Pessoas e Ideias

André Ritchie -
193
0
PARTILHAR

Pessoas

Disse-me um professor na faculdade que no projecto de Arquitectura era fundamental identificarmos primeiramente as necessidades inerentes à utilização do espaço por projectar para que, assim, as motivações de desenho surgissem progressivamente, ao ponto de o projecto vir a ganhar vida própria, ditando por si o rumo a seguir.
Isto a propósito de um artigo de opinião do jurista António Marques da Silva publicado no passado dia 14 de Janeiro no diário JTM. Incomodou-me a forma como interpretou o meu último Sorrindo Sempre (*), pelo que desde logo me pareceu necessário um esclarecimento.
Todavia, o que inicialmente se previa ocupar não mais que dois parágrafos, acabou por se transformar no texto que se segue. Porque, progressivamente, as motivações de desenho foram surgindo.
Escreveu o senhor Silva, que teve o cuidado de me tratar por senhor Ritchie, que “Em política, como dizia Salazar, o que parece é.” demonio_2010_g
Não podia estar mais de acordo com essa afirmação pois, o que pareceu ser uma coincidência – a entrevista de Miguel Senna Fernandes (MSF) com o tal conteúdo e o meu Sorrindo Sempre, respectivamente publicados neste jornal nos dias 4 e 8 de Janeiro – foi, de facto, uma coincidência.
É um facto que MSF e eu conspiramos muito juntos. Fruto da sua criatividade e do meu humor perverso e pútrido – que nem todos apreciam ou compreendem – materializamos ideias diabólicas e absurdas. No entanto, as nossas conspirações limitam-se às intervenções do Dóci Papiaçám di Macau – e pouco mais.
Portanto, quando confrontado com essa simples coincidência se pretende fazer crer que existe algo mais por detrás, porventura imaginando uma espécie de teatro de sombras chinesas com intenções obscuras, estamos aqui perante um caso óbvio de conspiracy thinking em excesso. China falã lam ko long. (**).
Porque o episódio do elevador não foi por mim inventado. E, estando aqui, esclareça-se que quando faz referência na sua peça à “(…) linguagem deselegante e algo desbragada consubstanciada na brejeirice do termo “enfiar o pau entre as pernas”, obviamente com o intuito de achincalhar a depravada “portuguesa”(…)”, entendo essa crítica como dirigida à tal senhora e não a mim, já que foi genuinamente da boca dela que aquela frase saiu.
E nesse aspecto até partilhamos da mesma opinião, pois trata-se de facto de uma expressão grosseira que não devia sequer ter lugar neste jornal e que, pela mesma razão, muito hesitei antes de decidir pela sua inclusão no meu artigo.
Fi-lo não com o intuito de achincalhar a dita cuja: pretendia, quando muito, chamar à atenção o facto de tudo aquilo se ter passado na presença de um miúdo de cinco anos. Até porque se o intuito fosse mesmo aquele, então teria ido um pouco mais longe.
Mas deixemos isso.
O que não posso deixar é de expressar o meu profundo desagrado quando o meu texto é interpretado como um “(…) vão para a vossa terra seus reinois que esta terra não é vossa! (…)”.
Fiquei verdadeiramente chocado com essas palavras – que, sublinho, não são minhas – e francamente sou incapaz de tolerar uma interpretação tão maléfica mesmo vinda de quem assumidamente não me conhece e que, aliás, admite que com a minha pessoa “(…) nunca cheguei à fala, pelo que não me dou nem bem nem mal com ele. (…)” mas que, sabe-se lá por quê ou para quê, entendeu também acrescentar gratuitamente que “Pura e simplesmente só o conheço por via do herdado apelido.” – whatever that means.
Felizmente para a minha defesa estão os que me conhecem e sabem garantidamente que atitudes xenófobas do género nada têm a ver com a minha natureza. Costumo ser low-profile nessas coisas – mas aqui vejo-me obrigado a fazer esse registo pois está em causa a minha imagem no seio da comunidade portuguesa de Macau da qual, com muito orgulho, faço parte.
Tudo isso vale o que vale. Também prefiro discutir ideias, não pessoas. E não posso deixar de pensar que, em circunstâncias que não fossem as mesmas, sem equívocos, o senhor Silva e eu poderíamos até vir a ter discussões construtivas.
Dito isto, quero agora abordar uma motivação de desenho que identifiquei no seu artigo.

Ideias

É sempre desagradável quando se usa de propósito uma língua diferente para que alguém não entenda a nossa conversa. Pior ainda quando descobrimos que afinal esse alguém domina a nossa língua.
Nós Macaenses, que tanto nos gabamos de dominarmos as línguas todas de Macau, se calhar até somos os campeões dessa prática politicamente incorrecta.
Não escondo que também o faço por vezes, ainda que de forma moderada – se é que isso poderá fazer algum sentido. Mas sou incapaz, por exemplo, de mudar de língua quando pressinto a aproximação de alguém. Aliás, diz a boa educação que nessas situações devemo-nos expressar sempre na língua comum que existe entre os interlocutores.
Por outro lado, já vi cenas suficientes para rapidamente concluir que, aqui em Macau, quando menos se espera, apanha-se alguém a falar fluentemente uma determinada língua. De resto, no mundo da globalização em geral e no nosso multicultural Macau em particular, é indubitavelmente essa a tendência.
Portanto, todo o cuidado é pouco – pelo que nessa altura do campeonato situações como a do elevador são de facto difíceis de compreender.
Mas não foi por isso que esse episódio me incomodou. E aqui vou entrar num campo muito sensível da identidade Macaense.
Escrevi aqui um dia que “(…) nós, macaenses, somos uma grande contradição. Frequentemente os nossos nomes não batem certo com as nossas feições que, por sua vez, não batem certo com a nossa forma de ser e de estar na vida.” (***)
Desde pequeno, foram muitos os Verões que passei em Portugal. Um Portugal diferente do actual, em que os orientais eram uma raridade e que, por essa razão, quando saía à rua as pessoas olhavam para mim com curiosidade, comentavam, apontavam-me o dedo, lançavam umas piadas de kung fu, Bruce Lee e tal, e chamavam-me de “chinês”, até mesmo gritando do outro lado da rua se fosse preciso.
Não escondo que fiquei algo perturbado com essa experiência que sempre me incomodou profundamente – uma espécie de fantasma que me perseguiu durante anos e anos a fio.
Ficava ofendido – e muito – quando isso acontecia. E mais ainda quando me diziam que não era para se levar a sério, não era para me sentir ofendido, e me ofereciam uma palmada nas costas e um sorriso para fechar o assunto. Essas atitudes deixavam-me revoltado e frustrado.
Frustrado porque essencialmente ninguém era capaz de ver as coisas do meu lado e compreender a tempestade de conflitos emocionais que essa simples graçola, para eles inofensiva, provocava dentro de mim.
Com a idade aprendi a lidar com essas situações de uma forma mais tranquila, procurando sobretudo tolerância e paz interior. As minhas reacções são hoje muito mais contidas em comparação com as do passado.
Mas a verdade é que, directa ou indirectamente, sempre que sinto que a minha identidade portuguesa é desafiada e posta em causa ou observações inadequadas são feitas acerca do meu domínio da língua, atinge-se dentro de mim um nervo muito sensível do organismo.
Porque sou português e sou incapaz de compreender a minha existência como não sendo português. E não o sou por adopção ou por conveniência, e também não apenas pelo sangue que corre nas minhas veias. Sou português porque cresci num meio que me fez português, herdei da minha família parâmetros sociais, culturais e uma educação que fizeram de mim português.
Tive o privilégio de poder manter uma relação muito íntima com Portugal, país que conheci com quatro anos de idade e que foi desde sempre a minha Pátria. Tudo isso num período em que vivia num Macau que se entendeu designar por “Território Chinês sob Administração Portuguesa” com todas as suas contrariedades e contradições a nível político e social.
Toda a minha formação foi então concebida e direccionada para enfrentar, com firmeza, o dia em que à meia-noite, diante de mim, vi baixar na minha terra a bandeira do meu país, para que logo a seguir se hasteasse uma outra que não era a minha.
Com tudo isso e muito mais que não quero aqui elaborar, tanto por falta de espaço como para não mergulhar em águas mais profundas, com o tempo construí dentro de mim um sentido de identidade muito forte.
Contudo, essa tal graçola do “chinês”, constantemente a colocar em causa as minhas convicções, tanto me perseguiu ao longo dos anos que cheguei a ter as minhas dúvidas. Vacilei e tive os meus momentos de crise que cinematograficamente se exprimem colocando uma pessoa parada, diante de um espelho, ao som de Nuages de Ryuichi Sakamoto.
Vacilei por sentir que o amor não era correspondido.
Caríssimo leitor, não me interprete mal. Não é uma queixa nem se pretende aqui uma reacção de terceiros que poderão prontamente ripostar com as suas (más) experiências aqui em Macau.
Bem no fundo, objectivamente, posso afirmar que nunca em Portugal fui maltratado – quando muito, fui incompreendido.
O que acabou de ler é então o sentimento genuíno de um Macaense afectado que decidiu hoje abordar um dos efeitos secundários da miscigenação.
Atrevo-me a dizer que não sou o único.
O episódio do elevador incomodou-me por isso.

Sorrindo Sempre
Hoje não me apetece.

(*) Parte final do “Natal (não) Macaense”, Sorrindo Sempre de 8 de Janeiro de 2016.

(**) 諗過龍 : expressão em cantonense para quem pensa em excesso sobre determinado assunto e chega a conclusões distantes da realidade factual.

(***) “Uma Macaense Uyghur”, Sorrindo Sempre de 26 de Junho de 2015.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here