Saberei esperar?

Horta Seca, Lisboa, 28 Julho

 

Escavações arqueológicas nos arredores de Londres extraíram-nos do passado. Com cerca de 132 mm e datado de 70 A.C., o “stylus”, já por si raro, torna-se extraordinário por conter inscrição bem-humorada, que liga Londres a Roma, a Cidade. Na tradução do especialista, Roger Tomlin: «Vim da Cidade. Trago-te um presente de boas-vindas com uma ponta afiada na esperança de que te lembres de mim. Pergunto, assim me permita o destino, se posso (dar) de forma tão generosa como longo é o caminho e os meus bolsos vazios». Uma recordação, portanto, que, apesar de pobre, atravessou os séculos e os destinos para dizer que os bolsos vazios não travam caminho. Deve ser mania, mas leio nestes vestígios a vocação do editor. A ruína, nos seus vários sentidos, estendem-se enquanto horizonte. Que marca e que pele sobrará?

Horta Seca, Lisboa, 2 Agosto

Nem foram os primeiros élepês do Zeca que tive, mas aqueles últimos ficaram-me gravados. Aliás, comecei por beber canções, servidas pela irmandade que me governou («Venham Mais Cinco», lembras-te Paulo [Caldinho Gomes]?). Tocando as correntes subterrâneas, dou comigo a tentar perceber quês e porquês, a pretexto de aniversário. A luxúria das paisagens sonoras, por exemplo. São bastante distintos, mas estes «Como Se Fora Seu Filho» e «Galinhas do Mato» andam de par nos confins do recordativo. Nada se perde do Zeca anterior, com o constante mergulho nas raízes, qualquer que fosse a terra, de aquém ou além-mar, de litoral ou interior. Mas acontecem curto-circuitos com outros géneros, do jazz a tropicalismos de vários tons. Também na lírica se manteve a leitura da história e a sabedoria panteísta, a ironia cortante e a aspiração política. Ou dançando tudo, como quando, em «Papuça», o verso «a revolução é para já» solta os ritmos da dança. «Utopia» tornou-se um clássico instantâneo, de simplicidade e pureza. O que então me espantou foi a pujança do surrealismo, os nexos poéticos estabelecido pelo absurdo, rasgando fendas no quotidiplano. «Era Um Redondo Vocábulo», uma das minhas eleitas, comprova que esse modo de ler mundos era omnipresente, mas brilhou por aqui e para mim com outras intensidades. Apesar de episódico fulgor, andamos pela obscuridade, lugar de conforto por estes dias feitos noite. Por isso se vai chegando a mim, que nem companheira-gerúndio, esta «Canção da Paciência»: «Muitos sóis e luas irão nascer/ Mais ondas na praia rebentar/ Já não tem sentido ter ou não ter/ Vivo com o meu ódio a mendigar// Tenho muitos anos para sofrer/ Mais do que uma vida para andar/ Beba o fel amargo até morrer/ Já não tenho pena sei esperar // (…) As águas do rio são de correr/ Cada vez mais perto sem parar/ Sou como o morcego vejo sem ver/ Sou como o sossego sei esperar». Saberei?

Horta Seca, Lisboa, 12 Agosto

Que raio! Cinco anos depois, as perguntas continuam a nascer em jardim, mais ou menos cultivado, com o lado agreste das daninhas também a merecer o (celebrado) cuidado da desatenção. Dóris, queria dar-te uma satisfação, mas a intenção não se aplica e explicação já cabe no saco das respostas. Bem sei que tenho que editar o teu volume de contos, ao menos isso, a que deste o belo título de «As Perguntas». Cinco anos depois, tudo se meteu à frente, pudores e desatinos com dinheiro, a orgânica desorganização, a tusa pelo novo, a crença no impossível. Dóris, venho apenas dizer-te que não desisti. Não leves a mal as gralhas que deixámos escapar, também esse projecto de casar atenções e leituras ficou adiado. Somos óptimos a procrastinar, bem sabes. Não deixámos, garanto, de semear perguntas, um pouco por todo lado, mesmo onde não é suposto crescerem. Fui reler o teu prólogo, e encontrei lascas de pensamento que me apeteceu discutir. Posso adiar a conversa por instantes, tu interpelaste de tão estranho modo com esse teu gesto? Dizes tu: «insistimos, e esta nossa insistência conduz-nos para longe de nós. Existimos aqui, mas sempre em fuga, como se não quiséramos ser na aleatoriedade de ter nascido. Sempre a perguntar, sempre a ousar responder, entretendo, assim, o medo de existir. Porque existir é ser entre um ponto e outro ponto, linha do horizonte sem lado de lá para onde deixar de ser visto e lado de cá que nos possa ver. Somos, para nós, um horizonte invisível, segmento de recta cuja medida desconhecemos. Temos medo de existir pela consciência da morte que há em nós. Só conhecemos o finito e tememos, não por ele, mas dele. A nossa condição não opera o incomensurável, não se sintoniza com o infinito, mesmo que o saibamos. O universo contém mas não é contido. Estamos fracos perante o insondável, alienados que somos pela matéria. Mais ainda quando dizemos deus. Por isso perguntamos. Solicitamos respostas para o que sabemos ser apenas um entretenimento do pensamento. Ocupamo-lo. Por vezes, inconsequentes, damos respostas. É apenas um jogo de alternâncias: respondemos para a seguir poder perguntar de novo, mais. Julgamos interrogar tudo. Mas o tudo não está ao nosso alcance.»

Horta Seca, Lisboa, 14 Agosto

O humano escolheu para principal actividade a construção de ideias feitas. Ou melhor, com extremo detalhe confunde casa e lugar-comum, mas disperso logo a abrir. Queria apenas dizer que géneros literários como a banda desenhada, a novela ou o romance gráfico são oceanos de enorme biodiversidade. Max, autor atípico e de grande valor, produziu «Vapor» (folha de rosto algures na página, ed. Levoir), perdoe-se a rima, e que só agora me foi dado ler, não por caso. Nicodemos, figura mística, muda-se para o deserto para fugir das distracções e procurar em si o que pudesse conter de humano. Preto e branco, massa e traço, sombra e corpo, humor e delírio, pensamento e desenho, perguntas e interrogações. Eis a matéria para que o nosso mundo se deixe pensar, se deixe representar. O diálogo de Nicodemos com a sua sombra merecia constar de antologia acerca do nosso lugar no mundo, de cada um em si. O mesmo esforço foi feito, óbvio, em cinema e teatro e romance e poesia, mas consegue aqui algo distinto, muito distinto, de tão profundamente simples: traço sobre a página, dedo na areia, olho no céu.

Costa da Caparica, Almada, 15 Agosto

Uma das mais novas lá da rua Castelo fez cinquenta. Ia escrever que fui ao passado, mas não voltamos nunca ao que não existe. Recriamos, mapas, por exemplo. Trocámos memórias, mas somos pequenos na maior parte delas. Encolhemos, tal o velho quarto. São de somenos, detalhes de distúrbio e desafio. Toque e fuga de campainhas. Soltou-se que nem perfume leve reflexões acerca de tais encontros, o percurso feito, o lugar onde chegámos, apenas patamar.
Para o Pedro [Brito] realizar, orquestrado pelo Humberto [Santana], e muito musicado pelo João [Lucas], compus um «Fado do Homem Crescido», no qual o António Zambujo cantou, a propósito: «Soube logo pela manhã que seria tal e qual/ Mas acreditei porque fomos um bando./ Devia estar de costas, não vi chegar o mal/ Parecia navalha a rasgar, era só tempo passando.»
O sol lá se repetiu pondo laranja no oceano enquanto velho pai exalava orgulho, distribuía afectos e dava a mão de modo só seu.

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