Cada macaco no seu galho

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No primeiro ano da faculdade tive uma cadeira chamada Teoria Geral da Organização do Espaço, nome derivado de uma obra escrita do mestre Fernando Távora, um dos pais da denominada Escola do Porto.
Nessa cadeira, basicamente, o aluno era introduzido à disciplina da Arquitectura, sendo que nos anos subsequentes do curso outras cadeiras teóricas com nomes igualmente encantadores – Métodos e Linguagem da Arquitectura Contemporânea; Espaço Habitável e Formas de Residência; entre outros – orientavam o percurso do aluno ao longo de 6 anos.
Pois que a Arquitectura ensina-se e do arquitecto que seja competente espera-se uma visão e capacidade crítica com base numa cultura arquitectónica sólida adquirida tanto ao longo dos anos da sua formação, como da sua própria experiência de vida.
No entanto, o arquitecto muitas vezes não é respeitado.
Nos poucos anos que trabalhei como projectista em Portugal, tive a honra de aturar um cliente – um developer, conforme se diz nestas bandas, ou pato-bravo, conforme se diz em Portugal – que era particularmente obtuso nesse aspecto. Quando falava comigo era “sô arquitecto” isto e aquilo, mas transmitia no seu discurso tudo menos respeito pela minha formação e profissão.
Tratava-se de um conjunto habitacional com uma série de moradias geminadas e o homem não andava nada satisfeito com a volumetria e os alçados que eu tinha projectado. Queria uma coisa “mais festiva, mais alegre…” e eu, na minha juventude profissional e acabado de sair de uma escola que adoptava uma corrente minimalista, fiz-me de burro e fui resistindo, fazendo de conta que não alcançava o que ele pretendia.
Até que um dia o homem, no limite da sua paciência, aparece no atelier com uns desenhos feitos por ele próprio e simplesmente aterrorizadores. Tinha uns triângulos, umas coisas inclinadas e outras tantas igualmente estapafúrdias. “Atão sô arquitecto, tá a ver? É isso que eu quero! Quero uma coisa bonita, assim, e o filho da p*** que passar pela estrada e vir essas casas vai dizer ah cum carago!”
Não sei como acabou esse projecto porque entretanto vieram as eleições autárquicas, o PS perde uma série de câmaras, Guterres despede-se, entra Durão com o célebre discurso de “Portugal de tanga” e eu concluo que aquilo tudo não é para mim. Despedi-me, fiz as malas e regressei.
Regressei para um Macau onde adjacente à igreja onde fui baptizado se permitiu uma intervenção urbana pseudo-religiosa; onde na vila da Taipa, no sítio onde quando miúdo andava de bicicleta e comprava tai choi kou, se permitiu construir um dragão em pedra e num outro local uma arcada pseudo-paladiana; e onde, em Coloane, se permitiu enfeitar uma praceta de acordo com essa mesma linguagem.
Fiquei algo surpreendido com essas obras.
E terei pensado: “ah cum carago, o autor dessas coisas devia era estar em Portugal a projectar moradias para aquele tal pato-bravo que eu aturei…”
Caríssimo leitor, tudo isso se prende com uma pequena polémica aqui instaurada há umas semanas atrás que mereceu a primeira página deste jornal, e para o qual até fui convidado a prestar declarações: o projecto do Quartel de São Francisco, da autoria do nosso Carlos Marreiros.
Em primeiro lugar, esclareço desde já que o ilustre arquitecto, de seu nome Francisco Vizeu Pinheiro, que no jornal deu tiros no ar e alertou para o eventual perigo dessa intervenção arquitectónica, não é nem mais, nem menos, que o autor das três obras – em Macau, Taipa e Coloane – acima referidas.
Portanto, não se podia esperar desse meu colega outra posição que não fosse a manifestada, já que aparentemente é dono de um universo arquitectónico muito diferente do meu. A forma como aborda a Arquitectura será, digamos, distinta dos “best practices” das actuais correntes arquitectónicas.
Em segundo lugar, caríssimo leitor, quando se intervém num edifício antigo e se constrói no construído, a solução arquitectónica mais bacoca é precisamente aquela que procura uma reprodução mimética do existente. A tentativa de uma coerência formal através da cópia exacta do antigo é um grande disparate que não faz sentido absolutamente nenhum. Algo que abomino.
Não significa isso que não se possa ir buscar referências ao existente, reinterpretando elementos mais representativos à luz de um desenho actualizado e contemporâneo, em harmonia com as actuais tecnologias construtivas. Essa tentativa de diálogo entre o novo e o antigo é sempre possível e muitas vezes é aqui que está a piada da coisa toda. O Centro de Saúde do Tap Seac parece-me ser um bom exemplo: edifício contemporâneo que sempre apreciei por considerar bem integrado naquela envolvente e que, por coincidência, é da autoria do Carlos Marreiros.
Não existe uma fórmula resolvente universal e cada caso é um caso. Dito isto, não quero aqui deixar de mencionar uma outra obra que merece a minha admiração profunda: a Pousada de Santa Marinha em Guimarães, da autoria de Fernando Távora. Repare-se que se trata de um mosteiro antigo e a nova intervenção não tem nem arcos nem nada que se pareça.
(Chega de exemplos, mas por favor não se mencione aqui as pirâmides do Louvre do arquitecto I.M. Pei que considero, com o devido respeito, arquitectura para revista de cabeleireiro).
Face a tudo o que foi dito até aqui, a minha posição relativamente ao projecto do Quartel de São Francisco não podia ser outra: até agora não vi nada que me arrepiasse.
Todavia, através das redes sociais consegui perceber que são poucos os que partilham da minha opinião. E não consigo bem perceber porquê. Volumetricamente, o que há de assustador? É a pedra que incomoda? Será que a malta prefere arcos e paredes cor-de-rosa, imitando o que lá está?..
A verdade é que, por alguma razão que me escapa, o comum mortal que não é formado em Arquitectura julga sempre que dessa área compreende e está habilitado a debater e discutir, mesmo quando o seu interlocutor é arquitecto e teve uma formação específica.
E não se venha ora dizer que se trata de uma questão de “gosto” e que “gosto não se discute”. Quando se discute Arquitectura com pessoas que não são da área, existe sempre a tendência para se escorregar para esse discurso.
Não, a Arquitectura não é uma coisa superficial, não se reduz ao desenho de umas coisas bonitas adoptando este estilo ou aquele estilo. E, na verdade, quando se possui uma considerável cultura arquitectónica, o gosto até se discute.
O que não se pode nem se deve fazer é mandar postas de pescada quando do campo específico em discussão pouco ou nada se sabe. De resto, trata-se de um princípio aplicável a todas as disciplinas – penso eu de que.
Para simplificar, coloquemos antes as coisas da seguinte forma: quando vai ao médico, passa-lhe pela cabeça fazer o mesmo? “Sô dotôr, não quero pace maker, quero uma coisa mais alegre, um coração de porco a imitar o meu coração existente, ah cum carago, e por que não? Pá, é uma questão de gosto e, sô dotôr, o coração de porco é mais bonito e fica melhor, não acha?”.
Cada macaco no seu galho, certo?

Sorrindo Sempre

Diz o ditado que “em equipa vencedora não se mexe”. No entanto, mão de macaco, por alguma razão o Grande Prémio (GP) vai passar para o Instituto do Desporto (ID).
Nada contra o ID. Mas fica aqui registado que se fechou um ciclo de muitos anos em que o GP cresceu, amadureceu e tornou-se num produto bastante sofisticado.
E começa agora um novo ciclo.
Esperemos que as coisas corram bem ao ID porque o GP merece. E, entre outros, esperemos que o evento se limite a atracções relacionadas com o desporto motorizado.
Porque o que queremos ver é competição automóvel ao mais alto nível, velocidade, pneus a chiarem nas curvas e borracha queimada.
E o que não queremos ver é palhaçadas com artistas que fazem poses absurdas e infantis em descapotáveis que circulam a passo de tartaruga no circuito da Guia, ou ilustres que vão ao pódio receber taças sabe se lá por terem vencido o quê.
Pois para nós, fãs do GP, custa-nos que as voltas de uma corrida sejam reduzidas para evitar atrasos e cumprir o programa, para depois afinal ter de dar lugar a essas manifestações baratas do showbiz.
Uma ideia para juntar o útil ao agradável: há sempre quem se queixe dos distúrbios que o GP provoca, sugerindo que o evento seja transferido para Coloane ou Henqin.
Proponho então que se faça mesmo isso e que nessa decorrência se mude para Coloane o programa dos artistas e das suas macacadas. A cerimónia de entrega das taças poderá até ser feita junto dos pandas.
A outra parte do programa que diz respeito às corridas poderá permanecer em Macau, no genuíno Circuito da Guia. Não nos importamos.
(Quem se importar poderá sempre juntar-se aos pandas e aos macacos em Coloane).
Sorrindo sempre.

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