PARTILHAR

“Eu estava virtualmente a experimentar tudo… E acho que fiz praticamente tudo o que é possível fazer – excepto coisas realmente perigosas, como ser um explorador. Mas tudo o que a cultura ocidental tinha para oferecer – Eu quis passar por tudo.”
Telegraph, 1996

“Fazer o melhor de cada momento. Nós não estamos a evoluir. Nós não vamos a lado nenhum.” Esquire, 2004.

“Não sei para onde irei a partir daqui mas prometo que não será aborrecido.” 
Madison Square Garden, no seu 50º aniversário.

David Bowie foi um dos meus primeiros heróis. Hoje, porque me é mais difícil sentir a atracção pelas estrelas que sentimos quando somos jovens, para perceber o que um adolescente sente ao admirar o seu ídolo do momento tenho de me reportar ao que eu sentia por David Bowie onde tudo o que fazia era um acontecimento para nós. E continuou a fazer. Anos após anos, após anos Bowie continuou a surpreender trazendo-nos sempre trabalho de primeira qualidade, sempre provocativo, sempre grande. Ensinou-nos a libertar, a experimentar, a ser, a usufruir e conceitos tão rebeldes como a própria definição de sexualidade que é muito mais fluidez do que propriamente rótulos estritos de género ou preferência.
A morte dele custou. Primeiro por assim se encerrar uma fonte ímpar de inspiração, de criatividade, de atitude, mas também por morrer um pouco de nós, daqueles que gostávamos da sua obra. Esse é o problema das mortes das pessoas que gostamos, ou nos identificamos: porque, no fundo, choramo-nos é a nós. Choramos a mágoa por não termos mais a pessoa, choramos a falta que ela nos faz, choramos por nós, por não mais a termos. Resta-nos a recordação que sabe sempre a pouco. Com a morte de pessoas que nos habituámos a “conviver” praticamente desde sempre, há uma sensação de eternidade que se esvai, um aproximar desconfortável à nossa própria mortalidade. Quando as estrelas rock da nossa infância se vão, há ainda algo de lúgubre que nos ataca, o sinal que também o nosso ciclo se aproxima do fim; e quando se tratam de foras de série como Bowie é impossível não nos ocorrer se, de facto, fizemos ou não alguma coisa de substancial com a nossa vida; um quinto que seja do que ele fez.
A morte de David fez-nos também perceber quão importante a música e as artes são para as nossas vidas. Nunca tinha visto o facebook assim. Não me parece que esteja a exagerar que no dia da sua morte cerca de 90% dos meus 800 e tal contactos publicavam algo sobre David Bowie. Muita música claro, mas também inúmeras reflexões das quais me permito citar algumas:
Duarte, psicólogo, dizia que “David Bowie, antes de morrer, já estava liberto da lei da morte. Movido por uma criatividade e curiosidade incessantes foi inventando, de obra-prima em obra-prima, o futuro da música e da cultura pop. Distinguia-se por ser alguém grande, de contribuir para uma forma de vida melhor – para usar o conceito de Wittgenstein: desprendia-se das fórmulas, dos sucessos, ou do espaço conquistado/inventado em trabalhos anteriores, para lançar-se vertiginosamente num novo projecto. Continuamente, encorajava ou colaborava com novos músicos e projectos musicais emergentes, que só depois se tornariam conhecidos – por exemplo os Kraftwerk – nunca temendo ficar na sua sombra. A música, a cultura, a forma de vida são bem mais importantes!”  Andreia, produtora de espectáculos, dizia que “compreendo melhor Black Star agora, um disco quase perfeito mas tão enigmático. Foi composto já durante a doença, sabendo provavelmente que não iria recompor-se. Ao choque que senti com a notícia sucedeu-se a serenidade de perceber que Bowie soube lidar com a morte. Ouçamos Black Star. E tudo o resto. Celebremo-lo.” Stu, produtor de cinema e de banda desenhada, desabafava desta forma “É impressionante como um artista pode ter tanta influência noutra alma”. José, artista plástico, confessava a sua mágoa assim: “Nunca a morte de uma celebridade me afectou desta forma. Quando soube da sua morte senti este vazio estranho dentro de mim como se me tivesse sido arrancado um bocado sem permissão.” De facto.
Marilyn Manson contava-nos o seguinte: “A primeira vez que me apercebi de David Bowie, foi a assistir a “Ashes to Ashes” na MTV. Fiquei confuso e cativado. Mas foi só na minha primeira real estadia em Los Angeles, por volta de 1997, que alguém me disse para perder um momento a ouvir algo para além de Ziggy Stardust, Aladdin Sane e Hunky Dory. Então fui dar uma volta alucinante de carro pelas colinas de Hollywood e ouvi “Diamond Dogs.” Toda a minha nostalgia de repente se transformou em admiração. Estava a ouvi-lo cantar sobre ficção como uma máscara para mostrar a sua alma nua. Isto mudou a minha vida para sempre.” Pois é. Era esse o poder de David Bowie. Mudava a vida das pessoas que se detivessem a escutá-lo. Uma influência global, da moda à representação, à forma de estar, ao seu activismo como, por exemplo, quando criticou a MTV por não passar música negra, ou quando rejeitou o grau de cavaleiro oferecido pela rainha de Inglaterra por não saber para que servia, ou a sua permanente capacidade de estar sempre um passo à frente no tempo como quando, em 1996, foi o primeiro artista de primeiro plano a disponibilizar um single para download, ‘Telling Lies’, um processo que, na altura, com as velocidades disponíveis, demorava cerca de 11 minutos.
Mas não posso terminar sem o tweet integral de Val Kilmer que nos dá uma outra perspectiva, menos de Bowie e mais de Jones, o homem por quem Íman se apaixonou como ela recentemente disse: “A última vez que vi David Bowie foi em Brooklyn, junto com algumas pessoas muito muito sortudas que foram assistir a Lou Reed tocar a sua glória negra, BERLIN, ao vivo. Ele estava sentado mesmo à minha frente com a mulher de Lou, Laurie Anderson, que tinha visitado o meu rancho no Novo México com o Lou. Quando nos cumprimentámos, ele virou-se e eu reconheci-o instantaneamente. E eu, em vez de dizer ‘olá’ apenas comecei a dar-lhe uns tapinhas nos ombros. Não consigo descrevê-lo de forma mais precisa. Ele era tão especial que foi a única forma que consegui exprimir a minha alegria. Não acariciei muitos homens dessa forma em toda a minha vida. Estou tão feliz por o ter podido fazer. E, mais importante do que isso: ele deixou-me fazê-lo. Apenas sorriu quando lhe pedi desculpa pelos afagos. Pareceu-me que não apenas entendeu como aceitou a minha estranha oferta de gratidão e reconhecimento. E de repente o encanto desfez-se quando ele se focou intensamente no palco percebendo que para além de qualquer um de nós estava aquele concerto histórico que se iniciava. BERLIN era um disco importante para ele, como o disse várias vezes, e ele valorizava muito a sua amizade com Lou, apesar deste ser um tipo muito difícil, desafiante mesmo. Mas todos nós gostávamos de ser tão “cool” como o David. Mesmo o Lou. David era sempre o tipo mais cool na sala. E era um mestre cantor e compositor. Deus abençoe David Bowie.’”
A morte de Bowie leva também consigo um dos expoentes máximos de uma geração de artistas para quem a fama era apenas boa, como ele disse, para arranjar um lugar num restaurante, tão ao avesso do comportamento tantas estrelas de brilho duvidoso dos dias de hoje que tudo fazem para aparecerem continuamente nem que seja para mostrar o novo par de sapatos.

Da minha parte só espero conseguir pelo menos cumprir um percurso semelhante ao que ele preconizou quando celebrou 50 anos, idade que em breve farei, pois não há nada pior que o aborrecimento. Nada.

MÚSICA DA SEMANA

David Bowie – “Black Star”
I can’t answer why (I’m a blackstar)
Just go with me (I’m not a filmstar)
I’m-a take you home (I’m a blackstar)
Take your passport and shoes (I’m not a popstar)
And your sedatives, boo (I’m a blackstar)
You’re a flash in the pan (I’m not a marvel star)
I’m the great I am (I’m a blackstar)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here