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Parménides, que viveu entre 530 a 460 a.C., foi um filósofo da Grécia Antiga, de Eleia, e deixou-nos como registo do seu pensamento um poema, que irei expor aqui uma versão do seu início, seguido do fragmento quinto e, posteriormente, o célebre terceiro fragmento, de modo a aproximarmo-nos do que ele nos faz ver. O poema de Parménides está dividido em duas partes: a Via da Verdade (primeira parte do poema) e a Via da Opinião.

 

POEMA DE PARMÉNIDES

São os cavalos que me levam, e tão longe quanto o meu coração podia desejar,

Pela famosa estrada da Deusa,

A que pelas suas próprias mãos espalha nas cidades

Os homens que perseguem o conhecimento.

E assim também eu fui

 

Lançado numa carruagem, puxada por esses cavalos únicos,

Com donzelas a abrirem-me o caminho.

O eixo que liga as rodas imita o som de um ser alado,

Tal é a velocidade a que deixo os alicerces da Noite

Na direcção da Luz, por vontade das filhas do Sol,

 

Que retiram de suas cabeças os véus que as ocultavam.

E vejo os portões que conduzem ao Dia e à Noite:

A envolverem essas altas portas,

Um lintel em cima e uma soleira de pedra em baixo;

Cabendo apenas à Justiça, que de todos decide,

Fazer o uso das chaves que as fecham e que as abrem.

 

Com palavras bem ditas as donzelas

Convencem-na a destrancar os ferrolhos dos portões

E assim que as portas se abrem

o abismo surgiu por entre as folhas (…)

 

E a deusa recebeu-me com alegria,

segurou-me a mão com uma das suas e disse-me:

“É necessário que oiças tudo,

Tanto a estranha e imóvel rotunda verdade,

Quanto as opiniões dos mortais,

Que não têm fundamento de verdade.

Irás também aprender isto:

Que as aparências são necessárias apenas aparentemente

E estão em todo o lado, à nossa volta.”

 

E no fragmento 5, na primeira parte do livro, “A Via da Verdade”, podemos ler: “É tudo para mim o mesmo, onde quer que comece; pois aí voltarei na devida altura. Vamos e dir-te-ei – e tu escuta e apreende as minhas palavras. Só há dois caminhos para se pensar: um, o caminho que é e não pode não ser, que é a via verdadeira, pois acompanha a Verdade; o outro é o caminho do que não é, e que é forçoso que não exista, e acerca desse, digo-te, é um caminho totalmente impensável. Pois não poderás conhecer o que não é (isso é impossível), nem declará-lo, pois a mesma coisa tanto pode ser pensada como pode existir”.

Ele diz aqui uma coisa fundamental, que hoje pode parecer, por um lado uma redundância e por outro um absurdo: há dois caminhos para o pensar, o do ser e o do não-ser, sendo que este não é.

Afirmar a não existência do não-ser, é uma afirmação de grande alcance. Se o não-ser não é, o ser sempre foi e é e será, por conseguinte não houve um momento em que surgiram todas as coisas, elas sempre foram; o mundo sempre foi, o ser sempre foi. Por conseguinte, o ser é uno, imutável e infinito. Não pode ser senão uno, pois se tivesse em si o seu contrário, como diziam os pitagóricos, teria de ter em si o não-ser, e isso não é possível, pois o não-ser não é; não pode ter havido um tempo em que o não-ser era, pois se tivesse havido, o ser teria sido não-ser, a origem do ser seria o não-ser, por isso ele é imutável; nem o ser pode ser outra coisa que não seja ser, por isso é imutável. O não-ser sempre não foi, por conseguinte o ser sempre foi. O ser é derivado da linguagem, de einai, o verbo ser, tornando assim o pensamento de Parménides um pensamento lógico, isto é, lógico-ontológico, já que se trata de uma lógica aplicada ao ser e aos entes. Tal como em Pitágoras, estamos diante de um pensamento racional, mas que, ao invés de ser matemático, é lógico, ao invés de ser geométrico, é gramatical. E há três formas verbais que dão conta de tudo: einai, estin e on ( to ón); ser, é e sendo (o que está a ser). Reparem que sem “é” nada é. Nós dizemos “aquele homem é alto” “aquela mulher é magra”, “a minha irmã é loira”, “tu és moreno”. Mas dizemos também, e pensamos, “a vida é trágica”, “a vida é bela”, ou “o homem é mortal”. O “é” surge como predicado ou como existencial, o “é” está em todo o lado, é a parte visível do ser, assim como o sendo. Sendo, ou aquilo que está a ser, to ón, foi traduzido para o latim por “ens” e para português por ente. E ente é tudo aquilo que está a ser, que tem existência; o mundo é um composto de entes. O ser não é um ente, mas todo os entes são ser. No nosso mundo ocidental tudo é: o amor é…, a amizade é… a vida é… Tudo é. Parménides descobriu que quando se diz “a parede é branca”, não só temos a parede e o branco, mas temos também o “é”, que penetra nas duas coisas e faz com que ambas tenham uma relação. O “é” faz com que as coisas sejam uma para a outra. O “é” é a cola que permite que os elementos não sejam isolados. Mas este modo de pensar não encontra correlato na maioria das línguas orientais, a maioria delas não conjugam o verbo ser. E, por isso mesmo, chamamos à filosofia um pensamento ocidental. Dizer filosofia oriental é como dizer marciano da Lua, não faz qualquer sentido. Há modos de pensar estritamente orientais, tão ou mais importantes do que a filosofia, mas a filosofia é um modo de pensar à volta do verbo ser.

O ser não é a origem de todas as coisas – como tinha sido pensado até Parménides –, o ser é a essência de tudo. Tudo é e sempre foi e sempre será. Não obstante, o to ón, o ente, tem uma relação indissociável ao presente, através do nous, da consciência, que é preciso entender.

No célebre fragmento III, Parménides escreve: “Tò gàr autò noein estín te kai einai (por conseguinte, pensar e ser são o mesmo)”. Mas nous ou noein, isto é pensar, encontra-se numa relação necessária com o presente, com o aqui e agora de cada momento, e assim nous pode ser traduzido eficazmente por consciência, no sentido em que é um “dar-se conta de”; e sempre que nos damos conta de algo é no imediato, é aqui e agora. Ninguém se dá conta de algo no passado ou no futuro, embora possamos dizer que “só mais tarde me dei conta de que estava a ser imprudente”, por exemplo. Aquilo que vem à consciência, vem à consciência agora, isto é, temos consciência dos pensamentos no momento em que pensamos. Distraídos não nos damos conta de nada. Imaginemos a seguinte situação. Saio de casa, começo andar na rua, atravesso a estrada, dou mais uns passos e, de repente, vindo do nada, ocorre-me este pensamento “será que me esqueci dos óculos em casa”? De repente, paro. Os óculos, até aí completamente esquecidos, inexistentes do meu pensamento, alagam toda a minha atenção, e começo a procurar os óculos na mochila. Os entes têm esta estranha relação com a nossa consciência, fora da nossa consciência eles não são. Por isso costumamos ouvir dizer “andas muito distraído”, querendo com isso dizer que não nos estamos a dar conta do que se passa, não nos estamos a dar conta da realidade. A realidade, isto é, os entes vêm até nós pela nossa consciência em relação a eles. Por conseguinte, a distracção é a morte do artista, a morte do nous, a morte da consciência. Distraídos andamos na vida como fora da realidade. Por outro lado, o facto de não me dar conta de uma realidade não quer dizer que ela não exista, já que ela existe para a consciência de outro. Mas isso só reforça o seguinte refrão: tudo é, e só é, para a consciência, para o nous. Levando o refrão ao extremo, diríamos que o que não existe para a totalidade das consciências, não existe. Por isso Parménides afirma, ao negar peremptoriamente o não-ser, que não é possível pensar o que não há. Mas qualquer um de nós já pensou no tele-transporte e ele não existe. Mas existe enquanto imaginário, assim como o Unicórnio e o Minotauro, pois são entes que vêm à consciência. Nada é sem consciência. Do ponto de vista colectivo e do ponto de vista individual. Por isso, a distracção assume o papel de maior inimigo, não só do conhecimento, mas também do escamoteamento da realidade. Na verdade, todos sabemos que distrair-nos é esquecermo-nos de nós, é dar uma folga a nós mesmos, às nossas preocupações, uma folga à nossa vida. Embora haja quem viva distraído a vida toda, talvez não das preocupações do dia a dia, mas distraído da sua própria vida, do sentido da sua própria vida.

Por outro lado, para Parménides, a via da opinião, da doxa, é a via da mentira, a via do engano, a via do “parece ser”. Platão irá herdar este modo de pensar, que irá alastrar a todo o pensamento filosófico. Hoje até temos uma frase, que não sei se é de Portugal ou do Brasil, que diz: um homem sem opinião é como um jardim sem flores. E quer-se com isto dizer que a opinião é um patamar elevado da inteligência humana, quer-se dizer que devemos pensar por nós mesmos, como se a opinião tivesse alguma coisa de nós mesmos. Essa frase reflecte um modo de estar no mundo completamente inverso ao modo de estar no mundo do filósofo. Seja como for, aqui e agora, hoje em dia, opinião quer dizer “uma expressão individual acerca de qualquer assunto”, mas ao tempo de Parménides, que o que aqui nos traz, quer dizer “aquilo que parece ser mas não é.” Não deixa de ser curioso que, contrariamente a tantos livros, que começariam por nos mostrar o falso, para depois nos mostrarem o verdadeiro, este livro de Parménides começa pela verdade e deixa para o fim a falsidade. A que se deve isso? Podemos pensar que ele prefere começar pelo essencial, de modo a que sejamos impelidos a continuar; por outro lado, também porque os exemplos de “parece ser” são muito mais do que os de ser. Assim que o ser fica definido, em contraposição ao não-ser, que não é e nunca foi, nada mais há a mostrar, a não ser a multiplicidade de “parece ser” em que vivemos mergulhados no dia a dia, e que ele mostra no caminho da Doxa, da opinião (embora a maior parte do livro que não chegou até nós seja a da segunda parte). Em suma, para Parménides, a opinião é aparência. Estamos aqui com Parménides, confrontados entre o mundo da verdade e o mundo da aparência. Mas qual é o motor deste mundo de aparências, se assim podemos chamar? Os sentidos. Sentidos em grego dizia-se aisthesis, estética. Tudo aquilo que chega até à nossa consciência através dos sentidos, chega através da estética. Por conseguinte, há um mundo estético, o dos mortais, isto é, do corpo humano, da aparência, e um sentido ontológico, isto é, do Nous, do imortal, da consciência. É com Parménides, e depois com Heráclito, que pela primeira vez a estética, no sentido dos sentidos, se torna um problema filosófico. A nossa vida está presa à diferença entre estética e espírito, ou sentidos e consciência. O mundo da verdade é o mundo da razão, o mundo do pensar, da consciência; e o mundo da aparência é o mundo dos sentidos, o mundo da opinião. Mas como se passa do mundo da verdade para o mundo da opinião? Isto é, como é que a opinião influência alguém consciente da verdade? De outro modo: é possível viver só no mundo da verdade? Não. Porque a estética, os sentidos são parte integrante do humano. Por isso é necessário ter um conhecimento da via da opinião, de modo a não confundi-la com a via da verdade. E a partir deste momento, a partir deste poema, uma enorme sombra parmenideana se espalhou ao longo do Ocidente.

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José Saramago atribuiu-lhe o primeiro prémio literário com o seu nome. Viveu na Ásia, no Médio Oriente e no Brasil. De escritor-promessa a persona non grata no meio literário, Paulo José Miranda, licenciado em Filosofia, é poeta, escritor e dramaturgo, e tem obra publicada.

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