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Fosse mais comprido e poderia ser este o nome do mais recente filme de Manuel Mozos, com estreia comercial no dia 1 de Março em nove ecrãs na área metropolitana de Lisboa e Porto.

O filme viu iniciada a sua carreira internacional na Bienal de Veneza, no festival de Sevilha, no Festival Mar del Plata, em São Paulo, e foi o filme de abertura do Doc.Lisboa 2017.

RAMIRO, é este o nome do filme, inscreve-se na tradição do cinema europeu pós-II guerra mundial que trabalha as pequenas narrativas, histórias de livros de bolso de gare de estação, movimento iniciado com o grupo de cineastas da revista “Cahiers do Cinéma” fundada em 1951. Um cinema que abandona as grandes obras literárias para se focar em histórias de pequenos heróis, do herói relutante, um cinema de pessoas e quotidianos que se advinham possíveis e palpáveis em singulares realidades quotidianas.

RAMIRO é a história de um alfarrabista em Lisboa, poeta em bloqueio criativo, que vive um desconforto almofadado entre a loja e a tasca, acompanhado pelo cão, pelos companheiros de copos e modos de sentir, em que a vizinha adolescente e grávida e a avó, esta a recuperar de um AVC, tem um lugar particular na sua constelação de afectos. Há aqui um universo que se aproxima de uma certa Lisboa do fado, no entanto não há guitarras nem a fatalidade ou o destino e a desgraça são exatamente o campo onde o filme se move. O cartaz que apresenta o filme assinala-o como pertencendo ao género comédia delicada, estamos no terreno onde o irónico é dominante.

Aristóteles, na sua Poética, diz-nos que na comédia é o território do homem comum. RAMIRO é um autor que não publica e nem ele sabe se vai ou não escrever. É autor de um livro de que tem uns tantos exemplares numa gaveta na loja que não expõe nem vende. A ideia de escrever é uma pequena tortura. Vive os dias na loja e as noites nos copos. É amigo e o encarregado de educação de Daniela, a jovem adolescente grávida, cujo pai está na prisão a cumprir pena de homicídio por esfaqueamento da mulher.

Com este alinhamento narrativo o filme podia ser tudo, uma cavalgada emocional com picos e arcos narrativos bem definidos, misturando géneros, o drama e a comédia, não o faz. É um filme de emoções contidas, de coabitação sensata em bairro de gente remediada.

Ao realizador parece interessar estes mundos quase quietos em desfasamento com a velocidade, a hibridez e a necessidade multi-skills do contemporâneo. A vida acontece e é aceite sem interrogações, não se interroga como cresce um filho sem pai e de mãe ainda adolescente. Os laços de vida bairro são suficientes para o amparo à chegada de um novo ser, sem dramas ou outros entusiasmos que não os previsíveis. As vidas são o que são e quando acontecem, mas também não parece ser uma abordagem fenomenológica o que o filme procura.

Há citações, como sempre, a primeira e mais permanente, materializada numa fotografia de considerável dimensão com o retrato do personagem Jaime França, que é na realidade uma fotografia com o notável produtor de cinema Henrique Espírito Santo, da Prole Filme, ou o incontornável Godard, com uma citação ao filme Band à Part (1964).

 

Dizia o Manuel Mozos, três horas antes da ante-estreia na sala 6 dos cinemas no El Corte Inglês, no pátio da esplanada da Cinemateca, esse lugar santuário do cinema, em breve conversa acompanhada por uma leve chuva, em resposta a três perguntas.

— O que é este filme?

— É sobretudo um filme sobre um personagem com as suas motivações e desmotivações. O que me interessa e, mais do que o desenvolvimento de uma narrativa, é um olhar centrado nas peripécias do personagem e à sua volta. Os meus outros filmes também são centrados numa personagem. O que sucede ao longo do filme é sobretudo um acompanhar com a camera o conforto e desconforto do personagem na sua vida banal, quotidiana . O foco é a personagem, o RAMIRO, é ele o objecto da atenção da câmara. Ele vive desfasado da realidade contemporânea, não sabe conduzir, não sabe fazer o IRS, é um alfarrabista, um métier em desaparecimento no tecido urbano da cidade contemporânea que é Lisboa. O negócio das primeiras edições e edições de luxo vai continuar, mas isso é outra realidade.

Ao longo do filme vemos a materialidade dos espaços, interessa-me um cinema em que o décor é também uma fala. Neste mundo em transformação acelerada o Raimundo é um personagem parado no tempo, que embora não sendo saudosista tem no entanto uma relação nostálgica. Vive numa espécie de bolha na qual está confortável.

Interessou-me filmar Lisboa em planos não muito abertos, mesmo os planos de conjunto são fechados, pareceu-me que dessa forma conseguia filmar melhor o misterioso, as camadas de pele que se agarram nas pedras.

Estou mais preocupado com uma certa fidelidade a uma ideia, ao simbólico, do que a veracidade do raccord. Em Ramiro há um outro tempo, o tempo passado, estamos próximos da resistência, voltamos a olhar para o que já fomos, voltamos a ser outra vez: a uma existência para além dos aparelhos, é um pequeno elogio a um quotidiano perdido, talvez na subtil na esperança da permanência de um tempo que se esvai, e que o cinema permite resgatar interrogando a cidade que queremos.

— Filmaste uma Lisboa que já não existe?

— Ainda existe, só que cada vez é mais reduzida e em alguns aspectos corre o risco de desaparecimento. Sempre me interessou a relação do cinema com o arquivo, como se pode confirmar com o meu filme documentário Ruínas, e outros filmes em que trabalho com próprio arquivo. Aliás eu trabalho, sou funcionário do ANIM ( Arquivo Nacional Imagens em Movimento) .

— Como vês os próximos tempos do cinema Português?

— Parece-me que essa espécie de guerra entre uma ideia de cinema comercial e de autor está ultrapassada ou em vias disso, até porque os cineastas mais novos, os vão chegando, se os deixarem à profissão, já não alimentam essa discussão. O cinema é, como sempre foi, cinemas. As questões mais complexas tem a ver com as condições de produção dado sermos um país com muitas dificuldades de financiamento e onde o cinema é visto de forma periférica, para Portugal e para os portugueses o cinema não tem nem expressão nem manifesto interesse. É verdade que o circuito de festivais e até alguns festivais classe A estão com com o cinema Português, mas essa visibilidade internacional não é, ou não tem sido capitalizada. Para além da questão do financiamento da produção há a questão central que é a distribuição comercial; por um lado internamente, o mercado interno é ingrato para os filmes portugueses, muitas vezes os filmes são trucidados logo no lançamento, nós não temos verbas para campanhas de marketing e publicidade e coisa anda aos solavancos, quando anda. No mercado internacional a distribuição é ainda mais complicada, aí ou se está de forma inteiramente profissionalizada, o que obriga a custos e estruturas que ainda não temos, ou temos as alegrias e tristezas da corrente que os ventos sopram. A questão é que não há ainda uma política consistente da parte do Estado sobre o cinema quanto à produção nem quanto à distribuição e provavelmente – quanto ao interesse do próprio Estado quanto ao cinema. Ou seja, o cinema é uma porta, uma enorme possibilidade e talvez até uma enorme necessidade para Portugal, mas que continua fechada.

Em Ramiro há um outro tempo, estamos num plano de resistência, voltamos a olhar para o que já fomos, voltamos a ser outra vez: existimos para além dos aparelhos do universo da sociedade tecnológica.

Mozos faz com Ramiro um elogio de um quotidiano em queda, talvez na subtil na esperança da permanência de um tempo que se esvai, mas que o cinema permite viver e interrogar: como e que cidade queremos?

 

Realização

MANUEL MOZOS

argumento

MARIANA RICARDO, TELMO CHURRO

fotografia

JOÃO RIBEIRO

assistente de realização

BRUNO LOURENÇO

anotação

TELMO CHURRO

som

MIGUEL MARTINS

direcção artística

ARTUR PINHEIRO

guarda-roupa

LUCHA D’OREY

caracterização

RITA CASTRO

montagem

PEDRO FILIPE MARQUES

direcção de produção

EMÍDIO MIGUEL

produtores

LUÍS URBANO, SANDRO AGUILAR

Cor | 104’ | DCP

© O SOM E A FÚRIA 2017

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