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*Por Julie O’yang

Este ano comemora-se o 50º aniversário do movimento, formalmente designado por Grande Revolução Cultural Proletária, que teve uma duração de 10 anos.
A Revolução Cultural começou oficialmente em Maio de1966, quando Mao Tsé Tung lançou um ataque contra os seus adversários na liderança do Partido Comunista e promoveu uma vaga de crítica estudantil à classe docente. A década sangrenta e anárquica que se seguiu desacreditou o líder aos olhos de muitos chineses e abriu caminho às reformas económicas levadas a cabo por Deng Xiaoping, após a morte de Mao.
A última revolução do Presidente Mao tornou-se um dos acontecimentos mais controversos na história da China moderna. A campanha política desencadeada a nível nacional, e que incentivava a juventude e a classe trabalhadora a rebelarem-se contra o aparelho de Estado resultou, em finais de 1966 e durante o ano de 1967, em confrontos violentos entre as diversas facções. Para restaurar a ordem Mao convocou o Exército de Libertação do Povo o que deu origem a um período de grande repressão. Muitas das pessoas que apoiaram Mao no início da Revolução Cultural acabaram posteriormente por ser seus mártires.
A Revolução Cultural deixou traumas e feridas profundas. Foi preciso esperar pela década de 80 para que muitas das vítimas pertencentes às elites política e intelectual fossem reabilitadas pelo Partido Comunista e para que decisões dos Tribunais contra cidadãos comuns fossem revistas. No entanto, ainda hoje em dia muitas das pessoas ligadas a antigas facções se sentem discriminadas pelo PCC, o que faz com que seja tabu falar sobre a Revolução Cultural. O Partido evita o assunto e prefere falar sobre a abertura da China, as reformas económicas de Deng Xiaoping, e por aí fora. A censura dificultou desde sempre uma discussão pública e aberta sobre o assunto e o povo, quer por ignorância, no caso dos jovens, quer por apatia, no caso das pessoas de meia idade, evita-o. A crítica pública de matérias sensíveis não é tolerada. No entanto, em privado, as línguas soltam-se com mais facilidade.
Num reality-show, em Novembro do ano passado, um homem grisalho pegou na guitarra e fez ouvir o seu lamento, numa canção em que falava da morte do pai e da dissolução da sua família durante a Revolução Cultural. Yang Le楊樂,conhecido como o Johnny Cash chinês, actuou ao vivo, demonstrando publicamente uma rara expressão de dor por um dos mais trágicos episódios da história recente da China.

A canção de Yang Le, “Desde então” 從那以後 diz o seguinte:
bit.ly/1SvPTB8

Letra:
Quando era criança,
Eramos seis,
Irmãos e irmãs mais velhos, eu era o benjamim.
O pai era belo e valente,
A mãe, jovem e linda.
Trabalhavam honradamente e eram bondosos,
Depois da Revolução Cultural, ficámos apenas cinco.
O pai, vítima de um erro, acabou por morrer.
A mãe não teve alternativa, casou com alguém doutro lugar.
Os meus irmãos espalharam-se por montanhas e vales.
Desde então, a minha família dispersou-se,
Irmãos e irmãs pelos quatro cantos da Terra.
Nos feriados, só podíamos enviar lembranças de longe
Lembranças de longe,
Lembranças de longe,
Muitos anos depois, ao olhar para trás,
Meus irmãos e minhas irmãs, não precisamos de nos consolar,
Todos nos lembramos, o Pai queria que fossemos honestos e amáveis,
Nunca devemos mudar.
Lembramo-nos, a Mãe queria que fossemos fortes
E felizes
Mesmo hoje,
Cantamos a canção preferida dos nossos pais
Fortes e felizes
Amáveis e Honestos
Cantamos a canção preferida dos nossos pais
Bons e Amáveis
Com vidas felizes

É preciso mencionar que Yang Le foi descoberto num programa de televisão apresentado pelo célebre Cui Jian, o Godfather of Chinese rock-n-roll (saiba mais em:on.wsj.com/1WFOF6c), que em 1986 agitou as águas e expressou os sentimentos de toda uma geração com a sua canção icónica Nada Em Meu Nome 一无所有, que pode ser ouvida aqui:
bit.ly/1rl1p6B
(A letra encontra-se no link do youtube)

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