A grande dama do chá

Por Fernando Sobral

 

O silêncio era total. Até os cães que guardavam a casa estavam deitados à porta a dormitar, indolentes. Conheciam Jin Shixin e, por isso, ela conseguiu aproximar-se silenciosamente do homem que estava sentado numa cadeira de bambu, virada para a praia de Cheoc Van. Este, sem se voltar, disse:

– Podes aproximar-te, doce Jin. Vem sentar-te a meu lado.

Esperava-a. Indicou uma cadeira vazia que estava ao lado de uma pequena mesa circular e virada também para o mar. Ela assim fez. Ele não olhou para ela. Continuou a fitar o mar através duns óculos escuros redondos. Vestia um fato de linho claro e, de vez em quando, abanava-se com um pequeno leque. Mas nem isso afugentava o calor. Sentado, Du Yuesheng, parecia ainda mais pequeno. A sua voz era um sussurro:

– Houve uma noite como esta em que estava a olhar para o rio Huangpu, em Xangai, e as águas estavam tão calmas como agora. Pareciam antecipar uma tempestade, daquelas que surgem sem aviso. Foi então que senti vontade de saltar do junco e caminhar sobre as águas. Sabia que era possível. Que estava a viver um sonho real.

O chinês olhou para Jin e sorriu.

– Porque não o fiz? Não sei. Ainda hoje acredito que só um pirata consegue caminhar sobre as águas. A morte não nos inquieta. Apenas mostra que somos insignificantes. Somos uma gota neste rio que nunca para. Um dia evaporamo-nos. Desaparecemos debaixo das águas. Não devemos ter medo: esse é o nosso mundo sólido. Foi então que percebi que nunca poderei morrer em terra. Não me sinto seguro aqui.

Jin acenou com a cabeça, complacente. Du olhou para o céu e continuou, no seu cantonês que Jin percebia, como se estivesse a falar sozinho:

-Sabes, Jin, o medo é como uma corrente de água. Não há nada de errado nisso, enquanto deixarem a água correr. Pelo contrário o ódio é como a água estagnada. Causa doenças.

A lua surgiu por detrás duma nuvem e reflectia-se agora no mar calmo. Apesar do ar continuar quente em Macau sabia-se que o prazer estava na sombra, na frescura, na solidão, na noite. O sol e o calor representavam a violência extrema. Du Yuesheng, outrora o homem que, com o seu Bando Verde, dominava Xangai, resignara-se à fuga, depois do confronto das tropas chinesas e japonesas na ponte Marco Polo, em Julho e das bombas que tinham rebentado junto à Nanjing Road em Agosto. Fora para Hong Kong, onde todos o julgavam agora. Mas, como alguém que conhecia como poucos o mundo das sombras e das traições, viera secretamente para Macau. Aqui estava em segurança, porque em Hong Kong os japoneses procuravam-no. Os seus olhos continuaram fixos no mar que o atraía. Lá, todos os homens tentam equilibrar-se. E sobreviver. As águas lavam o passado dos homens. E, em terra, este permanece sólido, incapaz de se dissolver. O mar cala os seus segredos. Em terra eles ecoam para sempre, como pesadelos. Só o nevoeiro une a terra e o mar, escondendo tudo, dissera-lhe T. V. Soong, o cunhado de Chiang Kai-shek. Agora acreditava nele. A lua nova estava no auge e a luminosidade era fraca. Nessas noites os peixes concentravam-se no fundo do mar. Por isso não se via um único barco de pesca daqueles que costumavam passar ao largo das areias da ilha de Coloane.

Jin reparava, agora, no olhar cansado do chinês. Típico de quem não dormia há muito.

– Que me contas, Jin?
– Temos problemas.
– Disseram-me que tiveste uma noite atribulada. E que ficaste ferida.
– De raspão. Nada de grave que o possa incomodar, senhor.
– Nem a ti?
– Nem a mim.
– Excelente. Foram os japoneses?
– Tenho a certeza, mestre Du. Eles estão por perto.

Du Yuesheng agarrou no copo de limonada que estava na mesa e levou-o aos lábios.

– Achas que está na altura de sair de Macau? Sabes qual é o meu destino final?
-Não.
– É melhor que não o saibas.

Mas Jin sabia. O chinês tinha um destino: a ilha Formosa. Dois morcegos passaram defronte deles, em busca de comida. Du Yuesheng disse:

– Vais ter sorte, Jin. É um sinal.
– O senhor também a terá.

Du deu uma pequena gargalhada:

– Eu não tenho tempo para usar a sorte.

A sua voz era como uma melodia triste. Durante minutos continuaram os dois muito calados a sentir a força da lua.

– É verdade. Houve mesmo um momento em que acreditei que poderia caminhar sobre as águas. Deslizar nelas. Acabei por acreditar na minha própria lenda. O meu junco era uma fortaleza que nunca iria ao fundo. Voava sob as águas.

A voz do chinês, de repente, tornou-se quase sombria. Como se toda a vida tivesse sido sugada dela. Era um Du Yuesheng diferente daquele que Jin conhecera em Xangai em clubes nocturnos como o Hengshe ou o Ciro’s, que fechavam às seis da manhã, e onde se cruzavam comerciantes, financeiros, pessoas dos cinemas, das discotecas e dos hotéis. E também polícias deferentes aos caprichos de Du. E onde as chinesas, com os seus vestidos de seda, e as russas, com os vestidos de noite muito decotados, e os seus olhos que pareciam violetas na Primavera, dançavam com os homens que procuravam o prazer desconhecido. Ali as raparigas bebiam cidra que aparecia como champanhe nas contas. E esses homens pagavam, sem protestar. A Nanking Road com os seus edifícios iluminados de 20 andares mostrava que Xangai não era um inferno. Era o céu no topo do céu, como alguém dissera. Du voltou a falar:

– Confias no português que te tratou?

Surpreendida pela pergunta, Jin teve de esperar alguns segundos antes de responder, algo que Du percebeu.

– Não confio em muita gente. E nele, não.
– É melhor assim. Mesmo que te tenha tratado. Mas pode ser-nos útil. Não está ao serviço dos japoneses.

Du era pragmático. Dividia assim os seres humanos. Os que estavam do seu lado eram pessoas. Os outros eram úteis ou inúteis.

– Não podemos permitir-nos gostar das pessoas. O coração é o traidor que temos mais próximo de nós.
– Não tenho paixões, mestre Du. Vi homens com que dormi a morrer de forma natural. E outros com buracos de balas. Ou mortos com uma navalha. Nada me dói.

Jin sentiu que Du Yuesheng estava cansado. Talvez fosse a última vez que o via. Ele disse:

– O desejo de saber tem sido o fim de muitos homens. Talvez o seja para quem me procura.

Olhou finalmente para Jin e não escondeu a tristeza:

– Continuas encantadora como sempre, doce Jin. Sei que velarás pelos meus interesses. Guarda o que é valioso para o nosso futuro. Um dia mo entregarás. E lembra-te: não há piedade para os vencidos. Aqueles que foram nossos companheiros em velhas batalhas não a terão por nós se estiverem do outro lado das águas. Por isso, tem cuidado.

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