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Depois de arrebatar Hollywood, o realizador mexicano Alejandro Iñárritu aventura-se no campo da realidade virtual. “Carne y Arena” é uma experiência em que o espectador submerge na realidade dramática da fronteira entre o México e os Estados Unidos

Muito mais do que um filme, “Carne y Arena” é uma experiência de vida, uma alucinação de um mundo que, infelizmente, não é uma fantasia. O projecto de realidade virtual de Alejandro Iñárritu, o realizador que ganhou o Óscar de melhor realizador com “Birdman” e “The Revenant”, é inaugurado hoje na Fundação Prada em Milão, onde fica em exibição até 15 de Janeiro. Além disso, o projecto faz parte da selecção oficial do Festival de Cannes que se começa a debruçar sobre este tipo de media.

O realizador mexicano volta a esticar os limites do conceito de cinema com “Carne y Arena”, um filme com cerca de sete minutos, filmado por Emmanuel Lubezki, que leva o espectador à zona fronteiriça que separa os Estados Unidos do México. A experiência submersível e intensa permite uma visibilidade de 360 graus baseada nos relatos de emigrantes e refugiados que tentam chegar a solo norte-americano vindos do México ou da América Central.

A experiência é um mergulho angustiante nas vidas de quem procura atravessar uma fronteira clandestinamente. Primeiro, o “espectador” é convidado a tirar os sapatos e as meias antes de entrar num local do tamanho de um campo de ténis coberto de areia. Assim que é colocado o capacete de realidade virtual, a vastidão árida do deserto do Arizona engole o “espectador”, que se vê entre figuras andrajosas e assustadas. De repente, surge um helicóptero e dois jipes e a acção é dominada por agentes fronteiriços, fortemente armados, que prendem toda a gente.

Arte de intervenção

A experiência é vívida, ajudada pela capacidade do software de traçar o posicionamento do “espectador” e o seu campo de visão. Desta forma, os polícias berram na cara do espectador, que não chega a ser um personagem, apesar de estar dentro do filme.

Apesar da forte componente social que tem estado na agenda política, Alejandro Iñárritu considera que é redutor caracterizar “Carne Y Arena” como um manifesto anti-Trump. O realizador, em declarações ao The Art Newspaper, explica que “as pessoas estão completamente dessensibilizadas” para as histórias de desespero dos emigrantes e refugiados.

“Lemos notícias horríveis, quase todos os dias, sobre mais um barco que se afundou no Mediterrâneo, com centenas de pessoas que a bordo, e esquecemos. Este projecto tenta transmitir algo que acho que perdemos a habilidade para sentir”, explica Iñárritu.

A tecnologia transporta o “espectador” para um lugar onde sentir é inevitável, enquanto se vê rodeado de homens, mulheres e crianças aterradas, com cães a ladrar e pânico auditivo debitado pelo capacete de realidade virtual.

“Há um momento em que perdes um pouco a tua identidade e a capacidade para racionalizar o que estás a viver”, conta o realizador ao The Art Newspaper.

“Começas a reagir com o coração, as tuas emoções, sem o cérebro e é isso que me interessa”, acrescenta o realizador. Uma das intenções do projecto é humanizar o desespero dos emigrantes oriundos do México e de outros países da América Latina, a quem Donald Trump chamou de “más pessoas e violadores”.

Apesar de “Arena y Carne” coincidir com a actualidade da política norte-americana, o realizador espera que essa não seja a leitura dos espectadores.

“Tornámos grande um homem tão pequeno, horrendo e embaraçoso”, comenta Iñárritu, acrescentando que começou “a pensar no projecto há quatro anos quando Trump era apenas um palhaço na televisão”. O realizador acha que é necessário olhar para os problemas com profundidade e ver as razões que levam as pessoas a deixarem os seus países.

“Carne y Arena” não é cinema, de acordo com o Iñárritu, mas uma nova forma de arte com capacidade para abalar o mundo. A realidade virtual é um meio com capacidade para aumentar as possibilidades de expressão dos artistas que conseguirem domar a tecnologia que, até agora, tem sido mais usada para videojogos e pornografia.

Nesse aspecto, o realizador considera que o cinema perdeu a capacidade para impressionar audiências. “Há cem anos, era incrivelmente relevante e conseguia abalar as pessoas, mas penso que perdemos a inocência nesse aspecto”, comenta o cineasta ao The Art Newspaper.

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