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Metro, Lisboa, 29 Maio

Ainda no REALIZAR:poesia, durante o lançamento de Vertem-se Bíblias em Quimbundo (ed. Miasoave), o João Paulo Esteves da Silva explicou muito explicadinho a origem do volume: um amigo hebreu e poeta ofereceu-lhe um tablet e ele pôs-se a «andar pela cidade com os polegares». Usei os meus para tomar nota no telemóvel, mas desnecessariamente, pois não me esqueci. O livro traz ainda um cd com as canções de um outro projecto, Crime, mas os poemas iniciais têm pouco a ver, a não ser no que indica uma epígrafe: na luta diária, os nossos gestos poderiam cometer crimes. Ainda assim, aqueles percursos pelo quotidiano são compostos no modo narrativo da voz off de um qualquer filme noir, com os olhos a fazer a vez dos polegares no tocar da cidade. Muita sombra perpassa, não sei se melancólica, nas descrições falsamente fotográficas do que se faz e desfaz, da chuva e das árvores, tantas árvores, do vazio e de Deus, mas também de memórias e de anseios, por outro sítio ou por neve. Longos versos a dizer em baixo contínuo de cortante singeleza. Falho paragens no metro atulhado com a voz off a empurrar-me, de súbito flanêur de filme noir na cidade branca. Branca por que raio? «Claro que preciso do apoio dos livros, empilho-os, encosto-me, descanso/Pouso-os na mesa, sombras benfazejas, anjos sentinelas//Às vezes, tenho a mão sobre um enquanto leio outro/Acompanho com toques mais ou menos ritmados//Agrada-me escrever em contraluz, virado de frente para o livro/ A ver o lado mais sombrio das formas, iluminadas por trás (…)».

Cemitério da Paz, Setúbal, 30 Maio

Interrogações. De que espécie era a pequena árvore que nos refrescou naquele deserto, sobreiro ou oliveira? De onde vinha e para que apontava o arbusto que se erguia do vazio da gigantesca cabeça tombada, céu ou terra? De que mineral nasceu a cabeça tombada, lioz ou granito? Sabe o coração que os seus batimentos desenham paisagens, montanhas e fossas? Que lonjura e profundidade deve ter o traço para fazer um destino?

Facebook, Lisboa, 1 Junho

Leio notícia da morte de Armando Silva Carvalho (quantos dos citadores instantâneos e lamentadores terá comprado um dos seus livros?). Não consigo relembrar-me da última conversa sobre Deus. Ou seria morte? Será possível falar daquele sem esta? Qual espelha o quê? «Entrego estes frutos minerais/tardios./ Envolvo numa sombra a mão/ que mos recebe. / A isso chamo eu mundo./ Entrego mais e mais, amei falsificando,/ e ajeito o pescoço à lâmina/dos dias./ Com os olhos bem abertos abarco/ toda a queda./ Eu sei, é o outono.» (De Canis Dei, incluído em O Que Foi Passado a Limpo, ed. Assírio & Alvim, volume que sobreviveu com marcas à inundação). Sopra na cidade, mal anoitece, um vento frio.

Horta Seca, Lisboa, 1 Junho

Apesar do vento, fez-se festa, esta finissage. Como nas boas receitas, a qualidade de cada ingrediente foi-se encaixando para fazer mais, muito mais, do que a soma das partes nesta edição especial de «Desenhar Em Cima da Conserva», caixa com livro e latas de conserva. Surjam agora mãos-leitoras que o usem para se apoiar. A ideia do mano Tiago [Ferreira] de convocar ilustradores capazes de ocupar, com imagens, um vazio desenvolveu-se, à mesa, para cadáver esquisito em banda desenhada que contasse mais uma história de marinheiros e sereias. Aconteceram encontros mensais, na loja da Conserveira de Lisboa, para assistir ao desenho ao vivo até que o Museu do Trabalho, antiga conserveira de Setúbal, acolheu há um ano, uma primeira mostra do conjunto dessas obras, enquanto o André [Carrilho] encerrava a histórica com épica baleia. Outro mano, José Teófilo [Duarte], com ajuda do João Silva, desenhou o objecto com o peso exacto de cor e modo, antes de ser passado a caixa, de modo a conter duas latas Tricana, cuja imagem aproveitaria personagens da Susana [Carvalhinhos] e do Pedro [Brito]. E estou longe de esgotar a lista de competentes contributos. Outro dos casos, portanto, em que as páginas dos livros se transfiram em ramos de árvore abrindo espaços na paisagem e tocando mundos e fundos. Por exemplo, neste dia fez-se toalha para dispor os sensíveis e delirantes amuse-bouche da Ingrid [Correia], tão bem acompanhados pelos espirituais Syrah, Viosinho e Touriga Nacional, da Quinta do Gradil, gentileza da Ana Matias. Tenho até carinho por caixas, sobretudo de cartão, mas não tinha nas estantes que vou construindo nada com esta luxúria bruta. A bd dentro vive de brincar entre o negro e o branco, seja traço ou mancha. Cada vez que a folheio encontro tranquilidades e tempestades, o delírio e o medo, além do amor. E depois o mar, em (pro)fundo.

Casa da Cultura, Setúbal, 2 Junho

O rosto da Festa da Ilustração soma, este ano, ao grafismo sólido do José Teófilo [Duarte] a fluidez do desenho do António Jorge [Gonçalves]: figura que corre, com lápis na vez a perna, traçando o chão que pisa. Preciso aqui desmontar a metáfora como se fosse prótese?

Pelas zero horas, estamos, os organizadores, tolhidos pela quase solenidade no meio dos seus desenhos que são quase só traços. Dizem, com pujante energia, que somos isso, afinal, linhas, vestígios. Com método, leu a Casa da Cultura e instalou três momentos do trabalho que vem fazendo, começando pela ampliação dos seus inseparáveis cadernos do registo imediato de gente sentada viajando de metropolitano nos cinco continentes. Ao que se segue o trabalho de desenho ao vivo de par com música, teatro ou dança, para acabar em A Minha Casa Não Tem Dentro, com o essencial do seu livro mais recente, de toque abysmático. Disse três momentos? Erro. São quatro, pois a improvisação é componente essencial do seu modus operandi: a vida prolonga-se nas páginas do caderno onde assenta notas, sejam desenhadas ou escritas, ou ambas as coisas. E dali frutificam depois para o que der e vier. Havia uma parede cega na Casa da Cultura, a caminho dos Desenhos Éfemeros, a tal onde às escuras assinala a parte do seu trabalho com a luz. Faça-se da parede folha de caderno (veja-se foto ao lado), com perguntas e desenhos ou perguntas desenhadas. «Respondo-me ao perguntar? Desenho porque desejo-te? O medo mata? O medo salva?» Obrigado por perguntares: «Como te sentas hoje?»

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