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In medium stat virtus é uma conhecida expressão Latina que significa “a virtude está no meio”, ou seja – a virtude, ou a verdade, está afastada dos extremos. Uma frase que pode cheirar a certa tibieza, a querer estar bem “com Deus e com o Diabo”, mas que de facto encerra provada sabedoria. De facto qualquer “verdade” levada às últimas consequências – é disparate. Demonstrando – é verdade que temos que trabalhar? Sim. Então – trabalhemos 24 horas por dia! (disparate!). E não é também verdade que precisamos de descansar? Sim. Então durmamos todo o dia! (arre, até nos fazia mal!). E assim por diante.

Ah – mas poderá dizer o leitor – isso é só a nível fisiológico! Sim – mas não só. A nível psicológico o mesmo se passa. Observemos, por exemplo, uma criança de uns dois anos. Se sair à rua com a mãe, a criança (se não se deparar com algo que lhe faça medo) afasta-se dela a correr uns metros – mas logo olha para trás para ver se a mãe ainda ali está. A criança não escolhe entre aventura e protecção – ela quer aventura e protecção. O mesmo se verifica com as necessidades, ou impulsos, artísticos – que alguns dizem só terem lugar quando outras necessidades, mais básicas, estejam satisfeitas. Mas a realidade desmente esta visão: as cangas que sujeitam as vacas são finamente esculpidas, o homem da Idade Média, no meio dos “4 cavaleiros do Apocalipse” (a fome, a guerra, a peste e a morte) levantava maravilhosas catedrais – e, indo ainda mais longe, o homem pré-histórico já fabricava instrumentos musicais e objectos artísticos. A fome não seca a Arte.

 

Normalizando as medidas, normalizando as ideias

Infelizmente a cultura, sobretudo a jurídica – talvez a que mais obrigações teria de entender a alma humana – orienta-se por “princípios”, a partir dos quais diz como se deve proceder – é verdade que também diz que se devem tratar com igualmente as coisas iguais, e desigualmente as desiguais, mas na prática tem dificuldade em aplicar este princípio.

Esta forma de pensar é relativamente recente – instalou-se com a revolução francesa e a noção de que “todos os homens nascem livres e iguais” e da “liberdade de comércio” inglesa. Até aí não fazia confusão aos homens que cada cidade tivesse o seu foral, que as Universidades, a Igreja ou o Exército tivesse leis próprias…mas tudo isso foi varrido – não foram só as medidas (o metro, o quilo,…) que foram normalizadas. Um exemplo da “normalização” foi considerar o casamento, até aí um sacramento, uma doação mútua de duas pessoas uma à outra, um “contrato” – pois havia que “encaixar” o casamento num qualquer esquema, e foi a gaveta” que se achou mais adequada.

Da ordem jurídica esta forma de pensar invadiu a política, e aqui os seus efeitos são ainda mais negativos.

 

Sem olhar para o lado

Exemplos de ideias levadas às suas últimas consequências, esquecendo-se de “olhar para o lado”, foi a revolução dos Khmers vermelhos no Camboja, ou nos nossos dias o Estado Islâmico, com as consequências infelizmente conhecidas por todos. Exemplos extremos – dir-se-á. Mas, ainda nos Estados ditos civilizados, e em pessoas civilizadas, impera essa forma de pensamento. Procura-se uma lei, um princípio, para autorizar ou negar qualquer coisa – e achado esse princípio parece justificada a decisão.

Entretanto com tal forma de pensar esquece-se que há “outros princípios”, e que um ou mais desses “outros” podem ser opostos ao “princípio” invocado. Há o “princípio” que as nações têm de ser mantidas unas, que qualquer cedência nessa área abriria uma “caixa de Pandora”, isto é, um nunca acabar de dissolução dos Estados – e assim foi tratada a Catalunha, “esquecendo-se” o direito à autodeterminação. A circulação de pessoas tem de ser livre – “esquecendo-se” que os Estados têm direito a existir, e que entre esses direitos está o de escolher quem neles possa entrar. O comércio entre as nações tem de ser livre – “esquecendo-se” que numa competição, todos os concorrentes devem obedecer a regras iguais, situação que não se verifica na prática, pois os salários e as leis, nomeadamente os impostos e as leis de protecção ambiental, são diferentes de país para país. Há o princípio de respeitar quem cometeu um crime, mas esse princípio não pode pôr em causa o dos cidadãos poderem viver sem medo, e terem direito aos seus bens.

E no meio de tantos esquecimentos não se esquecem os praticantes dessa forma de pensamento de apelidar quem põe em causa estes princípios de estúpido, ou mal informado – como no caso do Brexit e da eleição de Trump – “esquecendo-se” que tais opções políticas resultaram de eleições – outro princípio sagrado dos nossos dias.

 

Está a Democracia acima da lei?

Mas também poderemos discutir se o princípio “eleições” pode ser aplicado de forma cega, ou única. De facto os críticos da Democracia invocam que esta não é um bom sistema, pois o Povo é influenciável, e não sabe o suficiente para decidir assuntos de certa complexidade. E o facto é que, para não naufragar em tais escolhos, mesmo nas democracias, as regras de determinado desporto, ou os princípios de determinada ciência, não resultam de uma votação aberta, ou dos “conhecimentos médios”, mas de um “conselho” de mestres nesse desporto ou nessa área científica. O aplicar o princípio “democracia” como regra única, traduz-se em contínuos a tomarem parte nos Conselhos Directivos das Faculdades, Politécnicos a conferir doutoramentos, reformas ortográficas “porque o povo escreve assim”, etc.

 

Disclaimer

Significa o acima dito que a independência de um povo deve ser proclamada de ânimo leve? Que não exista comércio entre as nações? Que não se acolham, enquanto melhor solução não se encontra, quem foge da guerra ou da fome? Que não se respeite a dignidade dos presos? Que a Democracia é para deitar fora? Não! E quem minimamente me conhece sabe que nunca advoguei, e espero nunca advogar, tais ideias. Significa apenas que todos os raciocínios baseados num único “princípio” (ainda que válido) têm de ser rejeitados por incompletos, ou dito de outra forma – por não respeitarem a complexidade da alma (ou das pulsões) humanas. Soluções estudadas/equilibradas, precisam-se. In medium stat virtus.

 

António Manuel de Paula Saraiva

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