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Percebo que a vida do Secretário Raimundo do Rosário não deve ser um mar de rosas. Percebo quão frustrante deve ser responder às perguntas idiotas de muitos deputados, conselheiros e afins e reagir a propostas descabidas umas atrás das outras. Percebo quão difícil deverá ser trocar uma vida na Europa por um inferno de terrenos, gente sem visão, guerras figadais, interesses feudais e gente com a mania de andar de carro para fazer meia dúzia de quilómetros. Percebo até que nas conversas com os seus botões se interrogue sobre o que lhe passou pela cabeça quando decidiu aceitar o lugar mas não percebo respostas do género “não sei” quando, como foi caso, o interpelaram sobre a questão da reciclagem. Especialmente depois de viver 15 anos em Portugal onde, pode-se dizer, as campanhas de reciclagem foram um sucesso. Sim, nem tudo dá barraca no país da ponta. Hoje, segundo dados divulgados este mês pela Sociedade Ponto Verde, 50 milhões de euros depois e passados 20 anos, cerca de 70% dos portugueses sabem o que é reciclagem. De acordo com o director geral da organização, Luís Veiga Martins, em 2000, “o termo ‘reciclagem’ ainda era desconhecido para a esmagadora maioria da população portuguesa e três anos mais tarde apenas 38% das pessoas faziam a recolha selectiva das embalagens usadas, percentagem que disparou para 60% em 2007 e para 71% em 2015”. Qual foi o truque em Portugal? Campanhas de sensibilização. Campanhas bem feitas e pontos de recolha em todo o lado onde existem caixotes de lixo, objectos visíveis, coloridos, chamativos e não as pré-históricas latas que o Secretário conhece e, justiça seja feita, utiliza. Como ele disse, não sabe como convencer as pessoas, mas isso não tem mal nenhum; mas deve, isso sim, saber o que tem de ser feito: publicidade, campanhas e, para isso, existem empresas especializadas. Para a nova geração de portugueses o que se segue pode não significar nada, mas para quem nasceu nos anos 60 como eu, a imagem de gente a atirar sacos de lixo pelas janelas para os baldios das traseiras, de pilhas de sacos de lixo amontoados nas esquinas e ruas imundas eram imagens frequentes, diárias, até muito perto dos anos 90. O Portugal limpinho e reciclado de hoje não tem nada a ver com o Portugal de há bem pouco tempo, pelo que se até nós aprendemos a reciclar e a limpar, qual será a dificuldade de educar meio milhão numa cidade de meio metro? Mas é óbvio que um Secretário não tem a obrigação de saber fazer campanhas mas tem a obrigação de saber o que as deve fazer. Não saber o que acontece ao lixo depois de ser escolhido é que já é mais grave. Como não sabe? Eu sei que o departamento que dirige deve estar assoberbado de trabalho, também sei que a Direcção dos Serviços de Protecção Ambiente é como se não existisse, ao ponto de não percebermos bem o significado da parte “Protecção” da designação ou não andávamos todos a respirar mal e com índices de qualidade do ar consistentemente piores que Central em Hong Kong e, frequentemente, pior do que Cantão ou Foshan. Também sei que as campanhas, quase invisíveis, da DSPA parecem mais destinadas à pré-primária do que a pessoas com dois dedos de testa, mas não se pode esperar respostas deste género de um Secretário a menos que a permanência em Macau já o tenha obrigado a ajustar-se ao nível local para não parecer deslocado.
Disse ainda o Dr. Raimundo, ou a imprensa assim o escreve, que “anda atrás” da DSPA. Como atrás, senhor Secretário? Tem é de andar em cima deles, tem de os pôr a trabalhar e fazê-los perceber que já estamos no século XXI e não nos anos 80. Quero, por isso, acreditar que as respostas de Raimundo do Rosário foram apenas um desabafo de fim de dia, uma forma menos agressiva de mandar os deputados à fava (muitos bem que precisavam de um passeio pelo faval) ou o resultado de quem já não pode ouvir mais cretinices como a da deputada que pretende uma lei para obrigar as pessoas a reciclar. Claro que ninguém é de ferro e a lucidez em condições como as que ele tem de aguentar falha, mas o Secretário não foi propriamente apanhado com questões ao virar da esquina e sabia ao que ia. Se não tinha as respostas é porque não tem assessores de categoria que o protegessem de ir nu para a praça, o que me leva a crer que qualquer plano de reciclagem que venha a ser encetado tem de ir muito para além dos resíduos.

MÚSICA DA SEMANA
David Bowie – “Absolute Begginers”

“I’ve nothing much to offer
There’s nothing much to take
I’m an absolute beginner
But I’m absolutely sane
As long as we’re together
The rest can go to hell
I absolutely love you
But we’re absolute beginners
With eyes completely open
But nervous all the same”

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