Obsessão pela transparência

REALIZAR:poesia, 23 Abril

Ontem houve conversa sobre música e poesia com devido apontar de raízes aos gregos, a que se seguiu estroina devidamente acompanhada à viola e sarcasmo pelo irrequieto Manuel João [Vieira] e muito mais do que foi parecendo solto, do que nos vai parecendo fragmento perdido de quotidiano, ganha sentido lendo os clássicos. Por exemplo, a Jessica Augusto acaba de ganhar a maratona de Hamburgo, minutos antes da apresentação desta tradução ágil e elegante do mano António [Caeiro], das «Odes Olímpicas», de Píndaro. A María José Velasco não lhe fica atrás no enquadramento justo e completíssimo, com a ligeireza de uma brisa. A poesia, dizem, resulta de Píndaro e os deuses a percutirem as cordas do tempo. A nós resta-nos saltar. Ou correr. Tornarmo-nos heróis. «Em ocasiões diferentes,/correntes de prazer de canseiras/atingem os homens.»

Logo depois chega-se à frente João Rios, companheiro de íntimas viagens neste festival, para nos puxar ao terra-a-terra de «Os Heróis Transformados em Floreiras» (ed. Douda Correria), em jogo de parada e resposta. «manda o poema/à guerra e às feras/não lhes prometas caldos/e opíparos despojos// se à potência do veneno/sobreviver/força-lo de novo a cair/até perder a mania/de quem guarda o mistério/de um Deus maior».

REALIZAR:poesia, 24 Abril

Neste festival, ideia forte do Isaque [Ferreira], que doou o corpo à ciência, quer dizer, a voz ao verso, a vida à poesia, as mesas viram-se, de facto, em conversas. O fulcro, nesta moderada pela Ana Cristina Leonardo, foi a filosofia. O Fernando Echevarría colocou-se em modo teatral e definitivo, o Fernando Guimarães atirou para a frente as suas lições, a Leonor Barata dançou e o mano António [de Castro Caeiro] iluminou ao deixar claro que a filosofia se faz istmo, itinerário por onde passar quando tudo está contra. Ressoa ainda a sua contra-definição do conceito: filosofia enquanto obsessão pela transparência.

REALIZAR:poesia, 25 Abril

Não encontro melhor maneira de celebrar Abril. Gargalhadas e ideias trocadas ao longo do dia, sobre sol, silêncio e importâncias, tão natural como sombra de respeitável pinheiro na Senhora da Pena. O riacho desagua ao fim da tarde na apresentação do tocante trabalho do André da Loba e da Dulce Cruz interpretando em imagens e livro o disco-concerto inaugural como estas manhãs de «No Precipício Era O Verbo» (projecto que visitará Macau no início de Junho). O livro, sobretudo aqui em Coura, seu primeiro palco, encerra e relança ciclo de múltiplos caminhos, criativos, mas não apenas. Voltaremos ao livro, que apuro destes merece leituras e releituras. Até para sublinhar o que tende a ser esquecido, pois este filho de urgências não estaria aqui sem o esforço do Vasco Malheiro, da Rainho & Neves. Ouvir agora o mano [José] Anjos contar das cronologias, o André [da Loba] expor as suas minuciosas atenções, a vibração do Carlos [Barretto] com os encontros ou os comentários do António [Caeiro] que penduram sempre o banal no panorama de um destino, tudo me grita que o risco compensa. Momento píndaro? O concerto arrepiou-me, inquietou-me, comoveu-me, disse-me. Antes, à laia de primeira parte, algo que só podia acontecer em Coura. Conversa de peito aberto sobre as poesias de cada um, moderada pelo Isaque, com Vitor Paulo Ferreira, o sempre imprevisível e já querido Presidente da Câmara, e Tiago Brandão Rodrigues, Ministro da Educação, que tinha no colo o «Sérgio Godinho e as 40 ilustrações». Após com intensa leitura do «Poema do Menino Jesus», do Caeiro-Pessoa, a propósito de fronteiras dos géneros e dos sotaques, e portanto de territórios, notável foi o ministro ter posto a sala a dizer trava-línguas: o rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia. O logótipo do REALIZAR:poesia, que arrisca tornar-se dos mais interessantes festivais, faz de um serrote o poiso de um pássaro (de António Pinto, na ilustração). Esta conciliação de improváveis traz-me estranho consolo.

Horta Seca, 27 Abril

Talvez seja apenas mais uma história de marinheiros e sereias. Talvez, mas para a Arranha-céus, este «Desenhar em Cima da Conserva» será registo memorável de viagem ímpar, tida e a ter. Por ser o primeiro título em banda desenhada, de qualidade superior e toque surrealista, mas sobretudo por nascer da amizade. Durante um ano, a convite do mano Tiago [Cabral Ferreira], da Conserveira de Lisboa, artistas como Pierre Pratt, Cristina Sampaio ou João Maio Pinto desenharam ao vivo na loja do Mercado da Ribeira, no que se tornou festa mensal. Em paralelo, cada autor contribuía para o cadáver esquisito, reunido agora em volume, e cuja edição especial conterá ainda duas latas das incríveis conservas deste lugar clássico que sabe embalar o mar com mil cuidados. A delirante narrativa, desde o Nuno Saraiva, que a lançou como rede ao mar, ao André Carrilho, que a fechou com gráfica espectacularidade, narra os avanços e recuos, as possibilidades desdobradas de amor impossível e contudo sempre renovado. Nesta história de corpos que se reinventam, alguns detalhes interpelam-me: a passagem do Pedro Lourenço para o Alberto Faria, de homem que grita para baleia que desliza. Conseguirei ainda atravessar a vida com a naturalidade de uma qualquer natureza?

Horta Seca, 30 Abril

Estou com os gatos: uma porta, qualquer que seja, tem na sua matéria, além do alumínio ou da madeira, do ferro ou do papelão, a surpresa. Vencia as duas, de bela e velha madeira, que me separam do lugar de desarrumo onde cultivo estas palavras, quando um estardalhaço de fuga me pôs em guarda. Ainda fui a tempo de ver dois pés a escapulirem-se pelo alçapão. Não consegui marcar emergência nenhuma no telemóvel, limitei-me a trazer a desorientação para a rua. Esqueci mesmo que podia dar-se o caso de haver mais pés. Abriu-se então uma das guardas da galeria e vi o meliante de luvas amarelo gritante a expor-se à janela, tosca instalação, mas vivíssima no esforço de fuga. Terá sido mais a impossibilidade física de abrir para si a janela do que os meus gritos e fúria a afugentarem-no pela mesma escapatória do parceiro. Depois foi polícia e indícios e formalidades. Ficou o estranho cheiro da devassa, deveras organizada em montes de utilidades e putativos valores, que a surpresa da minha rotina impediu que desaparecessem. Escusado será dizer que não iam levar livros.

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María José Martín
María José Martín
10 Mai 2017 17:20

Precioso João Paulo. Obrigada.