regressar pela reserva, os animais que não se manifestaram durante a vinda proporcionam-nos o melhor momento do dia: macacos, gazelas, girafas. É outra vez sábado. Só estou aqui há uma semana? Ficaram-me a Vanessa, a Ana Mafalda, a Estela, o Mbate, o Ondjaki, o Valter, a Carmen, o Patraquim, o Mendonça, o Pignatelli, o Carlos, a Énia e tantos outros resilientes.

Ficou-me a Teresa vestida de branco, naquela última manhã de domingo. A foto da Luna de que só se lhe vê o cabelo luminoso, no banco de trás do carro, no dia em que fomos dar um mergulho à Ponta do Ouro. Uma outra, da Jade, deitada ao comprido no sofá, descalça, pé direito enroscado no esquerdo, livro na mão como tantas vezes esta família parece andar. Jade com a gata ao colo, Jade a comer queijo deliciada, Jade a explicar-nos o mundo e a ralhar ao pai à mesa, em conversas divertidíssimas. Ficou-me o Cabrita à janela, em modo despedida, talvez ainda a lamentar as flores vermelhas das acácias que não coincidiram o seu tempo com o meu, enquanto a Sónia vem de casa da irmã, do outro lado da rua, e me dá mais um livro e uns quantos abraços.

Ficou-me a doce Hirondina, que conheci em Macau e a Keysha, essa miúda maravilhosa, tão jovem, mãe de uma menina que fez um ano daí a dias.

Volto para Portugal mais pesada, e não é só dos livros, ou não tivéssemos comido e bebido à fartazana. Volto com mais um sonho realizado. Volto com um verso do Craveirinha, “O que há a fazer sou eu que tenho de o consumar.” Ficou-me o clássico “africano a tentar convencer outro a transportar-lhe qualquer coisa numa viagem intercontinental”, neste caso duas mulheres que se me dirigem, uma delas passageira e a outra embaladora de malas com película aderente no aeroporto.

Ficou-me o comerciante que ameaçou atirar-me à água quando fotografei a sua loja sem reparar que ele estava lá dentro, as fotos desfocadas de estranhos nos my love ao pôr-do-sol e essa saudação tão bonita que se ouve em todo o lado. Olá amiga, olá mãe.

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