PARTILHAR

Grande parte da vida de um escritor é feita de outras coisas que não a escrita. Trabalhar é uma delas, e é uma realidade com a qual os escritores têm de conviver a maior parte da vida, porque aquilo que recebem pela sua actividade literária é, na maior parte das vezes, insuficiente até para levar a mais frugal das vidas em regime de campismo selvagem.

Outra das coisas que de certo modo constituem a carcaça daquilo que pode ser chamado “a carreira do escritor” são os festivais literários. Estes multiplicaram-se consideravelmente nos últimos dez anos. Neste momento, há dezenas de festivais por ano, muitos deles organizados sob a alçada da autarquia da cidade em que se inserem, o que acaba por revelar – perspectiva optimista – o reconhecimento por parte da classe dirigente do interesse crescente da população pelo mundo da cultura, em geral, e para a constelação livro, em particular. Ou – perspectiva pessimista – tudo não passa de uma moda contagiosa que a qualquer momento se vê ser substituída por feiras do chocolate, feiras medievais ou encontros de medicinas alternativas. O tempo o dirá.

Um festival literário é uma experiência diferente para cada escritor convidado. Uns, recusam sempre (o Herberto, por exemplo, termina uma carta de resposta a um convite escrevendo “a minha ambição é não aparecer”). Outros, aceitam de bom grado todos os convites porque estes se transformam numa oportunidade de conviver com os seus públicos, de ver ou rever amigos escritores, ou simplesmente de comer e beber à pala durante o decurso do festival. Para muitos, as razões sobrepõem-se num cocktail mais ou menos homogéneo de motivações equitativamente distribuídas.

Há um aspecto a ter também em conta: o escritor faz também parte de um determinado público de leitura e de leitores, embora numa categoria de “leitor especializado”. Ele próprio pode ter, em condições privilegiadas, a oportunidade de conhecer os escritores que admira. Lembro-me de quando conheci o Ruy Castro em Óbidos, há cerca de dois anos (o grande biógrafo em língua portuguesa, que escreveu uma biografia que muito me impressionou, a do Garrincha). E lembro-me de ter ficado com uma cara semelhante àquela que um adolescente dos nineties faria se estivesse frente a frente com o Kurt Cobain. E de ter sentido que disse tontices ainda maiores do que é costume. Not my finnest moment. Adiante.

Por vezes, quando as coisas correm menos bem, há muito pouco público e este dá a sensação de ter vindo ao engano. O moderador fez o trabalho de casa com demasiado afinco e vai desfiando penosamente e sem critério todos os acontecimentos de vida de todos os convidados. No tempo que resta para o debate propriamente dito, os convidados descobrem que se detestam e passam os quinze minutos sobrantes a insultarem-se uns aos outros, a despeito das tentativas canhotas de o moderador pôr alguma água na fervura. No final, ninguém esconde o alívio de ver aquele espectáculo chegar ao fim.

Às três da manhã, no hall do hotel, os mesmos escritores que tinham descoberto serem inimigos de infância abraçam-se e brindam à amizade e ao futuro.

PARTILHAR
Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here