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Ferreira, Virgílio, Mudança, Quetzal, Lisboa, 2009
Descritores: Romance, Rotura, Suicídio, 263 p.:21 cm, ISBN: 9789725647745

Vergílio Ferreira nasceu na aldeia de Melo, no Distrito da Guarda a 28 de janeiro de 1916 e faleceu em Lisboa no dia 1 de Março de 1996. Formou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em Filologia Românica. Em 1942 começou a sua carreira como professor de Português, Latim e Grego. Em 1953 publicou a sua primeira colecção de contos, “A Face Sangrenta”. Em 1959 publicou a “Aparição”, livro com o qual ganhou o Prémio “Camilo Castelo Branco” da Sociedade Portuguesa de Escritores. Em 1984, foi eleito sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. As suas obras vão do neo-realismo ao existencialismo. Considera-se geralmente que o romance Mudança assinala justamente a mudança de uma fase para outra. Na fase final da sua carreira pode-se dizer que Vergílio Ferreira tocou as fronteiras de um puro niilismo. Em 1992 foi eleito para a Academia das Ciências de Lisboa e além disso, recebeu o Prémio Camões, no mesmo ano.
Obras principais: Mudança (1949), Manhã Submersa (1954), Aparição (1959), Para Sempre (1983), Até ao Fim (1987), Em Nome da Terra (1990) e Na tua Face (1993).  O autor faleceu em 1996, em Lisboa. Deixou uma obra incompleta, Cartas a Sandra, que foi publicada após a sua morte. A partir de 1980 e até 1994 foram sendo publicados os seus diários, com a designação de Conta Corrente. Deve ainda salientar-se a publicação do conjunto de ensaios intitulado O Espaço do Invisível entre 1965 e 1987.

O tempo e a estética

Será Mudança o romance de Vergílio Ferreira que assinala a mudança de campo, do Neo-realismo para o Existencialismo.
Mudança poderia muito bem ser até para tornar o título mais emblemático. Mas seria muito prematuro, pois é de 1949. Para mim, de facto, nem é nada prematuro. Vergílio Ferreira apresenta sinais da sua voz, a voz que triunfou, desde muito cedo, eu diria desde sempre, e a verdade é que se sente que em Mudança, alguma coisa muda ou começa a mudar. O romance foi escrito para ser exemplar do ponto de vista da estética dominante, mas a voz do autor, tudo leva a crer, começava a impor-se ao próprio autor. Seria muito interessante elaborar uma odisseia das vozes nas vozes de todos os autores. Tentar descobrir o que é na elaboração de uma obra é da ordem do inconsciente em luta contra as disposições intencionais e programáticas da vontade. No caso de Vergílio Ferreira, sabe-se, é o tempo, o modo como é tratada essa variável determinante e a memória da infância os vectores através dos quais se começam a minar os alicerces neo-realistas. Com o tempo aparecerão nas suas obras progressivamente a náusea, a angústia e o absurdo.
Carlos, o personagem principal, oriundo de uma família desafogada e ele mesmo advogado, casa com uma jovem muito simples e muito prática, que é justamente aquilo que ele não é. Após a falência dos negócios do pai irá desencadear-se uma turbulência existencial que contudo começará por uma crise de marasmo e indolência. É a partir daqui que a vida de Carlos irá mudar radicalmente promovida por um regresso ao interior de si mesmo e à consciência culpabilizadora. O suicídio desenha-se num horizonte não muito distante.

A Questão do Estilo

Uma questão que atravessa, como já insinuei e aludi, a recepção da obra de Vergílio Ferreira é o tema da fidelidade estética. Mas se havia pouca paciência para ouvir os arautos das manhãs que cantam em plenos anos cinquenta e sessenta, imagine-se agora. As críticas estéticas rapidamente se tornavam ideológicas, naquela época, e portanto libelos contra a liberdade e a consciência e verdadeiros processos de intenções. Qualquer intelectual ou artista que não seguisse escrupulosamente as regras da cartilha dominante mergulhava imediatamente numa espécie de índex, agravado pelo facto de que esse índex continha censura não apenas política mas sobretudo ética e moral, pois para que o ostracismo fosse verosímil e justificável, impunha-se que ele fosse também uma condenação ao nível da consciência. Isso favoreceu uma ampla literatura a montante onde se inventariavam as taras sociais e mentais que favoreciam a traição.
Só o marxismo era considerado um método científico e só o proletariado era considerado uma classe revolucionária e digna. A suspeita era portanto sempre lançada a priori sobre as bases pouco científicas do pensamento quando se tratava da cultura das ciências sociais e sobre o estatuto de classe quando se tratava da arte. Mas esta última análise não se aguentava por si e era reforçada por uma análise mais psicológica do que económica ou sociológica. Era aí que entravam os conceitos de pequena burguesia, tão na moda, assim como de má consciência e de superioridade moral.
Vergílio Ferreira esteve debaixo de fogo como estiveram muitos outros submetidos à lupa ideológica, porém travestida de ortodoxia científica. Não vou aqui deter-me na ingente questão da oposição estrutural entre ciência e ideologia desenvolvida de forma contrastiva por Althusser e Ricoeur, na mesma época e com uma larga história onde pesa sobretudo a obra de Karl Manhein. Diria apenas por agora que o clímax da ideologia reside no facto de ela se pretender uma ciência. Quando um pensamento que não pode ser senão ideológico se procura legitimar através da caução científica, pode-se dizer que esse pensamento atingiu o máximo estatuto ideológico que uma ideologia pode almejar. A ciência não aparece aqui como ciência mas apenas como má fé, ou seja de facto, agora sim, como má consciência.
Esta pequena digressão serve apenas para dizer que não me interessa nada se a obra de Vergílio Ferreira evoluiu ou involuiu do neo-realismo para o existencialismo e, sobretudo a ser verdade essa trajectória, que também não me interessa saber em que momento a rotura deve ser assinalada. A maior prova da sua redundância e pouca seriedade reside no facto de que se referem várias obras para ser a charneira desse processo. Para uns o romance que assinala a transição, ou seja a traição, o desvio, etc. é Aparição, mas para outros é justamente Mudança e para alguns Manhã Submersa, e para outros ainda … e podia continuar. Depois há que considerar que o autor começa a desviar-se em romances que apesar de serem publicados depois começaram a ser escritos antes de Aparição, que é de 1969. Estou a referir-me ao Apelo da Noite e ao Cântico Final.
Enfim, isso de facto interessa pouco, o que interessa mesmo é ler Vergílio Ferreira e começar a lê-lo com Mudança, não me parece nada mal. Deixem que vos diga uma coisa: do que eu gosto mesmo, e muito, em Vergílio Ferreira é da tetralogia final da sua obra, ou seja dos romances Para Sempre, Até ao Fim, Em Nome da Terra e Na Tua Face. Mas ler os anteriores será muito bom, uma vez que ainda ficaremos a apreciar mais o autor, a sua capacidade de superação permanente, até à morte.

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