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A infância é o território pluripotencial do sonho. Tudo é possível. Podemos ser astronautas, veterinários, bailarinos. Nascemos ilimitados para o mundo, mesmo quando este se revela um lugar inóspito onde só parece vicejar a miséria, e a idade é um funil poroso através do qual vamos actualizando ou perdendo as possibilidades com que todos nascemos. Como se levássemos um grupo de miúdos pela mão a passear e nos déssemos conta, a certa altura, de termos deixado mais de metade pelo caminho.

Quando era criança, queria ser astronauta. O grande mistério – e o grande interesse – era o que estava longe. Longe estava igualmente de perceber que a proximidade não era de todo sinónimo de clareza e que as motivações dos homens podiam ser tão insondáveis como a mais distante estrela.

Com sete ou oito anos, pedi ao meu pai para me comprar um livro especial: “Astronomia para amadores”. Se queria ser astronauta, era importante preparar-me teoricamente. Tudo me fascinava. Os tipos de estrelas; as suas dimensões e temperaturas incompreensíveis; a velocidade da luz no vácuo; a distância entre os corpos celestes. Estava convencido de que havia uma organização inteligente por detrás da composição de um espectáculo aparentemente tão perfeito. E estava convencido de que tornar-me astronauta era ter a possibilidade de chegar mais perto do mistério.

Como é óbvio, e embora a paixão pela astronomia não se tenha dissipado com a idade, não me tornei astronauta. Como muito de vocês não se tornaram veterinários, actores ou bombeiros. Deixámos isso na infância e pelo caminho alimentámos outros sonhos, outras possibilidades. Ser adulto é também – e sobretudo – isso: conformar-nos com a realidade. Como aquelas ementas deliciosas das quais afinal só sobram meia dúzia de pratos que eram as nossas terceiras escolhas.

Quando olho para trás, percebo que não foram as estrelas ou as constelações que me fizeram apaixonar pelo espaço. Foi o mistério, essa intangibilidade de muitos nomes. O mistério que atrai tanto os poetas como os filósofos e teólogos. O mistério que de algum modo justifica e dá sentido a esta existência infinitesimal que fingimos, logo de manhã ao acordar, ter espessura.

Escrever tornou-se para mim uma forma de tentar acercar-me do mistério. É o meu espaço possível. É onde encontro a infância, o outro, o exótico e o familiar, os meus mortos e os mortos alheios, aquilo que deixei pelo caminho e aquilo com que fui substituindo o que deixei. Dir-se-á que é um fraco paliativo para a contemplação da terra na órbita da mesma. Verdade. Mas há quem não tenha encontrado um paliativo. E há esteja tão distraído com a seriedade que impõe ao dia-a-dia que já não dá conta de que este é apenas um aspecto ínfimo de uma coisa muito mais vasta e permanente.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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