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Depois dos WikiLeaks e das revelações de Edward Snowden, o Madaleno arrependido dos esbirros da CIA, eis mais um fartote de “revelações explosivas”: os papéis do Panamá. E do que se trata? Mais de dez milhões de documentos oficiais que ninguém quer ler por serem uma “seca”, mas toda a gente quer saber os detalhes mais sórdidos e indiscretos – só alguns, vá lá, e mesmo muito condensados ao essencial, que no fundo é apenas no sentido de se confirmar algo que já há muito se suspeitava: “é tudo uma cambada/corja/súcia/máfia”; “só se querem é encher, e o povo à míngua”; “onde é que isto tudo vai parar, meu Deus”; ou “vem agora Jesus, que está na hora de acabar com o mundo”. Pensando bem, “dá menos chatice do que marcar uma consulta no psiquiatra” – pensam as pessoas que têm por hábito atirar com estas “farpas” sem fazerem a mínima ideia do que falam. E isto serve para tudo o mais que dizem sobre seja qual assunto for.
Antes de mais nada, queria felicitar (ou manifestar o pesar, conforme a perspectiva) o povo do Panamá por voltar a ter o nome do seu país nas bocas do mundo. Quem é da minha idade ou mais velho, e não abusou dos inebriantes e demais atordoantes e anestesiantes, recorda-se com toda a certeza do General Manuel Noriega, um déspota que liderou o este pequeno mas simpático estado situado entre a Colômbia e a Costa Rica, e cuja aparência fez dele um “poster boy” dos efeitos do acne juvenil na idade adulta. Depois de seis anos no papel de “generalíssimo”, “el comandante”, “jefe” e “lo tamale mas picante”, não dispensou uma das “saídas de cena em grande estilo” destinadas a líderes do seu calibre. Uma vez que a opção “julgamento sumário de legitimidade duvidosa seguido inevitavelmente de fuzilamento” não lhe agradava por aí além (ali faz muito calor para se andar a levar com tiros), preferiu a ementa “B”, composta de “ligações ao narcotráfico/redes criminosas/CIA/todas as anteriores, que uma vez provadas dão direito a uma longa temporada à sombra”, que no caso dele foram (e ainda vão sendo) trinta anos. Hasta lá vista, muchacho.
De resto, o Panamá liga geograficamente os sub-continentes da América do Sul e Central, cumprindo ainda a nobre (ou desprezível, mais uma vez conforme os gostos) função de escoar bens daqueles mais difíceis de encontrar ao lado da caixa do mini-mercado perto de casa, e já não era notícia desde que os americanos lhes devolveram o controlo das operações do estrategicamente importante Canal do Panamá. Esta agora, só por ser Panamá quer dizer que só o Panamá é que manda ali? Qualquer dia ainda têm que deixar a base das Lajes, sob esse discutível pretexto de estar localizada na área de jurisdição de um outro estado soberano – muito conhecido e popular entre nós, aliás. Assim como é que dá para policiar o mundo, bolas?
E por falar em “policiar” e demais actividades que implicam autoridade, esta revelação vem cair que nem uma bomba em quem ainda acreditava na rectidão, honestidade da classe política mundial – todos os quatro ou cinco deles, e eu não apostava uma pataca na salubridade mental destes indivíduos. Vamos lá deixar de ser anjinhos e vejam antes as coisas deste prisma: se vocês fossem polícias no México, Filipinas ou um desses lugares mais “calientes” onde dia após dia se arriscam a levar um tiro, e em nome da populaça que ainda por cima vos chama nomes e faz cara feia quando passam, em troca de meia dúzia de tostões? Ainda iam ficar do lado da lei e da grei, da integridade, da transparência e todas essas valências que mais parecem cadeiras do curso superior de “Pateta e Parvinho”? Abstenho-me de terminar este parágrafo com uma palavra feia.
Já os políticos, pronto, é o que se sabe, e ao contrário dos polícias não é da sua natureza andar a meter-se em esquemas com elementos marginais da sociedade, ou partir o farol de trás a um tótó qualquer só para lhes sacar uns cobres, nada disso. Os políticos, gente supostamente educada, a elite, os reis da bazófia e do “tá bem tá, vai enganar outro”, mas acabam sempre por enganar o mesmo, preferem actividades mais próximas das ciências económicas, coisa que faz a plebe coçar o piolhinho de ignorância, ou ainda “fuga ao fisco”, que soa a algo muito giro, como o jogo da apanhada, mas é praticado por “gente séria”. E pensando bem, se eles são “eleitos”, colocando-se assim portanto acima dos comuns dos mortais, porque haviam eles de pagar impostos que depois servem para construir estradas, pontes e pagar serviços de utilidade pública, se eles é que deviam estar a ser bem servidos? E para quê, as tais estradas e etecetera, se deviam estar a ser levados em ombros, como prova do nosso reconhecimento pela graça de nos terem presenciado com a sua vinda à terra?
E tudo se resume a um pressuposto muito simples, que deixo aqui na forma de uma pergunta muito simples e nada, mas mesmo nada tendenciosa. E o leitor, gostava de se “abotoar” em grande estilo àquela fatia que cortam do que lhe é merecido, uma vez que foi produto do seu esforço, ou pagar e calar, e continuar a viver como uma borrabotas entre outros borrabotas, e borrabotas morrer e só com direito a um epitáfio na lápide onde se lê “aqui jaz um borrabotas qualquer”? À consideração de V. Exas. Para a semana falarei das Ilhas Virgens Britânicas, que não têm nada, mas mesmo nadinha a ver com Macau. Então, que disparate é esse, querem lá ver…

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