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A História do sexo tem muitas linhas e tem poucas. Se já é um tema tão dificilmente trabalhado nos dias de hoje, imaginem olhar para os milénios da nossa história sexual, com todas as complicações que lhe conferimos na contemporaneidade.

Nos museus daqui e de acolá, daqueles que têm artefactos em cerâmica e porcelana, lá de quando em vez me deparo com uma peça centenária erótica – são uma delícia de se observar. Quando na representação colectiva imaginamos um antepassado de emancipação sexual duvidosa, é com surpresa que nos deparamos com os objectos de quem quisesse criar, ilustrar, expor e admirar as formas (as posições!) dos corpos que copulam. Claro que a História conta-nos dos amores, desamores e extra-conjugalidades daqueles que viveram há muitos anos, mas eu dou por mim a pensar: quem seriam os ‘tarados’ de serviço? Os que ponham a mão na massa para criar, em porcelana e outros materiais, corpos semi-nus em plena penetração, ou todos os outros que simplesmente queriam pensar o sexo fora do quarto?

Como o conservadorismo sexual perdura mais do que gostaríamos, também não são muitos os investigadores que se debruçam sobre isso. Na China, esse paraíso de figuras e formas eróticas da antiguidade, um dos mais preocupados com a temática do sexo e da sua história quis abrir ‘o’ museu do sexo. Em 2001 Liu Dalin quis expor cerca de 3700 objectos eróticos da China milenar: imagens em porcelana, gravuras, objectos fálicos (os dildos da altura), estátuas, estatuetas, tudo. Ora que surpresa, o museu não teve grande apoio na sua criação e manutenção.

O interesse sociológico-científico de Liu Dalin foi mal interpretado por uma tentativa de vulgarização do sexo e da ‘pornografia’. Será que uma sala carregada de dildos dos milénios passados não tem valor pedagógico absolutamente nenhum? Ninguém entendeu esse intuito. Aliás, surpreendentemente ou não, o Museu, que se situava numa zona animada do Bund em Shanghai, foi realojado para Tongli, uma pequena aldeia a 80 km da metrópole, em 2004. Nem tudo é assim tão mau porque Tongli até é uma aldeia bastante turística (já ouviram falar da pequena Veneza da província de Jiangsu?) e o Museu agora ocupa o espaço de um edifício histórico da dinastia Qing. Mas ainda assim… esta mudança de localização não deixa de ser indicativa de qualquer coisa. Numa entrevista Liu Dalin explica como foi difícil ter apoio na divulgação do Museu, até porque o logótipo orgulhosamente divulgava o caracter para ‘sexo’ e ninguém queria colocá-lo em lugar nenhum.

Diz o fundador que este museu serviria para termos maior consciência, no oriente e no ocidente, acerca das representações do sexo na antiguidade chinesa. Quando em tempos mais daoistas o sexo era visto como um contributo para a saúde e era vivido de forma libertadora, as filosofias de Confúcio vieram ‘castrar’ a liberdade sexual, e a partir daí o tabu intensificou-se. Parece que os tarados, os tais que gostavam de sonhar e explorar o sexo fora da obrigação da procriação, de alguma forma contribuíram para a criação destes artefactos de beleza imensa e sexualidade intensa.

Acerca dos significados, simbologia e utilização dos mesmo é que há pouca reflexão, porque ninguém se quer meter a estudar essas coisas. Objectos de formas fálicas foram encontrados em túmulos de imperadores e familiares, autênticos strap-ons que se especula terem sido utilizados para a estimulação anal masculina, mas ninguém sabe muito bem.

A História, do que quer que seja, serve muitos propósitos. Não sou eu que o digo, os historiadores concordam comigo. A do sexo só vem mostrar que sempre houve uns movimentos de maior ou menor contestação do que uns e outros podem achar do sexo, esse sexo que pode ser livre, ter menos preocupações, ter menos problemas, e ter muito mais originalidade.

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