O mito do primeiro amor

Há dias em que o mundo nos exige que paremos, que pousemos as armas e as angústias nem que seja por um instante. Contemplar apenas o que está próximo e, se for necessário, escrevê-lo sem ambições de falar de temas maiores. “Há um certo meio de começar uma crônica por uma trivialidade”, escreveu Machado de Assis aos 38 anos. E depois prosseguia, explicando que bastaria dizer, por exemplo, “Calor! Que desenfreado calor!”. O genial brasileiro escrevia em 1877 sob a canícula do Verão do Rio de Janeiro: percebe-se como a trivialidade se torna essencial naquele momento.

Estando muitíssimo (e infelizmente…) longe dos escritos do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas esta crónica tende a ser trivial. Fala de amor, do amor dito romântico; e o amor é trivial porque é comum e existe. Não porque não seja precioso mas porque não é raro. Pode é não nos acontecer – e isso sim, é tragédia maior. Mas de todas as matizes amorosas que experimentamos na vida – e agora sim, chegamos ao cerne da conversa – a mais sobrevalorizada é a força irrepetível do primeiro amor.

A ideia de que não há amor como o primeiro é publicidade enganosa. O primeiro amor é um princípio normalmente titubeante que nos prepara para a montanha-russa das paixões – isto se tivermos sorte. George Bernard Shaw dizia que o primeiro amor é apenas um pouco de tolice e muita curiosidade e o aforismo parece-me que acerta na batata. É verdade que a arte e a literatura em particular ajudaram à difusão deste mito; mas pensem em Romeu e Julieta: será que o desfecho da história seria tão trágico se os amantes tivessem um pouco mais de bagagem amorosa de experiências prévias? E por outro lado: como poderia Camões ter escrito o magnífico soneto “Tanto do meu estado me acho incerto” se não soubesse bem do que falava? Como poderia Sinatra cantar com tanta verdade o que cantou se não tivesse atravessado por inúmeras vezes o coração negro das paixões verdadeiras?

Admito que se trate de uma posição radical mas no primeiro amor não vejo inocência e candura – apenas medo do desconhecido e do terrível momento em que tudo se irá esboroar. A revisão nostálgica dessa época que parece perfeita a tanta gente está contaminada por uma idealização que pode aleijar. Num livro de que todos conhecem a magnífica frase inicial (“The past is a foreign country; they do things differently there”), o protagonista de sessenta anos relembra o seu primeiro amor e a consequente perda de inocência que o irá marcar para o resto da sua vida. Não é uma história optimista e romântica – antes pelo contrário.

Pela minha parte lembro-me bem do meu primeiro amor correspondido (e generosamente deixo de fora as paixonetas que me consumiram em silêncio até lá chegar). Vejo um rapaz desengonçado e aterrorizado a tentar ganhar coragem no whisky-cola e a falar bastante depressa. Lembro um desespero optimista, um suspiro de alívio mesmo antes do apocalipse. Felizmente chegou o segundo amor e alguns outros depois desse. Foram necessárias várias provações para poder chegar à pequena sabedoria com que hoje vivo: a modesta ambição de quem ama outrem não é ser o primeiro mas o último. E é nisso em que todos os dias me empenho.

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