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Quando cheguei a Macau senti-me imediatamente em casa. A sede de exotismo há muito que me impelia para terras ermas, para lugares onde a minha língua fosse uma curiosidade sonora imperceptível. Diria até que a portugalidade vestigial foi mais difícil de computar, como olhar para um homem sem polegares oponíveis, ou avistar em estupefacção um dinossauro esmagar uma torre de apartamentos. Assisto expectante a este imparável processo de darwinismo civilizacional, quase biológico, na primeira fila. Olho para ele com a naturalidade dos que nasceram livres das amarras imperialistas, ciente do passado sem ter de embarcar no facilitismo de ter de inserir nesta frase uma progressão lógica para o presente e o futuro.

A minha tez reflecte o somatório de povos que se fixaram na Península Ibérica, nascido e criado sobre o imperdoável sol alentejano, enfrento o astro de frente. Sem chapéu-de-sol, sem pudores em torrar, sem qualquer palidez fantasmagórica, como uma rosa nascida fora da estação surdida por engano, como diria o poeta. Não me incomoda o auto-incutido banimento, o exílio interior, esse sempre habitou no meu peito, como uma intoxicante amante que nos impele a fazer coisas insondáveis e que nos deixa famintos de presença. Como uma doce epiderme que instiga, “toca-me, afaga-me”, sem se manifestar física, alcançável. A fantasmagoria é-me familiar, faz parte de mim, como se a minha existência resvalasse para a translucência, para um lugar além da luz.

A expressão “gweilo” tem várias conotações, nem todas elas catastróficas, mesmo pegando nas traduções literais de fantasma ocidental, ou diabo não-chinês. Aceito tudo isso porque lhe reconheço acidental assertividade. Homem fantasma, espectro com corpo que pisa este e outros solos, sempre com a leveza de uma aparição. Muitas vezes procuro ter a invisibilidade de uma alma, por vezes conjuro teias de pensamento que sem um assombro religioso poderia adjectivar de diabólicas. Mas nunca serei chinês, essa é uma verdade indubitável. Os meus olhos tem uma forma diferente mas, acima de tudo, percepcionam de uma forma diferente.

Gweilo, laowai, pula, gringo, tanto se me dá. Assumo, abraço e deleito-me na dissonância. Não a ganhei aqui, ela acompanha-me desde o berço. Vim em paz, o meu passaporte é o sorriso que dirijo a todos vós, meus irmãos de desterro verbal. Vou-me fazendo entender, recorrendo a truques que a necessidade cultiva. O mínimo entendimento é motivo de celebração, uma quimera de concordância que raramente se encontra entre quem fala a mesma língua. Essa ténue e minúscula ponte estende um abraço com meio mundo de amplitude, une-nos no primordial sentido humanista de sermos duas pessoas que partilham o mesmo espaço e tempo. Macau, Agosto de 2017. Somos feitos da mesma carne, corre-nos nas veias sangue igual, choramos as mesmas pequenas e salinas ondas, nascemos ambos a berrar o mesmo protesto, morremos essencialmente iguais.

Desejo prosseguir este imaterialismo, continuar a caminhada espectral como um vapor que se vai infiltrando na maquinaria da cidade, como um murmúrio que se espalha agigantando-se num grito colectivo na praça do Leal Senado. Sei que por vezes serei um espectro em fuga na visão periférica de Macau, um rumor que alguém ouviu, como uma canção longínqua e eminentemente estrangeira, de origem indefinida. Avaro como o sol de Inverno, sumido como o seu ocaso, fugaz como um astro cadente, coincidente como um eclipse.

Toda esta minha diatribe está a milhas dos conceitos folclóricos de almas penadas, de fantasmas que arrastam correntes e que usam roupa de cama. Não reclama carícias reparadoras depois da discriminação, não se verga derrotista por questões de distância, nostalgia ou disparidade comunicacional. Isto não é uma vitimização perante uma expressão que me ultrapassa, mas é uma oportunidade para me mostrar sumindo de cena, uma revelação fugidia. O meu fantasmagórico desterro é um lugar de autocontemplação, de reflexão e paz. A minha verdadeira terra é o sonho, é de lá que venho e é lá que estou sempre… onde quer que esteja.

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