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Bandeiras transparentes, paredes carimbadas com “Forever Immigrant” e um piano a tocar um poema são algumas das obras de Marco Godinho e Davide Balula escolhidas para a Bienal de Lyon, em França, sob o tema “Mundos Flutuantes”.

A 14.ª edição do evento, que se realiza de 20 de Setembro a 07 de Janeiro, conta com artistas de 23 países e questiona o conceito do “moderno” na arte, a partir do tema “Mondes Flottants” (“Mundos Flutuantes”).

O tema atraiu, de imediato, Marco Godinho que, no ano passado, já tinha feito uma exposição no Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Nice intitulada “Mundos Nómadas”, tendo agora escolhido três obras que convidam à “deambulação porque não se pode apreender só com o olhar”.

“O mundo flutuante é um mundo incerto que se gere no presente. Com estas obras, a minha leitura tem a ver com a ideia de uma certa poesia no nosso quotidiano, tem a ver com os poemas de Mallarmé e uma forma um pouco mais aberta de fazer arte e realizar experiências que não se limitem à ideia do observador, que vai para um espaço confinado simplesmente observar”, explicou à Lusa Marco Godinho.

Na primeira obra, “Forever Immigrant”, um carimbo circular da frase em inglês vai preencher a fachada do edifício de exposições, La Sucrière, e propagar-se ao interior, fazendo eco não apenas do exílio e “tudo o que acontece no Mediterrâneo” mas também da própria “ideia de incerteza”, ligada ao seu percurso de emigrante.

“Sem Título (Bandeiras Transparentes)” é uma “obra em evolução”, inicialmente inspirada nas estrelas da União Europeia, em que “as bandeiras em vez de terem símbolos são completamente transparentes” e, sendo expostas no exterior, “pouco a pouco vão começar a rasgar e evoluir no tempo”.

Em “Written By Water”, vão ser expostos cadernos que o artista recolheu ao longo de viagens por países mediterrânicos e que mergulhou em água, “para que a água pudesse escrever a sua própria poesia e história”, uma obra que vai estar acompanhada pela projecção de um vídeo.

Marco Godinho, nascido em 1978 em Salvaterra de Magos, e residente entre Paris e o Luxemburgo, participou, no ano passado, na feira de arte contemporânea Art Central de Hong Kong e expôs no Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Nice, tendo apresentado o seu trabalho, em 2015, no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, em Lisboa.

Experiência no espaço

Davide Balula, que nasceu em 1978 na aldeia de Vila Dum Santo, no concelho de Viseu, e reside entre Paris e Nova Iorque, escolheu para a Bienal de Lyon duas obras inéditas: uma peça sonora em que “um piano vai tocar um poema” e uma peça luminosa que realiza um “movimento abstracto de ‘laser’ nas paredes”.

“É difícil descrever com palavras porque é simplesmente fazer a experiência da obra no espaço. Recorrendo a uma espécie de narração abstracta, eu diria que as duas obras tocam a questão da percepção”, explicou o artista à Lusa, sublinhando a importância do espaço e do tempo no seu trabalho, assim como o papel do espectador que “constata a sua própria presença quando observa uma obra”.

Os trabalhos apresentados dialogam, assim, com o tema da bienal, com David Balula a interpretar os “Mundos Flutuantes” como “a impossibilidade de alcançar as coisas”, ilustrando a sua ideia com uma peça de Marcel Broodthaers, “muito importante” para si e exposta na sala ao lado da sua.

“O autor tenta escrever uma carta debaixo da chuva. Escreve com tinta e chove na folha e a tinta não se agarra. Esta ideia de continuar a escrever e ter a tinta a escorrer faz parte da peça”, descreveu o artista que costuma explorar elementos naturais como a água e a terra, por exemplo, em “River Paintings” e “Buried Paintings”, e também o fogo, como em “Speaking in Flames (The Voice of the Firebreather)”, uma performance em que a voz é substituída por chamas.

No ano passado, Balula apresentou a performance “Mimed Sculptures”, na Art Basel Unlimited, em Basileia, na Suíça, e “Speaking in Flames (The voice of the Fire Breather)”, na Ecole Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris, uma performance que também levou, em 2014, ao Palais de Tokyo, em Paris, e ao MoMA PS1, em Nova Iorque.

Para a Bienal de Lyon, também foi convidado o artista mexicano Hector Zamora, que vive e trabalha em Portugal, os brasileiros Cildo Meireles e Ernesto Neto, residentes no Rio de Janeiro, e o realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul, vencedor da Palma de Ouro de Cannes, em 2010, com o filme “O Tio Boome Que Se Lembra das Suas Vidas Passadas”, e que em 2016 esteve em Portugal, para acompanhar o ciclo que lhe dedicou o Cinema Ideal, em Lisboa, e apresentar a sua primeira performance, “Fever Room”.

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