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O historiador Jorge Morbey lança esta quarta-feira o livro “O ataque de um submarino alemão no Porto Grande de São Vicente durante a I Guerra (1914-1918)”, com a chancela da Livros do Oriente. O autor partiu de uma história de infância e desmistificou uma lenda que há 100 anos persiste no imaginário da população da Ilha de São Vicente

 

Minha avó materna – Annie Florence Morbey Ferro (1870-1952) – contava que, durante a I Guerra Mundial, de casa dela, na cidade do Mindelo, na Rua Poço do Estado, com vista para a baía, assistiu à perseguição de um submarino a um navio mercante que acabou por encalhar a sul da baía do Porto Grande, em São Vicente, próximo da Cova d’Inglésa.”

É desta forma que começa o novo livro de Jorge Morbey, intitulado “O ataque de um submarino alemão no Porto Grande de São Vicente durante a I Guerra (1914-1918)”, editado pela Livros do Oriente e que é lançado oficialmente esta quarta-feira na Fundação Rui Cunha.

Em 1917 houve, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, no ano de 1917, um ataque de um submarino alemão a dois cargueiros que transportariam comida do Brasil. O comandante desse submarino ter-se-ia apaixonado por uma cabo-verdiana.

O ataque aconteceu de facto, mas todos os restantes elementos se transformaram em lenda que ainda hoje existe na memória colectiva do povo cabo-verdiano da ilha. Foi a avó que contou esta história a Jorge Morbey, que resolveu ir em busca de respostas factuais.

“Era uma história que a minha avó me contava porque ela assistiu à cena da varanda da casa dela, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, onde nasceu. Ela contava-me essa história sem grandes pormenores. Mas a questão que me levou a abordar este tema e fazer alguma investigação é que o centenário desse acontecimento ocorreu a 2 de Novembro passado. Fez 100 anos esse ataque, 2 de Novembro de 1917.”

A efeméride levou Jorge Morbey, historiador e docente da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau (MUST), a publicar agora esta obra.

“A memória colectiva guarda isso como um acto altruísta do comandante do submarino, que teria afundado os dois cargueiros. Esse evento é guardado na memória colectiva da população da ilha de São Vicente como um acto altamente positivo. Estes supostamente trariam do sul algumas pessoas que vinham da Argentina ou do Brasil, e efectivamente os dois vinham do Brasil, e a ficção criada pela fome via milho, feijão e elementos básicos da alimentação dos cabo-verdianos que não é verdade.”

Morbey destaca que, nessa época, Cabo Verde era um país que sofria bastante com secas e fomes. “Cabo Verde sofreu durante séculos secas e fomes imensas, que levaram a uma grande dizimação da população.”

Contudo, o historiador descobriu que não só os cargueiros não transportavam comida como não há registos históricos da ocorrência de um caso de amor.

“Analisei os manifestos de carga desses dois cargueiros e limitavam-se a peles e café em grão. Houve mortes e feridos nesses ataques aos navios brasileiros, e tentei descobrir como é que um fenómeno de guerra é transformado num episódio de história que se baseia num romance de amor que teria havido entre esse comandante do submarino alemão e uma cabo-verdiana muito bonita.”

Contudo, Jorge Morbey não conseguiu encontrar “nenhum suporte histórico”. “Inclino-me para a possibilidade deste fenómeno estar relacionado com o problema da fome e com a psicologia da fome”. Esfomeados, as pessoas terão delirado com aquilo que, de facto, aconteceu, frisou o autor.

Pura fantasia

O livro tem partes em crioulo cabo-verdiano, que Jorge Morbey domina, uma vez que este recorreu a bibliografia do país sobre este tema, bem como algumas fontes portuguesas. Para chegar a algumas conclusões, a historiador foi buscar informação “a uns estudos iniciados nos Estados Unidos, no final da II Guerra Mundial, e que foram feitos por voluntários que foram submetidos a fomes para ver as reacções deles”.

“A única explicação que consigo encontrar aqui é essa obsessão pela comida, foi uma lenda que não tem nada a ver com a realidade. O que existiu foi o afundamento dos dois navios, que ficaram ali…ainda me lembro de restos de um deles encalhados junto à praia, e foi há quatro anos que esses restos foram removidos.”

Morbey lamenta que a estória que ouviu da sua avó não tenha acontecido na vida real. “Tenho pena que não tenha sido como a memória mantida pelo povo de cabo-verdiano durante 100 anos, porque era uma história romântica. Mas não tem qualquer correspondência com a realidade.”

Lançamentos em Lisboa e Cabo Verde

Apesar do lançamento ser feito em Macau, Jorge Morbey acredita que a Livros do Oriente levará o livro a outras paragens. “Provavelmente faremos também o lançamento em Lisboa e nas duas cidades principais de Cabo Verde, Praia e Mindelo”, acrescentou.

Esta lenda é apenas uma das muitas estórias que permanecem por investigar em Cabo Verde, considera o autor, que tem “uma colecção que, a seu tempo” pretende começar a publicar, relativa à “documentação para a história da ilha de São Vicente, onde eu nasci”.

Além da ilha de São Vicente, a ilha do Sal começou a ser povoada no século XIX, tendo ambas se tornado num importante motor económico de Cabo Verde entre a segunda metade do século XIX e os anos 50 do século XX.

“Foi a altura em que a navegação começou a ser feita em vapor, e os ingleses estavam a ocupar o mundo todo e tiveram necessidade de estabelecer postos de abastecimento à navegação de carvão e a minha ilha foi escolhida como a primeira base. Isso trouxe uma grande prosperidade e um desenvolvimento acelerado”, lembrou Jorge Morbey.

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