Sem título

Ontem não houve nada que não me acontecesse”, afirma uma mulher. Desço do autocarro sem saber do seu passado recente, que poderia bem descrever a minha vida, em todos os seus tempos. Passo pelo Profeta do Cais, que continua a apregoar não a sua opinião, mas a palavra de Cristo. Repete, incessantemente, que vem em nome de Jesus, em poder e autoridade gentilmente cedidos por Ele. “Para que ninguém nos engane”. Desperta curiosidade e gáudio, este jovem moreno, magro, de barba e cabelo desgrenhados, munido de Evangelho e mochila. Quer saiba ou não, irá certamente parar a uma qualquer rede social, como meme ou vídeo viral. Eu penso em Bashô.

no lugar sagrado
as pessoas não param
de se empurrar

No trabalho, um colega partilhou estes dias a sua alegria por ter descoberto uma igreja onde a missa é em inglês, útil para a sua família sul-africana em que nem todos falam português. Quanto ao jovem, o seu pregão não parece ter fim, nem a sua fé, o trânsito, a multidão, o barulho ou a música. Pergunto-me o que faz quando não está ali, do mesmo modo que me pergunto o que fazem os vendedores de castanhas quando acaba o Outono, se bem que actualmente, como o clima anda, já ninguém estranhe que se vendam castanhas e gelados, harmoniosa e simultaneamente. Espero que caminhe na luz em que se vê.

ninguém diz
como molhou as mangas
nesta retrete

Caminho umas poucas centenas de metros até onde me esperam. No primeiro dia, sentei-me com eles à espera uns bons dez minutos, até fazer a pergunta certa. Saber quem gosta de grão, quem prefere uma certa sopa ou não come sopa, de todo, tem miúdos ou é intolerante à lactose. Prestar atenção a rostos, números, caixas, datas. Voltar a usar avental. Enganar-me a registar coisas. Saber quem vem hoje e quem quase nunca vem e que, por isso, precisa de um pouco mais. Saber quem vem todos os dias e, ainda assim, parece acreditar que o pão nosso de cada dia não é suficiente. Sei bem como é, o medo e o não confiar que existe essa abundância em tudo. Ironicamente, é em parte devido a essa abundância, esse excesso, até ao nível do desperdício, que aqui estamos.

o meu amigo
trouxe arroz
e a lua

Saber quem tem luz, água, casa. Cometer mais erros. Recordar quem se queixou com uma careta, na semana passada, de que não gostava de beterraba, e que parece vir quando lhe apetece ou melhor, age sempre como se não fosse aparecer. É preciso lavar as mãos e limpar a bancada muitas vezes. Não misturar utensílios. Usar uma touca na qual o meu cabelo claramente não quer caber. Dar conta da loiça que se acumula tão rapidamente. O pão mais requisitado é o de fibra, com sementes e passas, logo o que há em menor quantidade. Adoro esse pão, mas ainda não consigo associar os nomes aos rostos ou ambos aos números. Rejo-me por listas e perguntas, por apresentações. Sinto que estou numa cozinha mas não cozinhei, num restaurante mas não existem mesas, só cadeiras e fila e uma sala de espera, que estou numa padaria mas ninguém pede a conta, num supermercado em que toda a gente traz o seu saco, leva e devolve recipientes de cada vez, sem IVA, factura ou cartões de desconto.

enrola bolos de arroz
só com uma mão
com a outra afasta o cabelo

Um homem, cuja comida vou ajudando a colocar dentro do saco (entre carne, arroz, bolos, iogurtes, salada de frutas) pergunta-me se sou de Cabo Verde. Um sinal? Não que precisasse de um para saber que estou precisamente onde devo estar. Rio-me, respondo que é a pergunta que mais me fazem, talvez mais do que como é que me chamo. Estende-me a mão, cumprimentamo-nos. Digo-lhe de onde vim. Ele é angolano mas, pelos vistos, é frequentemente confundido com um cigano. “Então se estiver de preto e com um chapéu… os próprios ciganos já nem perguntam, assumem que sou um deles.” Somos todos tudo, nenhum lugar é garantido e todos podem ser invertidos, mas duvido que este homem precisasse da invenção das hashtags para saber de algo tão básico.

1686 ANO NOVO

Comendo o que me dão e o que mendigo, sobreviverei
sem fome até ao fim do ano.

talvez eu seja
uma dessas pessoas felizes
que vão chegar ao fim do ano

Servem-me café num conjunto antigo de chávena e pires delicados, com arabescos florais, do qual me esqueço, como vem acontecendo muitas vezes. Tomo-o já frio, não me demoro porque, afinal, duas horas passam demasiado depressa, mesmo se bem passadas. Oferecem-me um saco carregado de fragrantes maçãs colhidas no fim de semana, de quem tinha toneladas e toneladas de excedentes para doar, desde que alguém fosse buscá-las. Garantimos que toda a gente leva alguma. Há, ainda, pêras. Sinto sempre que poderia, facilmente, ficar mais tempo, como os meus colegas voluntários. Tempo para os outros, quando não nos são nada de instituído social ou biologicamente, tempo para nos fazemos úteis a alguém é tempo para recuperarmos algum silêncio, alguma humanidade. Para a semana, para mim, há mais, espero que por muito tempo, agora que voltei a isto. Para outros, todos os dias são dias assim, vulgo a sua vida. Espero que não para sempre.

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