A hipótese de Alan Shore

Para o José de Freitas

 

James Spader, como Paul Shore, diz à personagem de William Shatner, Denny Cane – n’ A série Boston Legal – que existiremos no Céu como nos dias mais felizes da nossas vidas. Mas nós não sabemos se haverá vida no além. Não se pode provar que não há nem provar que há. Tal como na “Aposta” de Pascal – sobre se Deus existe ou não existe – também não se podem provar nenhuma das teses. A fé faz depender de si a existência de Deus. Mas a fé é a fé, uma determinação modal que depende da crença, e a crença depende da mente, mesmo quando resulta da Graça. Ora isso faz que a tese: “Deus existe”, “há vida eterna”, conteúdos de um acto mental. Actos mentais são actos mentais e não podem extrapolar o seu conteúdo para nenhuma realidade. Ainda assim, é sabido que podem ser eficazes. Por outro lado, pelo contrário, a tese de que Deus não existe, pior, de que Deus não pode existir, depende também de um acto mental. Não querer que Deus exista tem consequências, porque se anula toda e qualquer religiosidade, toda e qualquer epifania ou revelação. Todo o ateu tem um trabalho árduo em destruir o sentido de Deus, mas a sua tese também resulta de um acto mental.

Na “aposta” de Pascal, o laboratório é o jogador a fazer a sua aposta num jogo de possibilidades repartidas, 50%-50%. Agora, o jogador está com os seus olhos nos dados, mas a sua mente está completamente virada para o futuro. O jogador vive da antecipação. O jogador está como o pescador se encontra a olhar para a linha, mas a ver se ela mexe e as boias se afundam. O jogador está lançado para um momento futuro. Todo ele é antecipação. Ele não está à espera apenas de saber se ganhou ou perdeu. Tal como o pescador não está à espera de saber se pescou muito, pouco ou nada. Nenhum está à espera do desfecho, porque na verdade não querem nenhum desfecho. A Realidade deles depende da antecipação.

Nenhum espera o desfecho da situação de prospecto, de antecipação. Quando o peixe é apanhado ou o jogo acaba, suspende-se a antecipação. Qualquer que seja o resultado, a vida deixa de depender do momento da antecipação e passa a requerer acção, uma reacção pragmática. Por isso, mesmo quando se ganha, ao desfazer-se a antecipação, perde-se a riqueza da transcendência, a forma excessiva que ultrapassa o dado na percepção. Na antecipação, não há sincronização entre percepção e conteúdo. O conteúdo está projectado para mais tarde. Ao mesmo tempo, o conteúdo do momento que se tornará realidade – mas ainda não aconteceu – exerce o seu efeito sobre o presente. É retroactivo como é prospectivo.

Existiremos numa outra vida a reviver os dias mais felizes das nossas vida? E como existiremos? Teremos o corpo na nossa melhor forma? Estaremos com todas as pessoas que amámos em simultâneo, quando as amámos umas a seguir às outras? Os nossos melhores amigos serão quais? Teremos os amigos de infância que morreram violentamente por acidente ou não sobreviveram? Teremos os amigos desavindos tal como os amámos e eles a nós? Seremos uma comunidade de pessoas no seu melhor sem o cuidado e a aflição de acompanhar os seus na via da cruz que é a antecipação da morte? Como resolver a equação? Vivemos nós já a antecipar esse momento, como quando revisitamos vésperas de férias na infância? Será a vida futura caucionada pela antecipação de que dias melhores virão?

Ou anteciparemos o sossego da paz eterna, em que nada se passa, quando apenas há a grande noite? A grande noite é como nos tempos anteriores ao nosso nascimento, quando não se sabe de nada, na era eterna que nos é pré-natal.

Ou será que fazemos a aposta de Alan Shore e vaticinamos para os Denny Cane das nossas vidas? Existiremos então para todo o sempre, desmultiplicados por todos aqueles que nós somos nas relações intrínsecas que temos com os outros que amamos? Existiremos como nos nossos melhores momentos, os momentos mais felizes das nossas vidas?

A aposta dá-nos a antecipação do momento. A antecipação pode trazer a realidade pragmática do não. Tudo será como a abominação da desolação.

A antecipação, contudo, pode dar-nos um pouco de esperança. A esperança é uma velha decrépita com olhar de menina. É também o que nos poderá trazer um pouco de fé.

O pior de tudo é não poder ser enganado.

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