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Um computador derrotou ontem pela segunda vez o campeão chinês de go, jogo de tabuleiro oriundo da China, num teste à capacidade de intuição da inteligência artificial, que Pequim tem censurado por envolver a Google.

Ke Jie voltou a perder, apesar de o sistema criado pela Google AlphaGo indicar que foi o melhor jogo que qualquer adversário já realizou contra si, segundo Demis Hassabis, fundador da subsidiária que desenvolveu o computador.

Na terça-feira, o Alpha Go tinha já derrotado Ke, um prodígio de 19 anos, no primeiro jogo de uma série de três que decorre em Wuzhen, costa leste da China, parte de um evento que coloca computadores a competir contra os melhores jogadores chineses.

O derradeiro confronto realiza-se no sábado.

Desde há alguns anos que os computadores dominam o xadrez e outros jogos, nas devido à intuição necessária para jogar go, os jogadores esperavam que fosse preciso mais uma década até que os sistemas de inteligência artificial conseguissem disputá-lo.

Em 2015, no entanto, o AlphaGo surpreendeu ao derrotar o campeão europeu. No ano passado, venceu um dos melhores jogadores sul-coreanos.

Apesar de decorrer na China e envolver o campeão chinês, a televisão estatal CCTV e os grandes serviços de transmissão via internet do país, como os gigantes Tencent e Sina, não transmitiram o jogo em directo.

A única plataforma de partilha de vídeos que transmite em directo os confrontos é o Youtube, que está bloqueado na China.

O evento tem tido também pouca cobertura na imprensa estatal.

Segundo informa o jornal South China Morning Post, a imprensa chinesa recebeu ordem para não mencionar a Google ao noticiar o torneio e para referir apenas a DeepMind, a subsidiária da Google, com sede no Reino Unido, que desenvolveu o AlphaGo.

A multinacional norte-americana mantém um diferendo com o Governo chinês desde 2010, quando acusou Pequim de espiar o correio electrónico no Gmail de dissidentes e rejeitou compactuar com a censura do regime.

Desde então, o motor de busca encontra-se bloqueado no país.

A resposta de Pequim ilustra o conflito entre as ambições do Governo em desenvolver a tecnologia do país e em limitar o acesso do público à informação.

O Partido Comunista Chinês encoraja os cibernautas a usar a Internet para negócios e ensino, mas censura conteúdo considerado subversivo.

Fontes oficiais chinesas indicam que o país emprega dois milhões de pessoas na monitorização permanente da rede. Outra medida ‘orwelliana’ inclui a contratação de internautas para fazerem comentários pró-Governo em fóruns ‘online’.

Da perfeição

O sistema AlphaGo considerou ontem que Ke Jie fez um jogo “perfeito” nas primeiras 100 jogadas, afirmou Hassabis em conferência de imprensa.

“Nas primeiras 100 jogadas é o melhor jogo que algumas vez vimos alguém fazer contra a versão mestre do AlphaGo”, disse.

Ke disse que o computador fez jogadas inesperadas.

“Da perspectiva de um ser humano, alargou-se um pouco e eu fiquei surpreendido a certo ponto”, disse.

“Eu também pensei que estava perto de vencer o jogo a meio”, afirmou. “Podia sentir o meu coração a pulsar. Mas talvez por estar demasiado excitado, fiz algo de errado ou jogadas estúpidas. Será esse talvez o ponto mais fraco dos seres humanos”, acrescentou.

Oriundo da China, o go é considerado mais difícil do que o xadrez, devido ao número quase infinito de possíveis posições que as pedras pretas e brancas vão alternadamente ocupando.

O AlphaGo foi projectado para simular a intuição na resolução de problemas complexos.

Funcionários da Google dizem que querem aplicar aquela tecnologia em áreas como assistência para smartphones e na resolução de problemas do mundo real.

Com cerca de 730 milhões de cibernautas, a China tem a mais larga população ‘online’ do mundo.

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