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Os mitos órficos são suficientemente carregados de simbolismo para que se retirem deles ilações e não raro aspectos factuais a um determinado momento da vida colectiva ou individual. Se numas temos a bravura indómita de por amor descer aos Infernos para resgatar o que temos de melhor, noutras tangemos a nossa lira na esperança de não sermos despedaçados pelas feras que tantas vezes se abeiram dos nossos caminhos não raro carregados de mistérios. Por outro lado, é um mito pleno de altruísmo: ajudar os outros mesmo que o próprio seja deficitário ou frágil nessa marcha e com ela as «ménades» que nos dilaceram na jornada. Mas ele dá-nos também aqueles longos planos em que nos debatemos entre andar para o futuro e olhar para trás, em sabermos acreditar numa medida até ela ser cumprida e estarmos fora do espectro e da influência da descrença e da dúvida, que neste mito nos indica o fim do sonho que nos seguia sem vermos. Andar sempre e confiar, o que não sancionará a nossa mortalidade e as grandes coisas que entretanto fomos perdendo como se de sonhos desfeitos se tratassem e no tempo que nos resta também elas ficarem contempladas pelos danos sofridos.

Neste surpreendente mês de Maio, Salvador aparece-nos colectivamente como um arauto deste mito, também messiânico, sem dúvida, na aparição de um «desejado», pois que há nele um grande encantador de feras pela forma requintada de acalmar o turbilhão dos sentidos e os movimentos carnais e carnívoros que se dançam na nossa frente sem que reparemos nessa extrema abundância de fluxo. Ele tem nas mãos o tanger da lira, na voz apenas água, e deixa uma proposta de como o amor é bem mais abrangente que a luta de poderes ou uma qualquer bem orquestrada causa-efeito: se quisermos amor transformemo-nos nele! O turbilhão do mundo pára, a humana tempestade amaina, acalma, e entra por esta fina e estreita melodia que em recitativo se perfaz como que encantada e mais macia, uma graça infinda.

É talvez destes gestos tangentes às liras, desta compostura ritualística que os próprios deuses nasceram e se no « Cântico do Irmão Sol» Francisco tudo anima de íntima harmonia é porque estamos face a uma natureza animista e mística que recobre de sentido ontológico todas as formas de manifestação. Salvador também parece levar uma proposta a esta altura e nas suas vestes negras, olhos grandes e gestos de menino, convida-nos aos lagos onde brotam os arquétipos intocáveis da nossa mais funda memória. Um país transfigurado que se desoculta de uma roupagem grosseira onde confiou uma natureza quase amortalhada que lhe roubou a identidade mítica e a natureza dos sonhos, um local onde ao olhar para trás, só viu morte, e quando desejou seguir em frente se travestiu de caricata roupagem para neste caso agradar às feras. E eis que, numa manhã ou numa noite sebastiânica, o postigo se abre para deixar passar o que somos de essência peregrina: o romeiro, o asceta e o amante.

Orpheu era de uma tribo de marinheiros, os Argonautas, e o seu papel na travessia marítima consistia em desviar os perigos. Era frágil, sem configuração para remador, cantava durante o tempo em que as sereias queriam seduzir os marinheiros, acalmava as tempestades e amainava os mares. Dizem que eram melodias tão suaves que as próprias feras o seguiam e ultrapassava em doçura até as feiticeiras, esconjurando o mal pela sua voz. Foi ele a vela do Argos, o sacerdote ao serviço da missão, e foi a serenidade do canto que o fez líder da jornada, um salvador, um emblema branco e jovem carregado de esperança que em nós se transfigura numa alusão messiânica que por acasos tão súbitos somos levados a reflectir para além da objectividade dos factos.

O orfismo era um exercício de aconselhamento mas não creio que se possa aqui aplicar qualquer concelhia. No entanto, talvez a proposta de um paradigma aparentemente tão novo seja o convite a uma tomada de consciência que está perturbada por tanto ruído que certas vibrações são já impenetráveis. Para esses, sem dúvida que será uma perda irreparável não podendo ser reposta pelo cardápio dos sons, mas os que gostaram e também não sabem porquê, talvez haja aqui alguns elementos de elucidação. Simples, para não perturbar a beleza primeira. Mas nós somos Eurídices, a esta hora alguém já olhou para trás para certificar se existimos, e nesse esclarecimento duvidoso, aos poucos desaparecemos, como convém, aliás, a quem está sujeito a escrutínios, mas nem por isso a um momento nos olhámos como se de novo existíssemos no coração de todos e, mais importante ainda, daquele que nos resgatou por instantes aos Infernos por onde sem que o compreendamos andámos tão laboriosamente mergulhadas.

E porque estamos em Maio e Orpheu era frágil e foi dilacerado, as musas reuniram os seus pedaços e os enterraram, aí, desde então, as aves cantam mais suavemente do que as outras, e ouvem-no ainda sussurrando à sua amada Eurídice: canta pelos dois. Cantou para a encontrar.

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