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Eu sou macaio. Senão pergunto-me: alguém no seu perfeito juízo, estando ou sendo da terra, se pretender dar-se ao respeito poderá ser outra coisa que não macaio? Macaio tem muito mais “tchan” do que macaense, macaísta ou macaês. É bem melhor que português ou mesmo chinês. Não se compara com norueguês e muito menos com tailandês. Macaio rima com malaio e só alguém de mente “canhês” pensará em meter-se com um malaio. Não se brinca com um malaio, como não se brinca com um macaio! O macaio dá-se ao respeito. O macaio não é parvo. Catraio talvez, mas não é parvo. O macaio olha de soslaio com um riso “mambaio”. Como macaio eu atraio, falo com o aio e com o catraio e depois saio. Como macaio eu vaio de Maio até Maio até que me dê o badagaio. Macaio rima com paraguaio. Para quê? Para guaio! Como macaio não sou lacaio mas também não desmaio. Macaio rima com paio e viver sem paio não é viver, c’um raio! Só como macaio rimo com paio.
Como macaio eu ensaio e reensaio, e depois sobressaio.
Por isso, somos todos macaios. Que me interessa a mim de onde vens ou para onde vais se aqui vives e aqui respiras, aqui te agasalhas e aqui procrias, se aqui comes e aqui amas, se aqui esmoreces e aqui rejuvenesces, se aqui estás, é tudo o que me interessa. É preciso ser macaio para sentir Macau. Quem não sente… “c’um raio!” Não é filho de bom macaio. O macaio é da terra, adoptou a terra, é daqui, está aqui. Calcorreia da San Ma Lo à Areia Preta, de Hac Sa ao Venetian. Os macaios são tugas, são filipinos ou portugueses, chineses, indonésios, cabo-verdianos, moçambicanos, angolanos e outros africanos; são os italianos, os franceses, os japoneses, os tailandeses, gajos de Hong Kong, gajos de Fukien, os vietnamitas, gajos com mais disto, gajas com mais daquilo. São Han, são isto, são aquilo e qualquer outra coisa de impensável. Até são macaenses. Os macaios são daqui. Os macaios vivem aqui. Os macaios somos nós. Eu sou macaio! “Guetos”, dizem uns, quiçá momentaneamente esquecidos das lições da sociologia ou temporariamente arrebatados por uma crise epidérmica. A prática também mostra, se quisermos ver, como os grupos não se juntam por nacionalidades mas por afinidades. Eu, por exemplo, recuso a dar-me com microcéfalos, campestres, esgalgados e outros parvos chapados. Por isso não me misturo nesse gueto, como os desse gueto não se misturam no meu por o acharem ainda pior do que eu acho o deles. Guetos?… só os forçados me incomodam.
Como macaio eu ensaio e reensaio, e depois sobressaio.
Posso ser garraio mas prefiro ser macaio. Borrifo-me nos “enses” e nos “eses” e em todos os outros que não rimarem macaio. Sou fundamentalista. Racista, quiçá. Ou se é macaio ou se é estrangeiro, mas os macaios dão-se bem com os estrangeiros porque todos os macaios são estrangeiros.
E estamos zangados. Macaios e outros aios, estamos zangados. A terra mudou, mudou como um raio. Foram-se as rimas e os espaços, os sagrados e os profanos, foram-se as tradições da comarca, como também foram as da Dinamarca. Eles lá se queixarão…. Mas talvez na Dinamarca não se tenham encantado com jorros de ouro, nem alguém tivesse trocado forma de vida por vida de forma. Mas que sei eu da Dinamarca? Sei que as tradições mudam e que a coisa também não vai bem. Também sei, ou desconfio que sei: quando o ar fica espesso, quando o espaço não chega, macaio ou paraguaio, tailandês ou finlandês, a todos nos dá para bater no freguês. Alguns batem na mulher. Outros levam da mulher. Mas normalmente batemos, figurada ou literalmente, nos que nos estão mais perto. Talvez na esperança do perdão por afinidade. Do amor, quiçá… Afinal de contas a culpa não é nossa. É da cena. É de tudo, nós somos apenas umas vítimas das circunstâncias… mas entretanto já arriámos o malho! Já dissemos o que não queríamos. Podíamos até partir a cara àquela outra figura desconhecida, àquele cara de “chupa-ôvo”, mas não – porque esse não nos ia perdoar. À partida. Mais vale bater a quem nos está próximo, talvez porque o perdão sabe tão bem. Como mel para urso. Grave ou menos grave, os agressores precisam sempre de ajuda e os que reagem também. Como o bebé chora para pedir colo, pedir mama. A pedir compreensão ou apenas um carinho. Pois. Isn’t that a bitch?
Como macaio eu ensaio e reensaio, e depois sobressaio.
O macaio desde há muito, muito tempo habituou-se a viver o mundo, pelo que só lhe resta vivê-lo. Esta disciplina? Aquela? Aprendemos isto ou aquilo? O macaio aprende tudo e depois vai para o gandaio.
“Boeuf”.. diria o francês, por ente odores de Beaujoulais, olhado de soslaio pelo macaio mas com um sorriso catraio, como um brasiliguaio, a pensar no desmaio.
Ser macaio é ser tudo. Poderemos nós ser menos do que tudo? Qual seria o gozo de semelhante cambaio?
Macaios uni-vos!

MÚSICA DA SEMANA

David Bowie – “Scary Monsters (And Super Creeps)”

(…) She could’ve been a killer 
if she didn’t walk the way she do, 
and she do
She opened strange doors
that we’d never close again

She began to wail jealousies scream
Waiting at the light know what I mean

[CHORUS (twice)]
Scary monsters, super creeps
Keep me running, running scared (…)

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