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Lá para o Mar Egeu ergueu-se algures um monumento tão descomunal que parecia a metáfora mais conseguida da megalomania humana – isso mesmo – um colosso de 33 metros de comprimento. De pé a pé ia a convergência de três civilizações, pois que aos descendentes de Hércules pertencia o domínio entre o mar e a terra (no entanto, a imagem mítica será mais do fantástico medieval) seja como for, sabe-se que existiu e que um terramoto a fez desaparecer no ano de 226a.c: “para ti, ó Sol, o povo dórico de Rodes ergueu esta estátua de bronze que alcança o Olimpo… ele acende a linda tocha da liberdade e independência”. O deus de bronze de Rodes! Longe estamos do Bezerro de Ouro, que de tão lendário, não foi menos corruptível, os metais fundiam-se para erguer estátuas que tivessem a dimensão sagrada de uma consagração metalúrgica, pois que sem essa poderosa alquimia as leis da sustentação seriam inexistentes, e, sem a altura de uma construção ficaríamos à escala horizontal dos dias, sem a visão da grandeza galvanizadora.

Partimos para Rodes como para uma profecia, para o seu «OVO» – um poema extraordinário, para o seu deus, um deus extraordinário, para o seu mar, um mar extraordinário – afinal, é aí que os deuses moram. Porque escolheram eles o azul cobalto ao verde musgo atlântico, o sol do meio-dia à luz do ocaso, a seca garrigue à luxuriante flora? Porque os deuses são caprichosos, são colossais, gostam de cegar ao sol olhando do cimo, gostam de testar os nossos limites perante o fascínio que temos pela grandeza. Provocam a devoção e o martírio, e de tanto os olharmos, nossos olhos são de pedra. Quando petrificados avançamos à sua sombra resolvem ir embora com um grau de convulsão tamanha, que arrasam torres e homens, e argamassam sangue com pó mineral e deles contam nos seus mundos como foi. Não é em vão que queremos que tenham face humana, erguer de fachos, imensidão… depois da linha do horizonte no nosso espectro astral não há mais nada.

Estas cidades representadas por estátuas monumentais têm segredos que não convém lembrar, até porque são segredos, imitam o propósito colectivo, mas quase todas sucumbirão num mar qualquer e passarão para a memória lendária quando os tempos se desfizerem. O facto de a maior parte estar erguida ao pé do mar, de um rio, indica a vaidade dos guardiões que olham as cidades, o seu lago narcísico, que o céu fica um pouco mais distante. Esteve de pé cerca de 50 anos e simbolizava a vitória dos gregos contra os macedónios, contra outro grande, Alexandre, e parece tudo ainda maior quando a escala é mais pequena, sem dúvida, mas o sonho mantém-se intacto, apenas mudando, claro está, a própria escala. Ainda hoje o sonho primário de um qualquer político é fazer uma coisa que o perpetue pela grandeza do betão, é uma função que implica testosterona e a capacidade de expansão a ela implícita…o mais alto, o maior, o mais poderoso! Uma ambição «Ájax».

No entanto, creio chegado o tempo em que a conquista do andrógino, esse ser mais evoluído do que este arquétipo espermicida ( cai, levanta, vai, entontece…) abrirá talvez caminho a uma mais vasta harmonia ambiental, há que pensar na atmosfera das coisas a curto prazo, ou ficaremos submersos pelos muitos que somos, sem espaço para quedas do tamanho dos Colossos. Nós todos empilhados daremos um regalo em altura para o mais megalómano, expansionista, desmesurado deus da extravagância: nós somos o labor, os escravos levantando cultos, e de tão in(cultos) andamos contentes como os inteligentes. É considerada a sétima maravilha do mundo, depois da sexta, e a sua inutilidade nem era assim tão grande, o farol na mão indicava às embarcações nocturnas o rumo certo. Pesa 70 toneladas e sendo a sétima em maravilha, quem diz que os Anões não eram os seus mestres obreiros? Muita coisa esconde o reino encantado, mas neste instante só sinto os afogados que tombam aos milhares naquele mar e os magros “gigantes” a Ocidente tão letais quanto as águas do Mediterrânio, e não há estátua que se erga do tamanho da dor humana, da dor, em suma.

Não tarda haverá uma só estátua no mundo, e tão grande – super Colosso – de um só rosto, que não sendo ainda ninguém, se anuncia como uma onda de chumbo. Nós fomos descuidados, não plantámos os nossos jardins, não olhámos as nossas flores, não tratámos os nossos dias, não fomos o Ovo de Rodes, preferimos o Colosso. E ele que até era cego e não nos conhecia, fez-se real, é o nosso sol. É uma estrela fria e silenciosa como o gelo. Carés, o seu arquitecto, suicidou-se por falta de reconhecimento público, Deus suicidou-se por falta de reconhecimento nosso, nós, não reconhecemos os criadores, e, como tal, inventámos criativos que fazem das obras transfigurações, figurações… Os obreiros são “maçons” sacristãos são “sacristões” os Templos são côncavos, e a corrida ao ouro das Ordens é um mito contemporâneo.

Se não resolvermos em poucas décadas o gigante pustulento do Capitalismo agreste, não se erguerão mais estátuas, nem outras construções; será consumida a Terra e derrubado tudo à superfície – o caminho da Ilha – talvez como a de Rodes, a Utopia, perder-se-á para sempre. — Fatigado e gigante coração da Terra, espera mais um pouco….! — Nem tudo é agora de sal, nem todos desfazemos os nossos sonhos apenas com um olhar…não, nem todos! Por vezes são precisas forças tais que o aterro dos dias fica um sepulcro muito frio enquanto agora mesmo o Sol nasce, nasce grande, saúda o tempo. E por vezes a resistência dos materiais vence enfim. Não há mais segredos, nem mais estátuas. Uma Cidade nova pode nascer.

Temos ainda no tecido cerebral uma membrana que vê essa cidade de Cristal, aquela cuja energia se elevou e onde a matéria tem outras associações. Todos a contemplamos, e se todos a projectarmos com urgência não tarda nos encontramos lá. Vai ser um gosto voltar a vê-los.

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