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H á um modo “normal” de olhar para as coisas. Corresponde a uma espécie de média estatística. As coisas surgem-nos, também, o mais das vezes e à primeira vista, quotidianamente, sempre da mesma maneira. Há uma modulação que tende para esta média quotidiana. Neutralizam-se as diferenças de aspecto das coisas. Contamos com a alteração. As diferenças de olhar e visto são, por assim dizer, esperadas, tidas em consideração, antecipadas. E, contudo, é assim na essência das coisas e na essência da nossa lucidez. Quando se produz uma alteração radical no modo de ver as coisas e no modo das coisas aparecerem, pode haver um abalo na normalidade habitável. Desde sempre na antiguidade que esta estranheza no modo de as coisas aparecerem foi traduzida na linguagem do espanto e da admiração, da reverência, até. Mas a maior estranheza não se dá apenas com a alteração visível das coisas. Dá-se quando aparente e objectivamente nada muda. A experiência que fazemos da alteração não deixa de ser evidente. Contamos com ela. A maré a vazar e a vazia, a maré a encher e cheia no rio da praia da infância, por exemplo, testemunham-no. O rio é sempre diferente, embora haja dias que parece igual. O mesmo se passa numa mesma paisagem de praia em horas diferentes do dia. De manhã, quando ainda o sol não aperta e a luminosidade é da manhã. À hora em que o calor aperta e se sente a sua luz crua. À tarde, quando há uma luz mortiça a antecipar o crepúsculo. De noite, quando se acende uma lareira e se ouve o som do rio a ir contra o Atlântico na rebentação. De manhã à noite, em todas as estações do ano, há apresentações diferentes. O rio nunca é o mesmo, porque o dia é sempre diferente. O próprio dia é uma fracção temporal do mesmo tempo de onde se projecta e plasma sobre todos os conteúdos. A diferença do tempo não está apenas na diferença dos conteúdos. Ela constitui-se na própria diferença entre tempo que passa e salpicos de tempo que são os momentos. Um dia e os seus momentos e os dias como momentos de um único tempo. O olhar capta a diferença no interior de uma duração qualitativa. Captamos com espanto a diferença entre um rio nos seus momentos, consoante as marés, horas do dia, estação do ano.
Mas também captamos a estranheza na aparente igualdade entre apresentações. É sabido que a casa é uma entidade “viva”, uma personagem animada nas nossas vidas. É lá que estiveram a viver os nossos. É para lá que antecipamos virão irmãos e irmãs para serem acolhidos no seio de uma família. É de uma casa que saem para a última morada, avós e pais. Sem as diferenças óbvias que se registam entre uma casa habitada cheia de gente e uma casa vazia de gente, podemos perceber que uma casa é diferente a uma hora de um dia em que não costumamos estar lá. Se tivermos de ir a casa a uma hora de um dia da semana em que não costumamos estar lá, a casa aparece toda ela numa atmosfera de estranheza e num ambiente totalmente diferente de como me surge a casa quando lá me encontro a uma hora de um dia em que costumo estar em casa. De resto, a casa à mesma hora, mas em dias diferentes, é sempre diferente. À segunda-feira e ao sábado a casa “é diferente”. Como se capta esta diferença? É porque costumamos estar em casa depois de um dia de trabalho e se lá formos de dia, ela é diferente? Em que sentido? Não é diferente como o rio nas suas marés diferentes, de verão ou de inverno, de férias ou em dia de trabalho. A diferença é apurada para lá dos conteúdos que são exactamente os mesmos. A sala de jantar é a mesma com toda a sua mobília e peças de ornamento. O que muda, então? Tudo. E nada. Na verdade, a estranheza é apurada porque tudo o que parecia igual, no mesmo sítio, sem tirar nem pôr, é diferente. A diferença é no modo de olhar. Uma diferença que está sempre a constituir-se, porque a passagem do tempo cria uma alteração convulsiva em cada instante: antecipa-o para o ver cair para o presente, e do presente, empurra-o para o passado. Cada instante é uma projecção do tempo na sua totalidade. O tempo é sempre o mesmo na sua duração, no trânsito e na sua passagem. E de um instante para o outro pode perceber-se a estranheza da passagem do tempo, inexorável, mas como se nada se passasse na realidade. É como se tudo fosse exactamente o mesmo e não conseguíssemos apurar a diferença. E na identidade absoluta da realidade a própria realidade desagrega-se na passagem, na alteração dentro da identidade, na estranheza de perceber que as coisas se alteram e é estranho perceber-se a alteração, quando tudo aparentemente se mantém na mesma.

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