Memórias de Alecrim

Alecrim não era um amigo íntimo, nem um amigo, longe disso. Terei trocado meia dúzia de frases com ele nesta década e meia que levo de Macau. Mas era impossível viver aqui todo este tempo e não saber quem era o Alecrim.
As suas histórias esvoaçaram sempre de ouvido em ouvido, exportadas de boca em boca, com a mesma ligeireza e alegria com que ele as contaria. Das mais libidinosas às mais heróicas, as histórias do Alecrim ecoam imagens de um passado que nos permitem ver para além deste mar de vidro e luz em que navegamos, sentar-nos nos recantos mais esquecidos da cidade, onde todos os passados ainda são possíveis, e tentar compreendê-la, senti-la, ficar mais próximo, desta urbe milenar que a tantos parece tão pouca coisa.
Alecrim era embaixador de um tempo (o passado parece sempre romântico porque, no fundo, a nossa dificuldade de relação é com o presente – o passado era bom e o futuro vai ser uma maravilha), uma verdadeira janela para um passado que nos permite ver esta cidade para além da mera percepção, esta terra que tanto acolhe como repela.
Alecrim era daquelas personagens maiores do que a vida, motivo de inspiração para qualquer romancista que se preze, como o era, também e por exemplo, o Padre Manuel Teixeira que ainda consegui ver no seu calcorrear diário da ponte Nobre de Carvalho.
São personagens com história e com histórias. Personagens que quando calhamos estar no mesmo espaço do que elas sabemos estar na presença de alguém fora do normal. São personagens como estas que encarnam a verdadeira dimensão desta terra que vai muito para além dos seus 28 kms, ou 29, ou 30, ou…
Alecrim era um símbolo de uma geração que viu o mundo transformar-se de uma forma inaudita. Da independência de Goa à invenção do iPhone 6, para ser mais prático. Os nossos filhos, seguramente, verão transformações superiores em menor espaço de tempo, mas o mundo de Alecrim não fica a dever ao deles em nada.
Para além de ofuscar as luzes, o Alecrim permitia-nos ver, e perceber, porque tantos estrangeiros escolheram Macau como casa ou abrigo de longa duração. “Porque às Costas do Sul da China arribam apenas loucos e aventureiros?”, interrogava-se um historiador chinês num qualquer livro que li algures. Alecrim caberia, provavelmente, na definição daquele historiador, como muitos de nós que para aqui andamos, imagino.
Alecrim era ainda um símbolo desses que, demandados para além de São Vicente, não mais voltaram encontrando “casa” num local tão improvável como Macau, sugerindo-nos interrogações muito pessoais sobre esse deixar, sobre esse permanecer.
Alecrim dedicou a vida a Macau, provavelmente porque a colecção de memórias que aqui congregou terá sido tão incomensurável que não mais poderiam ser deixadas. As memórias são a última energia que nos restará quando nada mais houver que nos sustenha. Fazer memórias é, por isso, mais do que uma necessidade, uma obrigação para connosco próprios se ambicionamos a uma velhice decente. Alecrim é um excelente lembrete dessa necessidade.
Porque se a memória de Alecrim é indissociável das suas memórias, a sua debanda deste mundo é uma oportunidade para reflectirmos na nossa própria fábrica de memórias e perceber se está a funcionar em pleno, se estamos de facto a extrair o máximo desta nossa vivência por estas bandas (que a nossa cultura crê exóticas) tal como Alecrim o fez.
Não desejo paz eterna ao Alecrim mas sim vivacidade eterna. Como desejo para mim, e para si caro(a) leitor(a).

Música da Semana

“Saviour Machine” (David Bowie, 1970)
“I need you flying, and I’ll show that dying
Is living beyond reason, sacred dimension of time
I perceive every sign, I can steal every mind”

6 Out 2016

Campeões Europeus da terra queimada

Falava eu com a família em Portugal quando sou questionado sobre a minha opinião do andar da carruagem lusitana. A primeira resposta que me ocorreu foi um “não sei, nem me interessa” porque cada vez mais é isso que sinto. Por várias razões, mas depois resolvi alongar resposta com o exemplo dos incêndios, com o absolutamente insuportável “espectáculo” quotidiano de mata a arder com que somos bombardeados Verão após Verão, com o desespero de perceber que apesar dos discursos inflamados que se vão fazendo no auge e nos rescaldos a verdade é que nada muda. Antes pelo contrário.
Estava aí a minha resposta sobre o que acho de Portugal. Uma cambada de inúteis armados em importantes, que falam muito mas pouco fazem. Um país de labregos que dá mais valor ao cromado de uma taça da bola do que ao verde que os ajuda a respirar.
Quando um país não consegue descobrir uma forma sequer de proteger um dos seus bens essenciais como é a floresta que mais há a dizer sobre as suas capacidades? Que mais existe para discorrer sobre o andar da dita carruagem? Muito pouco ou nada. Dez milhões, somos apenas 10 milhões e ninguém se entende, ninguém consegue descobrir uma forma de gerir o país sem andar tudo à cabeçada e dar passos de caranguejo.
Para quem olha o país a o partir do rectângulo parece muita gente mas quando se contempla de fora para dentro apercebemo-nos que esses 10 milhões não são mais do que meia dúzia a jogarem à sueca. Tomara o presidente da Câmara de Cantão ter apenas 10 milhões para cuidar… É triste, penoso e absurdo.
No caso dos incêndios, segundo os últimos dados disponíveis, apenas este ano, e até ao dia 15 de Agosto, já tinha ardido uma área três vezes superior à média dos últimos 10 anos!
Segundo um relatório provisório do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas foram 103.137 os hectares de mata que foram ao ar!!
De acordo com os dados disponibilizados pelo Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais (EFFIS na sigla em inglês) “em Portugal, já arderam cerca de 53,4% da área total ardida na União Europeia”!!!
Alguém poderá argumentar tratar-se de um país muito quente, sujeito a este tipo de situações. OK, seja. Por isso fui aos dados da Pordata e comparei os países europeus com probabilidades semelhantes, ou seja, Espanha, Itália, Grécia e, porque não, também a França e verifiquei que conseguimos batê-los a todos, sempre!
Entre 1990 até 2014, somos praticamente os campeões absolutos, conseguindo bater recordes ano após ano e, frequentemente, a deixar a “concorrência” a grande distância como convém nos campeonatos.
Se quiser verificar, siga esta ligação: bit.ly/areaardida e verificará não ser apenas no futebol que somos campeões europeus pois ninguém queima tanta terra como nós. E se não é o clima a explicar, porque também há calor nos outros países mediterrânicos mencionados, é o quê? Incompetência, pura e dura.
Segundo relata o Diário de Notícias, e cito, “os técnicos de protecção civil defendem que ‘este problema, estes números e estas consequências, não são da responsabilidade deste Governo, nem deste dispositivo operacional, antes, de anos e anos de medidas estratégicas mal tomadas, e decisões políticas de ordenamento florestal erradas, omissas e insuficientes’, além de só se falar de incêndios nos meses críticos e “exclusivamente sobre a resposta operacional”.
É óbvio. Num país de pavões onde tudo se trata sempre à flor da pele, que mais esperar?
Portugal é um país onde se grita muito e faz-se pouco, onde, noutro exemplo, se apregoa a importância das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e se esquece da existência de fusos horários, como me aconteceu hoje ao tentar levantar o orwelliano Cartão de Cidadão no consulado local. “Está aqui sim”, responderam-me, “mas não o pode levantar porque o sistema em Portugal está em baixo. Sabe, é que só entram às 9 da manhã de Lisboa…” E ninguém, lá para aqueles lados, se lembra que talvez fosse necessário a existência de um piquete de prevenção para resolver este tipo de ocorrências? E se a pessoa tiver uma necessidade urgente do documento por uma qualquer razão? Lisboa não quer saber, Lisboa só entra às suas nove. É como os incêndios. Em breve virão as chuvas e com elas o esquecimento. Até para o ano, até não existirem mais árvores para queimar para ver se o problema se resolve por si próprio. Se calhar até é uma opção inteligente.
Que penso então do andar da carruagem lusitana? Penso que qualquer dia nem sequer carruagem há quanto mais andar.

MÚSICA DA SEMANA

“Don’t Let Me Down & Down” (David Bowie, 1993)

“I know there’s something in the wind
That crazy balance of my mind
What kind of fool are you and I?
Scared to death and tell me why
I’m sick and tired of telling you
Don’t let me down and down and down
Don’t let me down and down and down
Still I keep my love for you”

14 Set 2016

A sede da vitória

Não gosto de escrever sobre futebol porque não acho que seja assunto. Escreve-se demais, fala-se demais e normalmente mal. Espreme-se um jornal desportivo e é como aquelas laranjas secas que nem que lhes passe um cilindro por cima deitam um pinga que seja de sumo.
Mas hoje vou falar (também) de futebol e de medalhas, e tentar reflectir sobre a razão de toda a esquizofrenia que roda à volta das vitórias desportivas que, em minha opinião, apenas conseguem subverter tudo aquilo que o desporto tem de bom. Ou seja, a saúde para quem o pratica – e não para os atletas de alta competição com tantos a acabarem em farrapos depois dos esforços sobre-humanos que são obrigados a fazer – e o prazer para quem desfruta das exibições dos atletas.
Portugal ganhou o campeonato da Europa mas, em boa verdade, isso serviu para quê? Para umas valentes bebedeiras, para um alucinação colectiva quasi opiácea, para quem quer que seja que fornece as medalhas a São Bento fazer mais uns cobres e para os portugueses, momentaneamente, acharem que são os maiores da cantadeira, para podermos ter o gozo de humilhar os franceses, depois de termos bastas vezes termos sido humilhados por eles. A velha história do “olho por olho” que apenas faz o mundo todo cego.
Mas somos mesmo os melhores da cantadeira? Somos, neste caso, melhores do que os franceses, ou que todos os outros que nos passaram pela frente? Não. Senão éramos mesmo e não tínhamos de andar de joelhos a pedir resgates. Não porque jogámos um futebol horrível que nem para entreter serviu. Não porque andamos a transformar o país num paraíso de férias para quem as pode pagar – que não são os portugueses – cegos pelos cobres fáceis que vão prostituindo as cidades para servir os visitantes.
Tal como a selecção se prostituiu para poder trazer a taça para casa. Disse e continua a dizer, o nosso seleccionador, que não lhe interessa que o jogo seja feio desde que ganhe. Criticá-lo? Não posso porque é isso que lhe pedem. Como profissional que é cumpre.
Como o caro leitor deve calcular, tendo este texto sido escrito ontem não faço ideia do que acontecerá com a Suíça mas tenho quase a certeza que vai ser um jogo feio. Em contrapartida, divulgava hoje o jornal Record, declarações de Jorge Jesus que alegava ter sido inspirado por Cruyff nos seus métodos fácticos porque, diz ele, e cito, “Para Cruyff, o futebol era arte e espectáculo e preferia ganhar por 5-4 do que por 1-0”, um pensamento que alega Jesus, e nós sabemos que é verdade, “ainda existe no Barcelona”. De facto as equipas de Jesus dão espectáculo mesmo que percam e é isso que o desporto de alta competição deve ser. Mas se não ganha vai ser considerado um animal como foi considerado no Benfica quando não o conseguiu apesar da equipa ter jogado do melhor futebol que se viu em Portugal e na Europa nos últimos anos, como o será no Sporting se não ganhar. Aliás, já foi por não ter ganho nada o ano passado. Mas eu, como sportiguista diverti-me a ver os jogos da equipa como não me divertia há anos. Mas isso não interessa para nada se a puta da taça não vier para o armário.
Vivemos na paranóia do vencer custe o que custar, mas a grande questão para mim é: isso faz-nos mais felizes?
Após a vitória no Europeu, seguiram-se mais umas quantas vitórias de equipas e atletas portugueses, mais uma taleigada de medalhas e povo entrou em histeria. Éramos mesmo os maiores da cantadeira.
Mas vieram os Jogos Olímpicos e com eles a depressão. Afinal só deu uma medalha quanto já se faziam contas às dezenas que viriam do Rio e não faltaram as críticas dos que se sentiram defraudados. Porque os atletas são máquinas, claro. Porque durante o ano, para além do futebol, toda a gente se preocupa com eles, claro. Acabaram-se os heróis apesar dos desempenhos brilhantes de grande parte dos atletas que constituíram a nossa comitiva.
Mas as medalhas valem o quê afinal? Nada. Na maioria dos casos valem apenas um micro segundo a menos do que o desgraçado que ficou em quarto e que entrará para as páginas do esquecimento.
O desporto, tal como é encarado nos dias de hoje, em vez de servir como exemplo, como forma de vida, como inspiração serve apenas para que políticos falhados sigam a carreira do dirigismo para continuarem na mó de cima e perto dos centros de decisão, para fomentar inimizades entre países e para que cada vez mais atletas recorram ao doping pois sem medalhas não há artigos de jornais, nem patrocínios, nem honras.
A China, por exemplo, anda em tournée provincial a mostrar os novos medalhados olímpicos para assim fomentar o orgulho nacional e mostrar ao mundo como o Império do Meio é uma potência. Mas esquece-se de duas coisas: a primeira, e a mais grave é a do destino de grande parte dos ex-atletas (mesmo medalhados!) que lutam para terem uma vida digna como Li Xiaopeng antigo campeão olímpico de ginástica e Liu Xiang, antigo campeão dos 110 metros barreiras, que têm de andar a fazer “reality shows” para sobreviver ou Zou Chunlan, medalha de ouro do levantamento de peso em 2006, recentemente descoberta na miséria a lavar gente numa sauna para sobreviver. Um escândalo que obrigou a federação a amanhar uns trocos para lhe abrir uma lavandaria…
Mas a China e os outros países coleccionadores de medalhas, como os Estados Unidos, que a cada quatro anos tentam mostrar ao mundo como são maravilhosos, esquecem-se de outro facto fundamental: a sua própria dimensão. Para perceber o que estou a falar aconselho vivamente o leitor a consultar este sítio: www.medalspercapita.com onde se prova que Granada, com uma medalha apenas, é realmente o grande campeão do Rio de Janeiro, tanto na análise per capita como por PIB.
E agora vou preparar-me para a utopia de ver um grande jogo de futebol entre Portugal e a Suíça.

MÚSICA DA SEMANA

Cygnet Committee (David Bowie, 1969)

“We used him
We let him use his powers
We let him fill Our needs
Now We are strong

And the road is coming to its end
Now the damned have no time to make amends
No purse of token fortune stands in Our way
The silent guns of love
will blast the sky
We broke the ruptured structure built of age
Our weapons were the tongues of crying rage”

7 Set 2016

A Terra do Eu

Um dia, uma grande tempestade acompanhada de um tremor de terra abriu um buraco na terra perto onde um pastor, de seu nome Gyges, apascentava o rebanho. Curioso, entrou buraco adentro para descobrir um sem número de maravilhas. E o corpo de alguém, de aparência importante, que nada mais tinha do que um anel. Esse anel, veio Gyges a descobrir, conferia o poder da invisibilidade, uma faculdade que acabaria por utilizar para entrar no palácio, seduzir a rainha, matar o rei e usurpar o trono.
A história é contada por Platão na “República”, para referir uma tentativa de Glauco em convencer Sócrates a proporcionar uma melhor definição de justiça convencido que estava de que as pessoas só agem com justiça, quando estão preocupadas com a reputação. Ou seja, temem que os seus actos injustos, façam com que os outros lhes retribuam a injustiça. Para Glauco, tanto o justo como o injusto cederiam ao anel da invisibilidade pois esta livra-os da culpa.
Mal comparado, talvez como um par de óculos escuros nos permite atitudes que a sua ausência inibe, pois escondidos os olhos, a mentira sai mais fácil.
O mito de Gyges traz-nos à lida o egoísmo psicológico, todos os homens são egoístas em tudo o que fazem, e o único motivo pelo qual alguém age é apenas o interesse próprio.
Em suma, o egoísmo psicológico, uma tese que argumenta que cada um tem apenas um objectivo: o seu próprio bem estar.
Há mais de uma dezena de anos, ao passar por uma situação menos confortável em Macau, alguém com muitos anos de terra dizia-me para relaxar porque esta sempre foi uma terra boa, solidária, onde todos são ajudados a cair de pé.
Tinha razão. Assim, era. Passado. Para mim, essa história acabou, ou está prestes a cair no esquecimento dos tempos. Essa particularidade que deixava Macau incólume dos egocentrismos que assolam o resto do mundo tem vindo a esvair-se como a areia de uma ampulheta que perdeu o condão de se virar.
Noto eu, mas também tenho notado em várias entrevistas a pessoas comuns da terra que vão surgindo na imprensa. Quando instados a compararem os dias de hoje com um passado não muito longínquo, a falta de solidariedade que era tão normal como o ar que se respirava nota-se recorrentemente como um dos principais factores diferenciadores dos tempos.
Terra de egos, onde os que podem criam impérios mais ou menos minúsculos, quiçá para se sentirem grandes na pequenez que os rodeia, Macau tem conseguido transformar-se nessa cidade moderna, e não direi humana porque cada vez menos acredito nas qualidades beatíficas dessa espécie a que eu próprio pertenço.
Somos assolados pelo barulho de brocas, em casa e no trabalho, porque o dono da obra prefere partir o chão ou as paredes a arranjar uma solução de decoração alternativa. Engarrafamo-nos em longos minutos para percorrer distâncias ridículas porque alguém parou em segunda fila, a obra foi mal planeada ou ninguém lhe aprouve parar na grelha amarela. Atabafamos em gases de carros porque toda gente quer andar de cu tremido numa terra que o saudoso padre Teixeira corria diariamente de lés a lés. Tememos ficar a gemer sozinhos no meio da rua porque ninguém quer ter problemas, sofremos com patrões iníquos que tomam decisões a seu bel-prazer porque sabem que os Serviços Laborais não vão levantar uma palha, levamos com maus serviços de empresas porque o Conselho dos Consumidores não serve para coisa nenhuma, vemos o ambiente degradar-se à nossa volta porque ninguém fiscaliza os prevaricadores (a menos que estejamos a falar de fumadores), assistimos a episódios de racismo diário porque na terra da harmonia isso nem sequer faz sentido, vemos ideias usurpadas porque ninguém protege os autores…
É como se um deus gozão tivesse despejado um saco de anéis de Gyges num desses dias de temporal para ficar a gozar o prato, ou, se calhar, foi mesmo Glauco que continua, lá no além, a teimar com Sócrates que a teoria dele é válida para toda a eternidade e nem Macau, essa terra pacata onde as pessoas ainda tinham uma réstia de decência, conseguiu resistir na sua ânsia de ser moderna.
Às vezes interrogo-me se percebemos mesmo que a morte é o único destino certo.

Música da semana

“There Is A Happy Land” (David Bowie, 1967)

There is a happy land where only children live
They don’t have the time to learn the ways Of you sir, Mr. Grownup
There’s a special place in the rhubarb fields underneath the leaves
It’s a secret place and adults aren’t allowed there Mr. Grownup,
Go away sir
Charlie Brown got’s half a crown, he’s gonna buy a kite

13 Jul 2016

Humor Britânico

A saída do Reino (ainda) Unido da Comunidade Europeia é, provavelmente, dos melhores episódios de humor britânico dos últimos tempos.
Tudo tem piada. As tiradas do Homem B, também conhecido por Boris Johnson, e a sua retirada de cena após ter ajudado a pegar fogo ao mato é de partir a rir. Também não deixam de ter piada as declarações do seu companheiro de folguedos, Nigel Farage, que depois de ter andado em campanha com um autocarro vermelho onde se lia em letras garrafais que os 350 milhões de libras que o Reino Unido enviava por semana para a Europa iriam para prover o Serviço Nacional de Saúde, no dia imediatamente a seguir à votação confessou ter sido um exagero de campanha com o qual não concordava, nem sequer podia garantir tal coisa.
Agora demitiu-se porque já ter conseguido o que queria, mas não sem dizer que continuaria sentado no Parlamento Europeu. Humor do melhor.
Não menos divertida foi a reacção de muitos britânicos após o resultado do referendo. Como se tivessem passado a noite no pub a enfrascarem-se e no outro dia acordassem ao lado do diabo da Tasmânia.
Mas a onda de humor ultrapassou as fronteiras do reino ilhéu e chegou aos sisudos alemães. Ou seja, não vejo outra forma de explicar duas coisas: primeiro a corrida da Merkel ao convocar o núcleo dos fundadores como se isso tivesse algum valor institucional e, depois, quando ela vem garantir, que nem rainha de Inglaterra, que o referendo britânico era irreversível.
Ou achamos piada ou então apercebemo-nos de forma vívida porque é que os ingleses, e muitos outros, estão fartos desta Europa.
Mas a piada maior ainda é o facto de praticamente toda a campanha do “sai” ter sido baseada num chorrilho de mentiras. Senão vejamos, ponto por ponto, os grandes argumentos dos secessionistas:

1. Queda nos níveis de imigração
Ninguém na campanha deu quaisquer valores alvo a atingir. Nunca. Para além disso, a grande maioria dos imigrantes não vêm da UE mas sim de ex-colónias britânicas. Até o deputado conservador Dan Hannan disse que as pessoas que esperam ver a imigração descer vão ficar “desapontadas”.

2. Os milhões extra para o Serviço Nacional de Saúde.
Já se sabe que era mentira. Farage dixit.

3. Permanecer no mercado único.
A sério? A noiva fica no altar e depois vai tomar chá e bolinhos com o amante que a deixou? Alguém acredita nisso? Basta ver as reacções dos lideres europeus. Quem vai querer criar um mau exemplo para que outros sigam?

4. Soberania de volta.
Primeiro nunca a perderam e o que vão ter é um novo primeiro-ministro não eleito.

5. Líder mundial em pesquisa e desenvolvimento
Os investimentos do Reino Unido em ciência e universidades caíram desde a recessão. Para além disso, o Reino Unido recebeu 7 mil milhões de libras em financiamento da UE, só para ciência, entre 2007 e 2013.
Isto para não referir que a grande maioria dos principais cientistas britânicos, onde se inclui Stephen Hawking e os membros todos da Royal Society de Cambridge, entre muitos outros, terem assinado uma carta a dizer que o Brexit seria um desastre para ciência britânica.

6. Poupar 2 mil milhões de libras em energia
Prometeram acabar com o IVA nas contas de energia doméstica. É possível mas não vai poupar dinheiro nenhum porque a maior parte da energia consumida nas ilhas é importada e, com a queda da libra, isso significa… inflação, ou seja, electricidade mais cara.

7. Uma Grã-Bretanha maior
Logo a seguir ao resultado do referendo a economia do Reino Unido caiu de quinta maior do mundo para sexta com mais de 200 mil milhões de libras varridas do mercado accionista. Ou seja, um valor igual ao das contribuições do Reino Unido UE durante 24 anos!

Humor do melhor. “Nonsense” na sua melhor forma.
Somado a tudo isto está a ameaça da Escócia de se libertar de vez dos ingleses e até as Irlandas, num caso sui-géneris, falam unir-se e deixar os ingleses e os galeses a falarem sozinhos.
A questão deixa de ter piada quando se percebe o impacto que estas decisões levianas têm na vida de milhões, entre residentes e não residentes, para além dos impactos que se têm vindo a sentir um pouco por todo o mundo.
Pessoalmente, acho que não vai acontecer Brexit nenhum porque o referendo é meramente indicador e o famoso artigo 50, uma obra prima da legislação, vago e que não deixa ninguém perceber como se gere, de facto, a saída de um estado membro, só pode ser accionado após aprovação no parlamento.
Terão os deputados conservadores coragem para accionarem o botão de implosão do Reino Unido? Tenho sérias dúvidas.
Mais não seja, os quatro milhões que já assinaram uma petição a pedir novo referendo (mais gente do que a diferença de um milhão que ditou o resultado) devê-los-ão fazer pensar duas vezes.
Um ponto positivo no meio disto tudo, apesar de potencial: pode ser que este abanão sirva para que a UE se reforme e medidas para aumentarem os níveis de transparência e democraticidade da união sejam tomadas. Talvez seja pedir muito, talvez não.
Juncker anda doido a querer acabar com a comissão e parece que começa a surgir uma tendência para unir mais ainda a Europa. O euro continua a ser um engulho também e muito ainda se irá passar nos próximos tempos. Mas com Brexit ou sem ele nada ficará igual, à excepção daquele gosto amargo que nos fica quando percebemos que andamos a ser governados por uma cambada de inconscientes meninos da escola.

Música da Semana

“Who Can I Be Now? – David Bowie (1975)

Please help me
Who can I be now? You found me
Who can I be? Fell apart, you found me
Now can I be now? You found me
Now can I be real? Can I be?

Who can I be now? You found me
Who can I be? Fell upon, you found me
Now can I be now? You found me
Now can I, can I be real? Can I be real?
Can I be real? Can I be?
(Who) can I be?
Yeah, yeah
(Now) Yeah, can I be (now)?
You found me
(Now) can I be free?
Can I…

6 Jul 2016

Os muros das lamentações

As imagens valem mil palavras, certo? Então aqui ficam três. Acompanhadas de duas sugestões.

I. Com a falta de espaços bravios que tanta falta fazem ao desenvolvimento saudável das crianças porque se encerram os poucos que ainda por aí andam com estas cercas de má catadura? Temporários que sejam porque não deixar que sejam apreciados? As brincadeiras que eu ali não faria se tivesse 10 anos…

II. Mas já que gostam de os tapar, porque o verde é feio, ou porque as ervas picam, sei lá… porque é que o Governo não contrata (sim, contratar) os artistas locais para os decorarem? Será melhor andarmos entaipados por estas cercas de “amarelo-já-morri”?

Música da Semana

“Where Have All The Good Times Gone” (David Bowie, 1973)

(…)
“Won’t you tell me
Where have all the good times gone
Where have all the good times gone
Where have all the good times gone

Once we had an easy ride 
and always felt the same
Time was on our side 
and I had everything to gain
Let it be like yesterday
Please let me have happy days”
(…)

29 Jun 2016

Não estaremos a esquecer-nos de algo?

Por entre névoas do politicamente correcto, da tolerância e da protecção de minorias, o mundo ocidental parece esquecer-se de algo extremamente importante, algo que resolve muitas das questões existenciais dos dias de hoje. Esquecemo-nos de onde vem o sucesso da forma de vida ocidental que tanto prezamos. Esquecemo-nos do enorme valor do laicismo.
Todos nós já vivemos a opressão religiosa. De Portugal à Dinamarca fomos violentados, queimados e ostracizados. Passámos por tempos onde excomungar era uma terrível ameaça. Mas livrámo-nos disso. Prosperámos porque libertos de conceitos e preconceitos, aprendemos a viver livres e até a respeitar os outros. Escrevemos Tratados da Tolerância e até a Carta dos Direitos Humanos, o único texto realmente sagrado da humanidade. Mas hoje discute-se, como se de repente não soubéssemos, a melhor forma de lidar com os muçulmanos e outros povos que não conseguem distinguir a religião do Estado. Preocupados com eles, coitadinhos, quando devíamos é ter dó por ainda não se terem livrado dos atavismos arcaicos nem perceber que Estado é uma coisa e religião é outra. O problema é também parecermos não saber explicar-lhes nem, tão pouco, lembrar-nos desse facto tão crucial na nossa evolução social recente.
Na Suíça, avançava esta semana o DN, (https://bit.ly/muçuaperto) as autoridades educativas de Therwil, cantão de Basileia, depois de dois estudantes muçulmanos do sexo masculino terem contestado o hábito suíço de dar um aperto de mão aos professores, sancionaram o comportamento pois os estudantes alegaram que, caso o docente fosse do sexo feminino, o costume era contrário às suas crenças religiosas.
Na Alemanha, avança a Russian Television (https://bit.ly/salsichanao), vivem a polémica das salsichas após uma série de escolas, cantinas e enfermarias as terem banido por questões religiosas.
Nos Estados Unidos, orgulha-se a Esquire (!) (https://bit.ly/soldadosikh) que considera, e cito, “uma vitória para a liberdade religiosa” o facto de um soldado-norte americano ter vencido a batalha do turbante alegando, uma vez mais, motivações religiosas para ter uma cobertura capilar diferente da dos demais.
Esta semana, foram várias as vozes a insurgirem-se contra o editorial intitulado “Como chegámos até aqui” do Charlie Hebdo (https://bit.ly/hebdoedita), inclusive a do “The Independent”, um jornal que até tenho em melhor conta. Dizem os recalcitrantes que o Charlie está apenas a incitar ódios contra todos os muçulmanos, um texto inadmissível e desapropriado. Já não “somos todos Charlie”, portanto. Diz o editorial a determinada altura, e cito, “veja-se o padeiro do bairro, que acabou de comprar a padaria que vem substituir a antiga do velhote acabado de se reformar. Ele faz croissants excelentes e é um fulano simpático sempre com um sorriso para os clientes. Está mesmo completamente integrado na vizinhança. E não são nem as suas longas barbas nem a mazela de rezar na testa (indicativa da sua grande devoção) que incomodam a clientela. Estão demasiado ocupados a embrulharem as sandes para o almoço. As que ele vende são fabulosas mas a partir de agora não mais existem as de fiambre nem as de bacon. O que não é um problema porque existem muitas outras escolhas – atum, galinha e os complementos todos. Seria, portanto, pateta resmungar ou armar confusão numa padaria tão adorada. Nós habituamo-nos com facilidade. (…) Nós adaptamo-nos.”
Uns malditos os Charlies que têm o desplante de tocar na ferida. Na realidade, uma sociedade sem capacidade para se sentir a si própria, manietada por sentimentos de culpa e atafulhada de pensamentos tolerantes… Melhor, uma cultura sem coragem de ser por causa dos outros, coitados, que até a invejam, candidata-se ao esquecimento desfeita no pó dos tempos. O que nos falta perceber, no ocidente, é não existir vergonha alguma em sermos como somos, em renegar muçulmanos e todos os outros que entendam a religião como uma condicionante da vida, tal como hoje escarnecemos os inquisidores e moralistas que um dia nos fizeram baptizar um certo período na nossa história como “Idade das Trevas”.
Se não pretendermos voltar a esses tempos assustadores, temos de ser capazes de perceber que a tolerância para com os outros não pode exceder a nossa forma de vida, leia-se os Estados laicos que nos deram a liberdade, a alegria de viver, de dizer o que nos apetece, de criar como nos aprouver, de vivermos como nos der na gana. Mas também alguns do nosso lado tentam fazer-nos voltar atrás, como o beato do novo presidente que na sua primeira missão oficial como representante do Estado (laico) português foi beijar a mão ao Papa, fazendo questão de nos lembrar da “dívida” para com o Vaticano por nos ter reconhecido o país… Não está em causa Francisco, que tem tido um pontificado de mérito, mas o significado da visita. Estivesse lá o Rato Zinger e seria igual. Mas em Portugal ninguém disse nada, ninguém comentou. Talvez por acharmos normal, talvez porque, ingenuamente, pensemos que as trevas não mais voltarão. Mas elas voltam quando desistimos de procurar a luz. Talvez não com a cruz, talvez com um crescente, ou outra coisa qualquer, mas virão se não percebermos o que devemos ao laicismo. Não venham, portanto, com razões religiosas para isto ou para aquilo. Não valem. Não são aceites em Estados laicos. Esquecermo-nos disto leva à crise, ao extremar de posições, à intolerância e, por fim, à guerra.

David Bowie – All the Madmen (1970)

(Where can the horizon lie 
When a nation hides 
Its organic minds in a cellar…dark and grim
They must be very dim) 

Day after day 
They take some brain away 
Then turn my face around 
To the far side of town 
And tell me that it’s real 
Then ask me how I feel 

6 Abr 2016

Para que serve a TDM?

Várias vezes me interrogo e nunca chego a nenhum resultado conclusivo. Não percebo qual a missão da TDM. Não produz entretenimento nem ficção, não encomenda aos produtores locais, dá poucos meios aos seus jornalistas, não tem um arquivo de imagem organizado, serve para quê? Sempre que entra uma nova administração espero a proverbial lufada de ar fresco mas, venho invariavelmente a descobrir, que não passa de mais uma corrente de ar que nos deixa cada vez mais obstipados e menos refrigerados. Na volta, e é o que parece, o problema é menos das administrações e mais da tutela que ainda não percebeu para que serve a TDM.
Canais abrem com fartura mas os conteúdos originais continuam a faltar não se compreendendo como a instituição que mais poderia contribuir para o desenvolvimento das indústrias relacionadas com a produção de vídeo e cinema no território continue a passar ao lado do fenómeno. Mas nos tempos que correm, passa tão desapercebida como um elefante a tentar escapar-se de fininho de uma loja de conveniência.
Ao que parece, este ano viram o orçamento reduzido o que, a confirmar-se, é a manifestação do absoluto contra-senso, se pretendermos levar a sério a política do governo de desenvolvimento das indústrias criativas locais. A TDM pode, e deve assumir-se como o principal comprador do território, que assim veria surgirem mais lugares fixos para a produção de vídeo no sector privado, mais possibilidades para actores, decoradores, carpinteiros, para um sem número sem número de actividades que a indústria da produção de televisão e cinema requerem para funcionar. Isto já para não falar no papel que a TDM poderia, e deveria, ter na distribuição de conteúdos “made in Macau” para os países de língua portuguesa. Mas nem tudo requer orçamentos sólidos. A capacidade de ‘network’ com outras televisões na China, a abertura de pontes entre os produtores locais e as televisões chinesas poderia também ser algo para a TDM se entreter enquanto o governo não entende a necessidade, ou a TDM não souber pedir, de uma dotação orçamental condigna.
Também tenho alguma dificuldade em compreender como é possível a TDM ainda não ter um arquivo de imagem e continuar a esquivar-se da sua responsabilidade de prover Macau de memória. Há uma série de exemplos que a TDM poderia seguir para se afirmar como um centro produtor; a RAI, o Canal+, a Arte, até a própria RTP que tem participado na produção de várias ficções originais já para não falar em programas de entretenimento de autoria que poderiam ser exportados. Parece que a TDM já se resignou ao facto das pessoas preferirem ver os canais de Hong Kong e as cadeias internacionais e então resume-se a cumprir calendário sem criar grandes ondas. Como o elefante, na esperança de passar pelos espaços da chuva. Especialmente agora que se anuncia um festival de cinema com 80 milhões orçamento, ao que parece em grande parte suportado pelo governo, esta apatia da TDM torna-se ainda mais ofensiva. É certo que o festival de cinema enquanto tiver a torneira dos cifrões aberta vai manter-se e trazer até Macau muitas estrelas, mas se o tecido local não for fortalecido e entidades como a TDM que deveriam estar a apoiar activamente a produção local continuarem de braços caídos, se os produtores locais continuarem sem capacidade de gerarem e escoarem produto, nenhum festival fará sentido.

Ainda os “macaios”

Tenho perfeita consciência da conotação negativa que a expressão “macaios” encerra e daí a ter utilizado. Lembrar-se-ão muitos, com certeza, de como a expressão “tuga” também já foi mal vista. Limpar os sótãos faz sempre bem.

Música da Semana

David Bowie – “This is Not América”

(…)
The little piece in me,
Will die
(this is not a miracle)
For this is not America

Blossom fails to bloom this season,
Promise not to stare,
Too long
(this is not America)
For this is not the miracle

There was a time,
A storm that blew, so pure
For this could be the biggest sky
And I could have the faintest idea

For this is not America

Shalalalala
Shalalalala
Shalalalala
(…)

17 Fev 2016

Perguntas lixadas

Percebo que a vida do Secretário Raimundo do Rosário não deve ser um mar de rosas. Percebo quão frustrante deve ser responder às perguntas idiotas de muitos deputados, conselheiros e afins e reagir a propostas descabidas umas atrás das outras. Percebo quão difícil deverá ser trocar uma vida na Europa por um inferno de terrenos, gente sem visão, guerras figadais, interesses feudais e gente com a mania de andar de carro para fazer meia dúzia de quilómetros. Percebo até que nas conversas com os seus botões se interrogue sobre o que lhe passou pela cabeça quando decidiu aceitar o lugar mas não percebo respostas do género “não sei” quando, como foi caso, o interpelaram sobre a questão da reciclagem. Especialmente depois de viver 15 anos em Portugal onde, pode-se dizer, as campanhas de reciclagem foram um sucesso. Sim, nem tudo dá barraca no país da ponta. Hoje, segundo dados divulgados este mês pela Sociedade Ponto Verde, 50 milhões de euros depois e passados 20 anos, cerca de 70% dos portugueses sabem o que é reciclagem. De acordo com o director geral da organização, Luís Veiga Martins, em 2000, “o termo ‘reciclagem’ ainda era desconhecido para a esmagadora maioria da população portuguesa e três anos mais tarde apenas 38% das pessoas faziam a recolha selectiva das embalagens usadas, percentagem que disparou para 60% em 2007 e para 71% em 2015”. Qual foi o truque em Portugal? Campanhas de sensibilização. Campanhas bem feitas e pontos de recolha em todo o lado onde existem caixotes de lixo, objectos visíveis, coloridos, chamativos e não as pré-históricas latas que o Secretário conhece e, justiça seja feita, utiliza. Como ele disse, não sabe como convencer as pessoas, mas isso não tem mal nenhum; mas deve, isso sim, saber o que tem de ser feito: publicidade, campanhas e, para isso, existem empresas especializadas. Para a nova geração de portugueses o que se segue pode não significar nada, mas para quem nasceu nos anos 60 como eu, a imagem de gente a atirar sacos de lixo pelas janelas para os baldios das traseiras, de pilhas de sacos de lixo amontoados nas esquinas e ruas imundas eram imagens frequentes, diárias, até muito perto dos anos 90. O Portugal limpinho e reciclado de hoje não tem nada a ver com o Portugal de há bem pouco tempo, pelo que se até nós aprendemos a reciclar e a limpar, qual será a dificuldade de educar meio milhão numa cidade de meio metro? Mas é óbvio que um Secretário não tem a obrigação de saber fazer campanhas mas tem a obrigação de saber o que as deve fazer. Não saber o que acontece ao lixo depois de ser escolhido é que já é mais grave. Como não sabe? Eu sei que o departamento que dirige deve estar assoberbado de trabalho, também sei que a Direcção dos Serviços de Protecção Ambiente é como se não existisse, ao ponto de não percebermos bem o significado da parte “Protecção” da designação ou não andávamos todos a respirar mal e com índices de qualidade do ar consistentemente piores que Central em Hong Kong e, frequentemente, pior do que Cantão ou Foshan. Também sei que as campanhas, quase invisíveis, da DSPA parecem mais destinadas à pré-primária do que a pessoas com dois dedos de testa, mas não se pode esperar respostas deste género de um Secretário a menos que a permanência em Macau já o tenha obrigado a ajustar-se ao nível local para não parecer deslocado.
Disse ainda o Dr. Raimundo, ou a imprensa assim o escreve, que “anda atrás” da DSPA. Como atrás, senhor Secretário? Tem é de andar em cima deles, tem de os pôr a trabalhar e fazê-los perceber que já estamos no século XXI e não nos anos 80. Quero, por isso, acreditar que as respostas de Raimundo do Rosário foram apenas um desabafo de fim de dia, uma forma menos agressiva de mandar os deputados à fava (muitos bem que precisavam de um passeio pelo faval) ou o resultado de quem já não pode ouvir mais cretinices como a da deputada que pretende uma lei para obrigar as pessoas a reciclar. Claro que ninguém é de ferro e a lucidez em condições como as que ele tem de aguentar falha, mas o Secretário não foi propriamente apanhado com questões ao virar da esquina e sabia ao que ia. Se não tinha as respostas é porque não tem assessores de categoria que o protegessem de ir nu para a praça, o que me leva a crer que qualquer plano de reciclagem que venha a ser encetado tem de ir muito para além dos resíduos.

MÚSICA DA SEMANA
David Bowie – “Absolute Begginers”

“I’ve nothing much to offer
There’s nothing much to take
I’m an absolute beginner
But I’m absolutely sane
As long as we’re together
The rest can go to hell
I absolutely love you
But we’re absolute beginners
With eyes completely open
But nervous all the same”

3 Fev 2016