Ai flores de verde pino

Na noite escreve um seu cantar de Amigo o plantador de naus a haver

E ouve um silêncio múrmuro consigo:

É o rumor dos pinhais que, como um trigo.

De Império, ondulam sem se poder ver.

E, neste Outubro, oito séculos depois do rei amigo ter plantado o seu pinhal as chamas deste ano o devoraram. D. Dinis nasceu neste belo Outubro – dia 9 de 1261 – e não será certamente o presente que se recomende a ninguém na memória do tempo com naus a haver, mas, o certo é que tem havido no seu país longínquo a mais séria devastação que os seus cantares não visionaram nem a sua natureza gentil teria feito alguma vez ideia. O vasto manto de verde pinho com cheiro antigo e fresco onde me lembro das camarinhas e da leveza e do cheiro a iodo que vinha ali rente ao mar, esse manto que dir-se-ia eterno feito por Deus num recanto da Terra, pereceu.

Não é um facto de somenos estar triste e refém da orla das suas sombras belas e frescas, não é um acontecimento qualquer este que me faz recuar cinquenta anos e de onde agora sou expulsa, mas sim, o primeiro trago na maçã que desencadeia a fúria e a expulsão de um recanto adorado que alguém criara para mim. – Creio que me o plantaram, sim – que me foi doado pelo amor de um rei e estes presentes que consideramos tão nossos rasgam o postigo por onde passam também as labaredas, a nossa saudade fica em pranto o nosso adeus é uma asa negra de cinza naquele escuro que na alma se perde e os olhos não querem contemplar. Arrancam-nos bocados, assim, como que tragados, subtraídos à substância do húmus que os pés de uma criança trouxera intacto para o resto da sua vida: Amor, a aldeia ao lado, está intacta – Amor que arde e não se vê – essa ficou de pé, lembrando a rota por onde depois de vistoriar a sua plantação correra amante e terno o rei para os braços de uma filha destas terras. A seiva dos seus cantares de Amigo estava ali também plantada e não raro escutávamos a sinfonia dos elementos com a sua voz de rei e de poeta. Cantares de Amigo. De um amigo rei.

Esta imensa chaga não tem fim é uma desconsideração sistemática face à alma nacional feita por um mundo que resolveu carbonizar seres e sonhos, caminhos e canções e este instante é um assombro que nos fica gravado na carne ainda em brasa. Não voltarei a ver o mar de um ângulo todo exacto por onde deleitosamente se espreguiçavam pinheiros impedindo ventos, estancando areias, fazendo a fronteira entre o solo bom e o caminho agreste das marés. Não voltarei à sua orla tão suave onde fui aprendendo o doce significado de fronteira, que estar separado e próximo de alguma coisa é a melhor harmonia de se estar no eixo certo que é onde nos devemos manter. Não voltarei aos seus flancos naturais que sabem corrigir o excesso de zonas abertas que produzem a dogmática noção de espaço imenso, um espaço assim aberto e morto de pé é agora uma visão de Dante e embora seja belo tudo o que a sua imensa natureza produziu será também por a ter sido que nos indicou os caminhos por onde o mal se estende, o percurso é longa e estranhos os desígnios. Foi aos seus ramos e ao verde pinho que cantou o seu cantar de Amigo o gentil rei por isso eram árvores encantadas.

Fica-nos assim uma era de exclusão onde por horror e martírios sucessivos expulsámos as últimas fadas e os seres da floresta que eram garantes da memória, com eles se vão as nossas defesas e os nossas sombras- que um ser quando perde a sombra tem em si registada a morte.- Do que se canta já não vemos o Amigo, e as vozes, nenhuma nos indica as naus que outrora em sonhos partiram e navegaram ainda no sonâmbulo das chegadas, pois que de um jardim se faz um sonho que avança e se transforma até ser vela nau e nave, até ser tempo. Nestes dias a Barca da Morte veio buscar-nos e ainda navegámos com ela até à margem mais fina da sua ondulação como náufragos de uma viagem inventada. De súbito, estávamos em terra, em terra estranha, aquela por onde ela acorda o que até aí nunca viramos, tão inexperientemente como neófitos de olhos abertos, estamos na vida nova. E para trás não olhamos, pois que nos dizem as lendas que ao fazê-lo desapareceremos mesmo nesses reinos onde devemos saber guardar morada para os que vêm depois; há quem se perca e continue no limbo e tão transfigurados, que nem dão por mim: meu criado e amante vem comigo saberás o que nunca imaginaste.

Revejo o Outono que se adentra como um louco quente e logo abrupto, dos fogos do Inferno criaram-se céus laranjas noutras Estados e os furacões ameaçam-nos levar o chão. Em permanente instabilidade de condições desejamos ir recuperar o corpo dormente destas esferas que os martírios tornam lívidos e parecem cavalos as teclas que se soltam à medida que as rédeas de um grafismo de ideias assolam o coração que se gasta na jornada.

Desejei dar-te outros Cantares querido rei, mas só estas coisas sou capaz de compor nestes amargos presentes que o nosso aniversário selou. Eu recebo-os como injúrias e não choro, já, tu estás no limbo das fontes e deves ter remado a tua Barca para outra estrela distante de tão sórdido planeta, terra, país e suas gentes. Mas valentes e guerreiros quero salvaguardar os Bombeiros Portugueses que em condições quase miseráveis enfrentam todos os Adamastores perante o olhar de uma gente sem brio, sem conhecimento, cúmplice de aturados anos de insensibilidade e descaso que arremessaram um país para um campo de treino do mais vil “jihadismo” da luta partidária em cima de cadáveres ainda tão “frescos”. – Segreda-me: os teus súbditos já eram assim? – Ou plantou o Diabo uma coisa indigna e colocou-os algures aqui? Há porém um homem que tem braços e os dá aos braços que se lhes estendem em pranto, que perto anda de um grau de iniciado e não deixa secar as terras os corações e a seiva de um finíssimo “verde pino” esse homem também poderia ter sido rei e sem dúvida que seria de ti um Amigo. E num cantar sonhado por homens assim, inventávamos um país e esquecíamos para sempre tal tormenta. Venceríamos a primeira morte, pois que só os que estão inscritos no Livro não morrerão.

– E como nós meu bom rei, somos descendentes e filhos queridos dos avós, o Avô Afonso X, escrevera para ti e para nós este poema, porque a musa do rei era herança carnal.-

O que atravessou a serra

e não quis servir a terra.

O que arrecadou dinheiros e não trouxe cavaleiros

Se só vem com os derradeiros, maldito seja!

Quem cobrou grande soldada se tem fortuna ou mesada,

maldito seja!

Quem muita manha meteu no saco e pouco de seu,

maldito seja!

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