Documentário | “A Dama de Chandor” mostra contradições de Goa

“A Dama de Chandor” abre o ciclo de cinema português, que decorre de sexta a domingo na Cinemateca Paixão, com uma história sobre a herdeira de uma casa senhorial e de um passado histórico em declínio numa pequena aldeia goesa. A realizadora apresenta o filme em Macau

 
Aida de Menezes Bragança tem oitenta e um anos e vive sozinha num palácio perdido numa aldeia goesa. O esforço diário para preservar a casa onde vive, e as memórias que nela guarda de uma época em declínio, encontram-se ali cristalizadas no tempo, numa mistura de resistência e nostalgia que contrasta com o aparente desinteresse da comunidade, após a libertação do poder colonial português.

“A Dama de Chandor” é o documentário que amanhã inaugura a Mostra de Cinema Português em Macau, pelas 20h30 na Cinemateca Paixão, organizada pela quarta vez pela Fundação Oriente e pela agência de cinema Portugal Film, do Festival IndieLisboa, que decorre de 21 a 23 de Junho no âmbito das comemorações de “Junho, Mês de Portugal”.

Realizado em 1998 pela cineasta portuguesa Catarina Mourão, que estará em Macau para apresentar a sessão e conversar com o público após o visionamento, o filme tem já vinte anos de existência e continua a surpreender pela subtileza do olhar e pelo retrato humano de força e fragilidade, num contexto histórico em que a consciência da identidade se agarra ao presente para sobreviver, e se prende à casa como um símbolo visível contra a ameaça do tempo.

“Esta aventura começou em 1995. Nessa altura eu fui à Índia, um pouco como turista, com o meu namorado da altura, que é fotógrafo. Ele ia fotografar Goa, Damão e Diu” e Catarina Mourão, tendo acabado de fazer o mestrado em Cinema e Televisão da Universidade de Bristol, na Inglaterra, levou consigo uma pequena câmara de filmar para registar impressões da viagem e vestígios da presença portuguesa no continente indiano.

Até que, em conversas com pessoas que foi conhecendo, soube da história de Aida e daquela casa senhorial na aldeia goesa de Chandor. “E apaixonei-me. Pela casa e pela personagem. Sobretudo porque senti que ela encapsulava todas aquelas contradições de Goa, por um lado indiana, por outro lado portuguesa. É uma personagem presa a um passado, mas ao mesmo tempo muito preocupada no presente, em fazer com que a casa vivesse, interagindo com os turistas de forma muito pragmática. Achei que era uma personagem muito rica. E na altura filmei umas coisas com ela”.

Regressou depois a Portugal e começou “a alimentar este sonho de fazer um filme lá, só com ela, fechada naquela casa. Fazer um retrato de Goa, mas através dela e daquela casa”. Foi assim que lançou mãos à obra, procurou financiamentos, continuou a corresponder-se com Aida e “finalmente consegui um dinheiro de pesquisa e fui a Goa, outra vez, em 1997. Estive lá um mês e tal”, conta.

“Nessa altura comecei a pesquisar também quem era aquela família, que era muito importante e teve um papel político grande a favor da autonomia de Goa. E, apesar de pertencer a uma elite, era bastante progressista em certos aspectos. Não eram só católicos, também havia hindus, era uma família muito sincrética”.

Regresso à Índia

Apesar de se mover como uma personagem imortal pelas relíquias dos salões da vivenda, de estilo colonial indo-português edificado há três séculos, Aida de Menezes Bragança viria a falecer em 2012, aos 95 anos de idade. A realizadora, que em Março deste ano voltou à Índia para filmar o seu próximo trabalho, aproveitou para visitar Chandor e rever a casa que tão bem conheceu. “Já lá não ia há vinte anos! E quando cheguei estava uma senhora à janela, que me pareceu a Aida, mas que eu sabia que tinha morrido e não poderia ser. Foi como se tivesse visto uma espécie de fantasma”, revelou.

“Mas a casa mantém-se, que era a preocupação dela. O trabalho de recuperação e restauro foi continuado, de certa forma, só que não está lá ninguém a viver. Há um filho que vai de vez em quando, que aparece no filme e tinha vontade de continuar a obra, mas hoje é uma senhora que está lá a receber os turistas e a mostrar a casa. Mas é tudo de uma forma muito precária”. O futuro continua a ser uma incerteza, “esta senhora também já se queixa de não ter muita saúde para continuar a ir, não houve nunca uma instituição que tomasse conta daquilo e tem sido apenas a vontade dos particulares de manter viva aquela memória”.

A recente viagem à Índia levou Catarina Mourão ao norte do país, à região do Uttar Pradesh. “É um projecto completamente diferente, também sobre uma mulher com 70 anos. Esta é uma artista viajante, que anda pelo mundo. E um dos sítios importantes, para o trabalho e para a identidade dela, é Benares, no norte da Índia”. O documentário encontra-se, entretanto, em fase de montagem, com o título provisório “Os Cadernos de Benares”, que deverá estrear em meados de 2020.

Olhos de Macau

Catarina Mourão estará também em Macau para fazer um workshop de cinema documental, a convite da Fundação Oriente, de 22 a 27 de Junho. Pela primeira vez no território, a realizadora espera ser surpreendida pela cidade e pelos seus habitantes, nomeadamente aqueles com quem irá partilhar saber e experiências durante a oficina. “Eu adoro fazer este tipo de workshops. Dou aulas há 20 anos e acho que o mais interessante é essa troca que acontece, ou seja, tenho um programa daquilo que gostava de desenvolver com os participantes, mas estou muito disponível para ir adaptando, porque não conheço a realidade de Macau e conto aprender também muita coisa”.

O título do workshop – “A Casa e o Mundo” – não surgiu por acaso, “é uma piscadela de olho ao Satyajit Ray, que é um realizador que eu adoro, porque também trabalho muito essa abordagem do microcosmo para, a partir dele, falar sobre o mundo”, recorda o filme de 1984, para explicar o que pretende com as aulas que aí vêm. “Acho que nessa busca podem acontecer muitas coisas engraçadas, eu posso conhecer Macau através dos olhos dos participantes. Vou ter o privilégio de ter acesso a um olhar muito mais interior. Isso também me atrai muito”, remata a realizadora.

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