A última garrafa

DOUTOR: (antes de atender) É a chamada que esperava, do hospital. (atende) Sim!… Morreu?… Assim que possa vou imediatamente para aí… Até logo.

 

RAUL: Más notícias, doutor?

 

DOUTOR: Não propriamente. Um doente meu que morreu. Mas já se esperava que isso viesse a acontecer esta noite. Melhor assim. Cancro no pulmão. Um sofrimento atroz, meu amigo. É como escrevem nos maços de cigarros: «Fumar mata».

 

RAUL: Doutor, viver mata.

 

(silêncio e o doutor levanta-se e anda pela sala, pensando)

 

DOUTOR: O senhor está decidido a não sair daqui sem o comprimido, não está?

 

RAUL: Estou, doutor.

 

DOUTOR: E também já sabia disso quando para aqui veio, não sabia?

 

RAUL: Sim, já sabia, doutor.

 

DOUTOR: Diga-me mais uma coisa, sinceramente. Está armado?

 

(silêncio)

 

RAUL: Julgo que o doutor merece a verdade. Estou sim. Venho armado.

 

DOUTOR: E então?

 

RAUL: Então o quê, doutor?

 

DOUTOR: Já se decidiu, se vai ou não usar a arma?

 

RAUL: Já me tinha decidido antes, doutor.

 

DOUTOR: E julga ser capaz de chegar ao ponto de me matar?

 

RAUL: Isso não lhe sei dizer, doutor. Julgo que só iremos saber no último momento. Você e eu. Mas espero que não seja necessário chegarmos a descobrir os meus limites.

 

DOUTOR: (voltando a sentar-se) Sabe o que é que eu penso? Penso que você não é capaz. É demasiado decente para isso. Não é que lhe falte a coragem ou a tenacidade. Falta-lhe não ter escrúpulos. Uma coisa é planear uma fraude, outra coisa bastante diferente é realizá-la. E não se esqueça que a fraude iria ser realizada por mim, não por si. Você só planeou. É só do que é capaz.

 

RAUL: Não vou sequer tentar contrariá-lo. Talvez até tenha razão. Mas está a esquecer-se do desespero, doutor. E o desespero é inimigo dos escrúpulos.

 

DOUTOR: (levantando-se e erguendo a voz) Mostre-me a arma! Vá, mostre-me a arma, homem!

 

RAUL: Tenha calma, doutor. Sente-se, por favor! Sente-se, peço-lhe.

 

(o doutor volta a sentar-se)

 

RAUL: Para que quer ver a arma? Não acredita em mim? Começa agora a duvidar de mim? Olhe que não é o momento certo para começar a ter dúvidas, doutor.

 

DOUTOR: (levantando-se e erguendo a voz novamente) Então sai! Saia, por favor!

 

RAUL: (levanta a camisola e tira um pequeno revólver, que tinha entre as calças e a barriga, e pousa-o sobre a mesa junto a si) Queria ver, então aqui está! Já está convencido ou ainda tem dúvidas?

 

DOUTOR: (pálido, volta sentar-se) E agora, que vai fazer?

 

RAUL: Depende de si, doutor. Eu só quero o comprimido. Se mo der, saio por aquela porta do mesmo modo que entrei e o doutor pode telefonar imediatamente à polícia. Se não me der o comprimido, vamos acabar por descobrir se sou ou não capaz de atirar num homem.

 

DOUTOR: E que ganha você com isso? Se me matar não vai poder levar o comprimido. Como é que vai descobrir qual deles é, no meio de tudo isto (e aponta para os armários).

 

RAUL: É verdade. O doutor tem razão, não ganho nada com isso. Só o doutor é que perde. De qualquer modo, talvez depois de matar um homem também já não tenha escrúpulos em me suicidar. Há sempre que contemplar essa hipótese. Talvez venhamos a descobrir que até sou capaz de matar para morrer em paz.

 

(silêncio)

 

RAUL: Então, que decide? Vamos jogar até ao fim, ou terminamos por aqui?

 

(o doutor volta a levantar-se de novo e anda pela sala, pensativo)

 

RAUL: (que não tira os olhos dele e segura o revólver) Espero que não vá tentar qualquer acto violento, porque é sempre assim que acontecem os acidentes.

 

(após algum tempo, o doutor dirige-se a um dos armários e, de volta à mesa, traz consigo um comprimido numa embalagem especial)

 

DOUTOR: Está aqui o comprimido, senhor Santos.

 

RAUL: (segura no comprimido e olha-o) Como é que vou saber se é este o comprimido, doutor? Não estará a enganar-me?

 

DOUTOR: Isso nem me ocorreu, homem! Para que é que o havia de enganar?

 

RAUL: Consigo encontrar mais do que uma razão, doutor. Quanto tempo leva o comprimido a matar-me?

 

DOUTOR: Cinco minutos. Mas em quatro adormece profundamente.

 

RAUL: Óptimo! Não parece que haja algum soporífero que me ponha a dormir em quatro minutos, pois não?

 

DOUTOR: Não. Mas porque é que me está a perguntar isso?

 

RAUL: Ora, doutor, não estava à espera que me fosse embora, correndo o risco de me ter enganado, pois não?

 

DOUTOR: Que quer dizer com isso?

 

RAUL: Quero dizer que o vou tomar aqui à sua frente e se em quatro minutos não estiver a dormir vamos finalmente conhecer os meus limites.

 

DOUTOR: Não pode fazer isso aqui, à minha frente!

 

RAUL: Porque não? Você é o meu médico. Tem o direito e o dever de me acompanhar até ao fim.

 

DOUTOR: Mas não foi algo que eu tenha escolhido. Nem sequer estou convencido de que seja um doente terminal.

 

RAUL: Por favor, doutor, já devia saber que escolhemos muito pouca coisa durante o tempo que temos neste mundo. Julga que escolhi ser doente? (olhando para o comprimido) Como é que isto se toma?

 

DOUTOR: Como uma aspirina.

 

RAUL: (retira o comprimido da embalagem, põe-o na boca e ingere um gole de whisky; e ainda com o copo na mão) Proponho um último brinde: às excepções! (pausa) Vá lá, acompanhe-me. Sei que não é um brinde original, mas também nunca fui pessoa muito original. Vá lá, doutor, faça-me esta última vontade!

 

DOUTOR: Às excepções!

 

RAUL: Obrigado. Não se preocupe que vou segurar firmemente a arma, para que a polícia possa comprovar a história que lhes vai contar.

 

DOUTOR: Julga que alguém vai acreditar no que aqui se passou?

 

RAUL: Talvez não. Mas vão acreditar na arma na minha mão. E não os pode levar a mal, doutor. O senhor também só acredita no que constata. Esperemos que a arma não se me escape da mão, doutor. O melhor será apoiar-me aqui na mesa. Não lhe quero causar problemas. (debruça-se sobre a mesa com a arma apoiada nesta e apontada na direcção do médico)

 

(o tempo passa, adormece)

 

DOUTOR: (pega no telefone e marca um número, ouve-se o telefone chamar, apagam-se as luzes)

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