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O consultor e historiador português Jaime Nogueira Pinto criticou ontem a excessiva atenção dada pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) a temas como os direitos humanos em prejuízo das identidades culturais ou questões energéticas.

“A CPLP não assumiu as raízes fortes das identidades culturais e depois, nalgumas áreas onde eu creio que os países CPLP todos têm recursos ou interesses”, como, “por exemplo, a área energética”, não deu a atenção devida, disse Jaime Nogueira Pinto, em entrevista à Lusa a alguns dias de mais uma cimeira da organização que junta Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

O historiador português lamentou que os países-membros da organização não tenham apostado em “criar uma entidade que não fosse só retórica”.

Considerando que a CPLP tem optado por caminhos menos corretos, o historiador deu o exemplo da energia como um dos temas que é transversal a vários países de língua portuguesa, ou questões culturais, como o estudo da “identidade das culturas lusotropicais ou lusófonas” e o modo como “isso se manifesta na literatura” ou noutras artes.

Os protagonistas da CPLP “agarram-se às discussões como os direitos do homem, que é uma coisa que não é tão forte” em todos os países.

Para o historiador, este “é o vício de toda a política contemporânea”, com uma “concentração em temas que são retoricamente simpáticos ou interessantes e não se pega nas questões que são importantes”.

A questão da cultura, considerou, “está um pouco por trabalhar ou tem sido trabalhada em áreas ideológicas marginais”.

 

 

Europa tem de investir mais em África para impedir migrações, diz Jaime Nogueira Pinto

O consultor e historiador português apelou a Portugal que sensibilize a União Europeia (UE) para investir em África, de modo a eliminar as razões que levam muitos africanos a quererem emigrar para a Europa.

“O grande problema de África” é “a criação de desesperados em série”, com uma miséria galopante e a ausência de perspetivas de futuro, avisou Nogueira Pinto, em entrevista à Lusa, na véspera de uma cimeira em Maputo entre o primeiro-ministro português, António Costa, e o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi.

“Criou-se uma ideia de prosperidade que está aí nos jornais e nos nossos telefones portáteis”, mas “as pessoas esqueceram-se de que há uma enorme quantidade de gente que foi completamente excluída desse mundo, e com uma diferença: é que dantes os excluídos não viam o que se passava no resto e agora veem e não têm nada a perder”, disse Nogueira Pinto, considerando que as barreiras naturais do Mediterrâneo e do Saara não são suficientes para proteger a Europa.

“Por causa destes problemas todos das migrações e dos refugiados e das consequências políticas que estão a ter no xadrez e no sistema europeu, deveria haver uma consciência de que a melhor maneira de resolver os problemas é acabar com as razões que levam as populações africanas” a “escapar a situações que não são muito felizes nem muito agradáveis”, considerou.

Por isso, a UE deveria ter uma “estratégia correta e inteligente, feita com vontade de resolver os problemas, e não apenas de boas retóricas”, que procure “ver à séria quais são os problemas dos países do continente africano de onde estas migrações vão resultando”, salientou.

Nogueira Pinto não tem dúvidas de que as causas são as habituais: “instabilidade política, conflitos de ordem étnico-religiosa, falta de empregos, de esperança, de razões de vida”.

“Como é mais difícil cruzar o Atlântico ou o Índico, as pessoas sobem e vão continuar a subir” pelo continente africano à procura de melhores vidas, sublinhou.

Neste diálogo com o continente africano, Portugal tem um papel importante, porque possui “alguma capacidade de agenciar, até a nível europeu, recursos” que permitam “políticas coordenadas”, sobretudo “ajudando à construção do Estado” em África.

Para o investigador, “a maior parte dos problemas de instabilidade nestas áreas é a deficiência do Estado, é a deficiência do poder político que não chega a muitos sítios, subsistência de contradições de ordem tribal ou étnico tribal”.

Em causa, salientou o historiador, está a génese de muitos dos Estados africanos, cuja independência foi concedida pelo poder colonial no século XX sem qualquer tipo de guerra de libertação.

“Qual é a forma normal de fazer Estados? Guerra da independência, depois guerra civil, depois quem ganha a guerra civil vai para o poder e estabiliza. Foi assim que foram feitos quase todos os países europeus e das Américas”. Mas, na maior parte de África, “fez-se apenas uma pura transição”, em que o “poder colonial entregou aos poderes locais o poder pacificamente sobre um território”.

Ao contrário dos países africanos de língua portuguesa, em que a guerra de libertação forjou uma elite política e militar. A isso somaram-se guerras civis nalguns países.

“A guerra civil em Angola destribalizou completamente Angola e atirou as pessoas para as cidades”, somando-se a “circulação dos militares pelo país, o que fez com que se criassem famílias de várias origens tribais em vários sítios. Para o bem ou para o mal desapareceram as características das sociedades tradicionais e acelerou o processo de construção nacional” do país, explicou.

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