Pato sem tomate(s)

Fernando Eloy -
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Opato é amarelo. O pato é grande. O pato não passa despercebido. O pato está ali na água. O pato não está ali na mesa, nem é Pato à Milanesa. Não há como fugir ao pato, se bem que o pato não corra atrás de nós.
O pato é um pato e todos nós sabemos o que é ser pato. Coitados dos patos que não têm culpa de nós acharmos que ser pato é ser parvo, tal como os ursos não têm a culpa que os ursos entre nós pouco tenham a ver com eles, tal como as cabras e os cabrões, os porcos, as lesmas, as preguiças ou os camelos, os burros e os fuinhas não têm culpa da nossa remota incompatibilidade com o reino animal, da nossa tendência de apelidar de bicho tudo aquilo que não gostamos de ser, mesmo que os bichos não sejam aquilo que pensamos serem.
A questão deste pato não é o seu potencial artístico nem as suas qualidades estéticas. O mal deste pato não é se é se não se equivale a Degas, como disse Carlos Marreiros. O mal deste pato nem sequer é a sua evidente falta de penas mas sim a pena que faz a evidência de vivermos numa cidade de patos, ou melhor, numa cidade em que gostam de nos fazer de patos, partindo do princípio que os patos são parvos. Neste sentido, este pato é um grande pato e não é nada parvo.
Se a arte, entre outros méritos, tem a faculdade de obrigar a pensar, a quantidade de tinta que este amarelo pato tem feito correr e a enormidade de electrões
espalhados pelas redes sociais em forma de crítica, sarcasmo, apoio, veneração ou mesmo “selfies”, este pato é um pato de sucesso.
Se a arte, entre outros méritos, tem a faculdade de desnudar questões, de apontar o dedo para a ignomínia, para a insensatez ou até para a cupidez e, seguramente, para a estupidez, este pato é um pato de sucesso.
Ninguém como este singelo cochicho teve ainda o condão de trazer de forma tão vigorosa para a macia opinião pública local a evidência de que os que cá estão não gostam dos que cá estão.
Ou seja, parafraseando José Drummond na sua entrevista esta semana ao HM, “Macau é um embaraço para os artistas” justificando assim a impraticabilidade de aqui se viver como artista em função dos preços de habitação e até da comida, mas o que podia ser feito com os milhões gastos no borrachinha, este pato é um pato fundamental. DonaldDuck
A questão dos milhões leva-nos do mundo animal para o mundo vegetal e até aos proverbiais tomates, ou à falta deles, pois é precisamente isso que este enorme pato revela apesar do seu ar bonacheirão e inocente.
Talvez depois deste pato, os patos que agora o pagaram venham a descobrir os tomates necessários para alimentar o molho dos artistas locais, ganhando coragem para encomendarem coisas extravagantes. Provavelmente não, mas o pato abriu a discussão.
“O mal…” diz o pato sem falar “… é os locais estarem manietados pela incapacidade de olharem de frente aqueles que não apoiam preferindo por isso distribuir migalhas a todos em vez de um pão decente a quem tem os tomates, e a capacidade, para fazer uma salada decente”.
Nesta quase alucinação colectiva em que se tornou a febre das indústrias criativas locais, não há tomates para se perceber que uma cidade de meia dúzia não pode gerar milhares de artistas.
O que este patarrão torna por demais evidente é não faltar dinheiro no burgo apesar da pretensa crise anunciada, tal como esparrama nas fuças de qualquer um como os milhões nele empregues nunca seriam entregues a um artista local que tal ousasse. Como não são entregues a um realizador local com tomates para fazer um filme decente, a um qualquer artista local com a ousadia de pensar grande, a quem quer que seja a pretender fazer obra que leve Macau para o mundo.
A preferência é, ao invés, apostar na produção consistente de merda, e aos quilos, destinada a encher arquivos e estatísticas no delírio de mostrar como os criativos locais são geniais e aos molhos. Em Macau, a ordem é para pensar pequeno, para não dar nas vistas, porque se for para dar espectáculo é melhor importar. Como diz o adágio local, “em tábua com pregos, o saliente deve ser martelado”.
A aposta tem de ser segura porque os tomates são caros e ninguém os tem para arriscar, nem a clarividência (o mais grave) para o perceber. Por isso, talvez utilizando um adágio importado a mensagem passe melhor, fique-se a saber que “quem não arrisca, não petisca”.

Música da Semana

“Come and Buy My Toys” David Bowie (1967)

“You shall own a cambric shirt
You shall work your father’s land
But now you shall play in the market square
Till you’ll be a man
Smiling girls and rosy boys
Come and buy my little toys
Monkeys made of gingerbread
And sugar horses painted red”

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