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Diz o cineasta Jorge Cramez que este seu filme de 2017, com fotografia de João Ribeiro e argumento do próprio e de Edmundo Cordeiro, adapta ao grande ecrã “La Place Royale” do dramaturgo Pierre Corneille (1606 -1684). É possível, é sempre possível ver num filme até o que lá não está. Mas este texto não é, nem se propõe a ser, um exercício do imaginário, mas um discurso a propósito da materialidade filmada, o que vi e ouvi na sessão de domingo na excelente sala 7 dos cinemas El Corte Inglês em Lisboa.

Se do Corneille pouca conta dei, já de Zygmunt Bauman e a sua teorização sobre as relações afectivas nas sociedades contemporâneas no seu texto publicado em 2000 pela Polity Press/Oxford “Modernidade Líquida”, ou desse ensaio que tem a caracterização da pós-modernidade como objecto, com o tão apropriado título a “Era do Vazio” desse outro sociólogo Gilles Lipovestky, editado em 1989, onde este escreve sobre o Narciso ou a estratégia do vazio e a sedução non stop, caracterizadoras deste tempo de individualismo, consumo e estética capitalista, muito pode ser lido.

O filme, ele mesmo, é um processo de mastigação continuada, de cenas que continuamente anunciam as seguintes e onde, como nas anteriores, nada acontece, o que está de acordo com o que é conceptualmente esperado, mas onde é notoriamente excessivo o contínuo anunciar da cena seguinte e a nulidade do exercício da fala. O filme é uma encenação do vazio, sem densidade nem tensão, com falas tão desinteressantes como a deambulação narcísica dos personagens, que se presume imaginarem-se a si próprios interessantes, e artistas num quotidiano sem sangue, nervo, tensão do real.

“Amor, Amor” repete, sessenta anos depois, o cinema da nouvelle vague – mas sem a frescura e com o cansaço de todo o tempo entretanto vivido.

É um cinema de adolescentes velhos que deambulam entre referencias estetizantes de um ecletismo pop com sonhos de vanguarda triturada a pastilha elástica gorila e universos da ficção científica dos grandes estúdios, em que alguém assume, uma personagem mulher interpretada pela Margarida Vila-Nova, o exercício do amor descartável como teorema da libertação feminina. Um exercício da banalidade.

O filme traça um dia no quotidiano de pequeno grupo de amigos sobre os quais pouco ou nada se chega a saber, a não ser que há um irmão e uma irmã, um pequeno grupo de homens e mulheres, casais com vontades cruzadas e, que um desses homens é um artista pintor que vive uma relação em que se sente constrangido na sua liberdade criativa. Ele, o artista, vive com a única personagem que consegue imprimir no ecrã tridimensionalidade, alguém capaz de amar e sofrer. “Amor, Amor”, é a vida num dia deste pequeno grupo, dia que como sempre termina em noite e nesta noite, em particular, é noite de fim de ano.

Resta o rosto da Ana Moreira, actriz que se nascida num litoral banhado por outro oceano há muito teria maravilhado telas do mundo inteiro como essa sua colega, talvez gémea, com nome de Uma Thurman (actriz que Tarantino não dispensa).

Há duas cenas com forte interesse cinematográfico, a da Museu de Arte Antiga onde se jogam elipses de corpos e necessariamente de tempo, ou do final onde queríamos permanecer com a Anabela Moreira a dançar no ecrã, infelizmente a mise en scène decidida pelo realizador faz com que demasiado cedo um outro corpo “anunciado” surja, e perturbe a dádiva total da atriz ao ecrã.

Particularmente interessante é a música escolhida que vai pontuado alguns momentos ao longo do filme. Até ao momento, nas 198 sessões em todos os ecrãs, fez 1115 espectadores (dados contabilizados até 14 de fevereiro).

 

Amor, Amor

De:

Jorge Cramez

Com:

Ana MoreiraJaime FreitasMargarida Vila-NovaJoana de VeronaEduardo FrazãoGuilherme MouraMaya Booth

Género:

Romance

Classificação:

M/14

Outros dados:

POR, 2017, Cores, 107 min

 

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