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Oúltimo fim-de-semana marcou um retrocesso civilizacional em Portugal, com mais um acto de censura por parte da Igreja Católica, e a conivência do seu rebanho, que se diz “indignado”. Tudo por causa de um cartaz do Bloco de Esquerda, destinado a assinalar a aprovação no último dia 10 de Fevereiro da lei que permite a adopção por casais do mesmo sexo, um dos grandes cavalos de batalha do lobby “gay”, que com o pretexto da igualdade queria ver todos a usufruir dos mesmos direitos, sem distinção entre famílias convencionais e alternativas (é difícil escrever em linguagem de “igualdade”). No cartaz em causa aparecia uma imagem de Jesus Cristo do Sagrado Coração, e ao seu lado uma mensagem onde se lia “Jesus também tinha dois pais”, e em baixo em letras mais pequenas uma menção à lei aprovada, acompanhada da data. Só isto e mais nada.
Confesso que sorri quando vi pela primeira vez o cartaz, não por maldade, e muito menos por o achar engraçado. A verdade é que não sei porque é que esgalhei aquele sorriso quase espontâneo, mas pode ter sido por instinto, feliz pelo país ter atingido um patamar do progresso em que coisas como estas já não deixam ninguém chocado, e que incidentes dignos do Index da Santa Inquisição, como a censura de uma obra daquele que viria a ser até agora o único Nobel português, ou a perseguição a um humorista por causa de uma rábula com a última Ceia, eram tudo coisas do passado. Infelizmente enganei-me, e quem quiser começar a contar a partir de sábado passado a última vez que algo de tão retrógrado aconteceu, não perca tempo, pois parece que não se aprendeu nada.
Os católicos ficaram ofendidos, sim senhor, e vejam lá que até encaminharam para a Procuradoria Geral uma queixa com três mil assinaturas, acusando o Bloco de “blasfémia”, uma figura que em pleno século XXI consta do Código Penal. Compreendo que conste, aceita-se, mas o que se entende por “blasfémia”, que só consigo visualizar dita por um padre de olhos muito abertos segurando uma Bíblia na mão e acenando um crucifixo na outra urrando “blasfééémia … esconjuuurooo!”? Uma imagem que por incrível que pareça ainda faz sentido. A imagem não estava adulterada, mas mesmo assim houve quem alegasse que “as cores estavam mudadas” – algum fotófobo cristão com toda a certeza – e a mensagem era “sugestiva”, pois associava Jesus à adopção por casais do mesmo sexo. Deve ser aí que está a tal “blasfémia”, afinal. “Que nojo, casais do mesmo sexo”, terão eles pensado.
Para não desviar as atenções do essencial, vou-me abster de mencionar o registo da Igreja com tudo o que tenha a ver com crianças, orfanatos e afins. Seria rebaixar-me ao nível de quem condenou e enxovalhou pessoas com base na sua orientação sexual, tentou a todo o custo privá-las dos mesmos direitos CIVIS, e ainda conseguiu que a tal lei fosse vetada uma vez, prolongado assim a angústia de quem tem a consciência de que isto partia de uma instituição que tem um historial de séculos de perseguições, tortura e execuções contra todos os que eram apenas diferentes.
Gostava de saber se estes cristãos que se dizem ofendidos vão à missa, comungam e confessam os seus pecados, como qualquer bom cristão com moral para acusar alguém de blasfémia. Não? É exagero meu? Então certamente que se partilharem a sua vida com mais alguém (do sexo oposto, lógico) são casados, caso contrário vivem em “fornicação”. Não? A Igreja diz que sim, e no caso de virem a terem filhos, a lei civil dotou as crianças do mesmo estatuto de todas as outras que também não pediram para nascer. Para a Igreja continuam a ser “bastardos”. Não é um insulto, não, é mesmo isso que lhes chamam.
O Bloco de Esquerda recuou na intenção de publicar o cartaz. Fez mal, e de ter ficado perto de fazer História, passou ao anedotário nacional, com as beatas de braço cruzado a bater com o pé e carantonhas medonhas a ralhar “vejam lá, ai que temos o caldo entornado”, em mais um postal muito nacional. O fundador do PS, Alberto Barros, veio defender a iniciativa, alegando ainda que “a blasfémia está na Bíblia”. De facto o cartaz não diz nenhuma mentira – tecnicamente, lá está. Eu entendi a ideia, agora quem vê naquilo algo de pérfido, ou a sugestão de que um dos três elementos ali mencionados tem alguma coisa a ver com a adopção por casais “gay”, tem uma imaginação fértil. E doentia.
A discussão que veio depois, quer nas redes sociais, quer em artigos de opinião, mais pareciam o concurso “quem é o mais engraçadinho”, com a temática centrada em “quantos pais tem afinal Jesus”, e qual deles era o quê, um sem fim de inanidades que nem parecem vindas de gente que diz ter “fé”, algo que deve e merece ser respeitado, pois apesar de não carecer de fundamentação científica, é do desígnio de cada um – e o que tenho eu a ver com isso? Pior foi ler comentários do género “sou agnóstico, mas…”, mas nada, e se é agnóstico não tem nada que partilhar de uma indignação de que se desmarcou à partida. Outros ainda sugeriram “que se fizesse o mesmo com Maomé”, que como se sabe, diz-nos muito a nós, e anda sempre na nossa mente e nos nossos corações, e “iam ver o que acontecia”. Estes devem ser os mesmos que ainda há um ano “eram Charlie”. Sabem o que mais? Na altura achei aquilo uma bacoquice saloia, de um pedantismo gritante. Hoje vejo que tinha razão.
No fim, e depois de mais uma decepção, chego à conclusão que ainda estamos muito atrás do que seria o ideal nesse princípio da separação entre a Igreja e o Estado, quando uma imagem inocente com aquela ainda fere sensibilidades a este ponto. Eu pessoalmente considero muito pior aquela em que Jesus aparece pregado, ensanguentado, com uma coroa de espinhos e um ar de quem se não está a divertir mesmo nada, mas esta é uma imagem “adorada” pelos mesmos católicos que se ofenderam com a outra. Se calhar era mais justo se perguntássemos a Jesus o que preferia: se ter dois pais, ou ser torturado em nome de quem insiste em não lhe atribuir qualidades humanas. E eles e a outros, para o bem e para o mal.

4 COMENTÁRIOS

  1. Sr. Leocardo
    Parece-me que há uns anos escrevia com mais serenidade e intelectualidade que eu gostava de ler. Infelizmente está mais básico de pensamento e de argumentação. Perdeu um leitor!
    Reparo também que ultimamente tem escrito muito sobre a igreja e as religiões, que não conhecendo por dentro e não partilhando a crença, dá-se à baixa critica constante e à zombaria da religião e dos seus crentes. Isso não é de pessoa intelectual que parecia ser. Pode ter muitos conhecimentos mas falta-lhe lucidez. Decepcionou-me!

  2. Ah sim, o leitor Antonio, conheço muito bem, que por acaso são todos os meus leitores, como se eu me ralasse se o “perdi” – e não acredito, quanto muito aumentará a sabujice. Vê-se logo que é um “leitor” assíduo e que “tenho falado muito da Igreja”. Pois.

    Gostava de poder levar o seu comentário a sério, mas não há ali um único argumento por onde pegar. Lá haver há, portanto, “não estou por dentro nem partilho a crença”. Tudo verdade, e ainda bem que é assim. Estou “por fora”, assim como estava o cartaz do BE, e veio a Igreja sair “de dentro”, e intrometer-se “no fora” que era do cartaz e ainda é meu. E se um cartaz não replica e o partido que o idealizou sente-se comprometido por pessoas como o senhor, de mim já sabem que não levam nada. Não zombei da religião nem dos crentes, e é engraçado como deixa de fora os únicos responsáveis por esta farsa e alvos da minha crítica. Infelizmente aqui as pessoas sensatas chegaram tarde demais: já se tinha realizado o concurso da melhor composição para “malhar” no cartaz, que parecendo que fica “bem”, terá feito com que a esta hora muito boa gente tivesse dado uma palmada na própria testa e exclamado: “epá, o que é que eu fui fazer”?

    E o “Antonio” pode não ter reparado nisso, mas quando olho de frente para o todo do seu texto vazio de outra coisa senão relho, reparo na contradição em termos que faz constantemente, com “serenidade e intelectualidade”, seguido de “básico de pensamento e argumentação” (ah, a ironia…), e no fim que “parecia pessoa intelectual”, mas “tendo muitos conhecimentos”, “falta-me lucidez”. Um monumento à ironia, e num estilo que reconheço de outras cavalarias, mas prefiro ficar por aqui, e “Antonio” fica bem a ninguém que escreveu um belo nada. Nem sei como deu para escrever tanto.

    Cumprimentos.

  3. Sr. “Leocardo”.
    Talvez não me tenha feito entender mas a sua resposta não foi melhor. Não interessa. Mas não vá por aí. A facilidade com que escreve deve ser usada de forma superior. Proponho-lhe que releia as suas crónicas de há 3 a 5 anos por exemplo, e compare com as do último ano. Nota-se uma crítica gratuita e soes a tudo e a todos nestas últimas de que “não havia necessidade.”
    Cumprimentos

  4. “Entendo de um profundo mau gosto e revelador de bastante desrespeito por quem pensa de forma diferente, os cartazes com que o BE resolveu pulverizar o país, usando como símbolo uma pirosíssima imagem de Jesus, com uma frase na qual se afirma que Ele tem dois pais.
    Uma coisa é defender ideias que se considera estarem certas. Outra coisa é defendê-las exorbitando os limites, para ofender aqueles para quem Jesus representa algo de muito sério. Eu inclino-me para que estejam a faltar ao Bloco as causas que lhes davam alma. Agora, como situacionistas que são, começam a não ter temas fracturantes e portanto a perder a graça. Estão, de facto, a envelhecer!” (Helena Sacadura Cabral).
    Viva o Benfica!

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