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Ocorpo, o veículo sexual, composto por partes e órgãos com o potencial nervoso para proporcionar dor e prazer, nunca terá sido tão contestado ou discutido como é agora. O corpo que erroneamente objectifica o que somos, apesar de redutor em perspectiva, não deixa de ser o nosso cartão de visita. Por isso, as aparências, por mais superficiais que sejam, continuam a pesar na forma como julgamos e agimos.
Envolvemo-nos com quem achamos simpáticos, divertidos ou amorosos, ao mesmo tempo que os achamos atraentes, bem parecidos ou sexy. E porque estamos cientes dos vectores que levam à atracção e quiçá ao sexo, preocupamo-nos com nós próprios de formas mais ou menos obsessivas. Temos que nos sentir bonitos, temos que perceber o nosso corpo como atraente.
O conceito de imagem corporal e as suas dinâmicas são recorrentemente referidos nos vários veículos de discurso público porque, vivem-se tempos onde existem problemáticas sérias na forma como vemos, sentimos e pensamos o nosso corpo. As doenças como anorexia nervosa ou bulimia poderão ser consequências graves para quem tem uma imagem corporal negativa. Estas são as condições extremas que merecem a atenção de especialistas, mas num grande espectro de gravidade menor, onde a imagem corporal negativa continua a trazer problemas, vivem-se os dramas do desfasamento daquilo que somos, aquilo que achamos ser e aquilo que queremos ser.
Vivem-se tempos onde somos bombardeados por imagens de magreza extrema e exagerada de uma minoria populacional, quando ao mesmo tempo se luta contra a epidemia da má alimentação e obesidade. Vivem-se tempos onde ter rugas é pouco natural e ter pêlos nos sovacos sinal de pouca higiene. Vivem-se tempos de uma expectativa de beleza demasiado rígida e transversal a toda a população, quando no mundo pós-moderno nos definimos pela diversidade. Vivem-se tempos onde nos podemos fotografar e publicar para todos verem e, assim, receber os elogios que precisamos (que a nossa auto-estima precisa) e esperar que ninguém (na necessidade de melhorar a sua) nos ofenda, ou que gozem sem dó nem piedade, pela ‘imperfeição’ percebida. Vivem-se tempos onde há desafios públicos para provar a nossa magreza ou abundância de peito. Nas redes sociais chinesas, mulheres têm-se fotografado com uma folha de papel à frente para provarem que a sua cintura é mais estreita que a largura de um A4, antes disso, propunham-se a fotografar com uma caneta por baixo da mama, porque só quem possuía peitos generosos poderia aguentar a caneta assim mesmo – sem qualquer outra ajuda. Vivem-se tempos onde a imagem das mulheres (e suponho que dos homens também) são digitalmente alteradas para parecerem alguém, tão perfeitinho, que não existe. Vivem-se tempos onde os homens não estão livres de pressões de beleza e que ainda não estão à vontade para falarem sobre isso. Vivem-se tempos onde somos influenciados por um sistema que incentiva e perpetua todas estas percepções e padrões de comportamento. Vivem-se tempos onde existe uma pressão absurda de beleza sobre todos nós, os comuns mortais, que lutam contra (por vezes inevitáveis) lavagens cerebrais.
Não é preciso ser um génio para rapidamente perceber que uma imagem corporal negativa traz consequências ao bem-estar físico e emocional. Esta percepção negativa de nós próprios traz desconforto e estranheza, olhar-se ao espelho torna-se uma tortura e estar socialmente com as outras pessoas será como exercitar meta-meta-cognição em loop ao constantemente reflectir: ‘será que estou/sou atraente?’. A ansiedade será controlada com actos ritualizados de constantes idas à balança, contagem de calorias diárias, planear começo de dietas quase todas as segundas-feiras (dietas absurdas sem hidratos de carbono ou gordura).
A dificuldade será saber como parar estas dinâmicas, as forças sociais que controlam a nossa ligeira obsessão pelo irreal físico. Para que não nos rotulem de vítimas de um sistema, como podemos, afinal, travar o culto exagerado do copo?

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